Por Tiago Madeira

Neste 17 de maio, Dia Internacional contra a LGBTfobia, uma boa notícia veio dos Estados Unidos: Chelsea Manning foi finalmente solta da prisão depois de cumprir sete anos por divulgar — através do WikiLeaks — informações de interesse público sobre o impacto da guerra em civis inocentes.

Entre o vasto material divulgado por Manning, ex-soldado americana que esteve no Iraque como analista de inteligência, está o vídeo Collateral Murder. Trata-se de uma filmagem de soldados americanos a bordo de um avião atirando contra civis desarmados, matando pelo menos 12 pessoas — inclusive dois jornalistas da Reuters — e ferindo duas crianças.

Acredita-se que seus vazamentos foram algumas das motivações não só o fim da guerra no Iraque no final de 2011 como também serviram de combustível para as revoluções no mundo árabe.

Presa aos 22 anos, a jovem Chelsea já passou quase 25% da sua vida nessa condição. Antes mesmo de ser julgada, esteve em confinamento solitário por 11 meses e foi forçada a ficar nua, sem seus óculos, sofreu humilhação e privação do sono. Juan Mendez, relator especial da ONU sobre tortura, descreveu o tratamento dado a ela nessa ocasião como cruel, desumano e degradante.

Seu julgamento, realizado em 2013, foi construído cuidadosamente de forma a minimizar suas possibilidades de vitória. Com efeito, ela foi condenada por uma corte marcial a 35 anos de prisão. Durante o processo, 24 testemunhas depuseram em sessão fechada, permitindo que o juiz justificasse sua decisão alegando que tem provas secretas.

Chelsea, que é uma mulher trans, foi forçada a cumprir sua pena numa prisão masculina. No ano passado, ela tentou cometer suicídio duas vezes e fez uma greve de fome para denunciar as medidas disciplinares às quais foi submetida.

Em janeiro, sua pena foi comutada por Barack Obama em um de seus últimos atos como presidente depois de uma enorme pressão popular. Diversos protestos nos EUA e uma petição com mais de 115 mil assinaturas foram necessários para que Obama comutasse a sentença de alguém que ele já afirmara, desde antes do julgamento, que havia violado a lei.

Na nota em que divulgou semana passada, Chelsea afirma que “pela primeira vez, eu posso ver um futuro para mim como Chelsea. Eu posso imaginar sobreviver e viver como a pessoa que eu sou e posso finalmente estar no mundo exterior. Liberdade costumava ser algo que eu sonhava, mas não me permitia imaginar plenamente. Agora, liberdade é algo que eu voltarei a experimentar com amigos e entes queridos depois de quase sete anos de barras e cimento, de períodos de confinamento solitário e de minha saúde e autonomia restritas, inclusive através de rotineiros cortes de cabelo forçados”.

Sua saída da prisão militar de Fort Leavenworth é conquista da nossa luta e é motivo para os jovens de todo o mundo que combatem as guerras, o imperialismo, a LGBTfobia e todas as injustiças comemorarmos.