Intervenção de Chico Alencar (PSOL-RJ) no Painel de Educação do Acampamento Internacional das Juventudes em Luta

“Eu não sou nada, não posso ser nada, não devo querer ser nada. À parte isso, trago em mim todos os sonhos do mundo.” Fernando Pessoa.

Nessa noite de vigília pascal, que pros velhos cristãos é muito especial, nós íamos falar a partir de Paulo Freire. “A educação não transforma o mundo, mas muda as pessoas, e essas transformam o mundo.” E na verdade, do ponto de vista acadêmico, não rolou essa conversa. Eu vou desafinar o coro dos animados e dar uma de velho professor, que sou, ou tento ser. O velho Paulo Freire, que eu também tive o privilégio de conhecer. Não só vi uma greve geral na vida, também conheci Paulo Freire. Não foi a greve de 1917, não, essa eu não era nascido.

Essa consigna do Paulo Freire me fez lembrar o seguinte: vamos trabalhar como ele, que aprendeu a aprender a alfabetizar com palavras-chave. Em vez de “Ivo viu a uva”, que não tinha nada a ver com o camponês do seu Nordeste, com o pobre do Brasil, ele queria trabalhar com palavras geradoras, que estavam na vida do cotidiano das pessoas. “Tijolo”, “chão”, “exploração”, “compreensão”, “feijão”, “pão”, “mão”, “braço”, “solidariedade” – que não vem de “solidão” e sim de “solidez”. Por isso que eu queria trabalhar muito rapidamente, com esses sete minutinhos agora que me restam, com essas três palavras da frase: “Educação não muda o mundo, transforma as pessoas, e essas revolucionam o mundo.”

Primeiro: “pessoa”. O que é pessoa, hein? Quando a gente vai vivendo – a maioria de vocês ainda não se deram conta disso, e é bom elucidar – a gente vai percebendo que tem defeito de fabricação e prazo de validade. Todo ser humano tem isso. Nós somos seres finitos, mas carregados de infinito dentro de nós. Eu só vi aqui nesse encontro sonho, projeto, utopia, que é o não-lugar que a gente chega caminhando no lugar em que estamos. Isso é essencial. Sem isso a gente se desumaniza. Ser pessoa é se sentir irmão de tudo que tem patas, asas e raízes, um sentimento de pertença em tudo que pulsa, e não olhar a natureza como eu aprendi, no meu colégio de aplicação na UERJ – que era também uma escola de luta – que a natureza existe para ser subjugada pelo ser humano. E o sistema capitalista desenvolveu essa ideia ao extremo, e mesmo o socialismo real do século XX também entrou nessa dinâmica produtivista, que faz com que hoje, pra se ter o consumo médio de um americano que enfia o hambúrguer e Coca-Cola dentro do bucho (e do Bush, do Trump, de todos eles), a gente precisava de dois planetas. E no entanto, vejam: a humanidade produz diariamente o necessário para se alimentar bem todo o mundo, e no entanto, um terço da humanidade hoje vai dormir com fome. Alguma coisa está fora dessa ordem mundial.

E a pessoa não é pessoa se não tiver esse sentimento de compreensão do mundo em que vive. Educar é descentrar. Paulo dizia, nós não aparecemos na escola como uma folha em branco, onde o mestre que tudo sabe vai deixar indelével a sua sabedoria e o seu ensinamento. Não, nós somos tudo que a gente sente desde a barriga da mãe, desde a mais tenra idade, nós temos uma percepção do mundo até que a gente chega à consciência que os idiotas da escola sem inteligência (não vamos chamar de Escola sem Partido não, isso é um golpe deles para enredar os outros. É escola sem inteligência, é escola sem crítica, é escola sem ser humano), a gente só adquire a consciência plena quando percebe que ser é ser com os outros. Penso nos outros, logo existo. Sou, logo existo. É esse ser, é essa pessoa que a educação forja, a educação libertadora, emancipatória, democrática, numa escola democrática, libertadora, crítica, emancipatória. É essa pessoa que muda o mundo, em comunhão. De novo Paulo Freire: “Ninguém educa ninguém, as pessoas se educam em comunhão”. Trocando, respeitando as diferenças, crescendo com as diferenças, a partir de um projeto comum, igualitário e socialista, radicalmente democrático.

E aí a gente entra na ideia da educação dele. Educação é ensinar o olhar para dentro e para fora. O meu querido e saudoso amigo Augusto Boal, (a única vantagem de viver muito é que a gente vai tendo boas lembranças. O Pedro Nava, que é um mineiro memorialista que teve o bom gosto de viver aqui no Rio, ele dizia o seguinte: “Velhice é uma merda. Experiência é uma titica. É como um carro com farol na parte de trás. Serve talvez para você iluminar o passado, para frente você não vê nenhuma condição melhor.” Pelo contrário, a vista vai ficando mais turva, os braços vão ficando mais fracos), doce memória, ele disse o seguinte: “Quando eu estou em reunião e alguém começa a pedir: Seja objetivo! eu digo: Impossível! Senão eu deixo de ser humano.” Ser humano é objetividade, sim, mas é também subjetividade. “Ideologia, eu quero uma para viver”. Sentimento, percepção de mundo, leitura crítica da realidade. Mais uma vez Paulo Freire: “Alfabetizar-se é ler o mundo”. Todos somos um pouco analfabetos até o fim dos nossos dias, porque a realidade é maior que a nossa percepção e compreensão. Mas é um desafio, e isso não nos inibe de querer transformá-la e mudar esse mundo injusto e opressivo para melhor, para que todos tenham oportunidade, é disso que se trata.

E por fim, mudar a sociedade. Primeiro é preciso considerá-la mesmo uma sociedade falida, onde a superexploração, a indiferença, a despolitização, a alienação do trabalho dão o tom ainda hoje. A cultura do consumismo, que é a expressão do capitalismo desses nossos tempos, é a cultura de negação da vida. Vale mais a roupa do que o corpo. Vale mais, às vezes, a certidão de casamento do que o amor. Vale mais o que eu compro do que eu consumo efetivamente. Então os tempos do consumo, os shoppings, estão aí para criar a ilusão da felicidade individual, e a gente quer a felicidade coletiva, a gente quer a repartição, o partido, o comum. Por isso essa noite acabou sendo uma noite de vigília pascal no sentido mais universal e ateu da palavra. “Páscoa” quer dizer pessach, quer dizer “passagem”, “travessia”, da escravidão para a liberdade, da morte para a vida.

Eu encerro com meu livro, “A rua, a nação e o sonho”, que é sobre o chamado interregnum, que é um conceito gramsciano pro momento em que a gente está vivendo. Nosso dilema agora, sabem qual é? Nós vivemos num mundo cujas estruturas estão falidas e mortas, ou seja, um mundo que já não é. No entanto, o novo ainda não se realizou plenamente. É o conceito histórico de interregnum, o velho ainda não morreu definitivamente, e o novo ainda não nasceu plenamente. Mas vocês são o novo e são o estímulo. E no último capítulo desse livrinho aqui vem, já que se falou tanto do centenário da Revolução Russa, o Maiakóvski, Vladimir Maiakóvski. Ele fala uma coisa genial, que vocês me evocaram dessa vez. “Ressuscita-me, para que a partir de hoje a família se transforme, e o pai seja pelo menos o universo, e a mãe, no mínimo, a Terra.” Vamos sonhar, vamos lutar, vamos à Greve Geral, vamos vencer!