María Landi

Sob a consígnia “Liberdade e Dignidade”, mais de 1.500 prisioneiros políticos palestinos pedem respeito aos seus direitos fundamentais. Eles estão reivindicando, entre outras coisas, o direito a cuidados médicos adequados, visitas e um fim à tortura e detenção sem julgamento por tempo indeterminado.

Em 17 de abril, enquanto em Montevidéu choveram mensagens de todo o mundo reagindo às declarações dos dirigentes do Pit-Cnt, recém-chegados de Israel, que se gabaram da democracia em Israel enquanto rejeitavam as denúncias sobre as políticas israelenses de apartheid contra palestinos, mais de 1.500 prisioneiros políticos palestinos iniciaram uma greve de fome.

Sob o lema “Liberdade e Dignidade”, eles não pedem nada além do respeito a seus direitos fundamentais estabelecidos no direito internacional. Por um lado, exigem mudanças nas condições de reclusão: acesso à leitura e estudos universitários; duas visitas mensais de uma hora (actualmente é apenas uma de 45 minutos); assistência médica adequada e liberação de doentes terminais ou deficientes; e em segundo lugar, acabar com as políticas desumanas de detenção: tortura, confinamento solitário prolongado, detenção “administrativa” (sem julgamento e por tempo indeterminado) e da transferência de detidos para Israel – em violação à Quarta Convenção de Genebra -, o que dificulta seriamente as visitas familiares.

De acordo com a organização Addamir, há cerca de 6 300 prisioneiros (as), incluindo 500 detentos administrativos, 300 crianças, 61 mulheres e meninas, 13 deputados e 28 jornalistas. Pelo menos mil estão proibidos de receber visitas por “razões de segurança”, e entre 15 e 20 permanecem em completo isolamento. Em 50 anos, desde a ocupação de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental, mais de 800 mil pessoas foram detidas por Israel, o equivalente a 40 por cento da população masculina palestina.

Mandela palestino

Não é a primeira greve de fome em massa de prisioneiros palestinos; mas o que torna esta especial é que ela é mais plural, tendo recebido o apoio de todos os partidos palestinos: os nacionalistas, marxistas e islâmicos. Além disso, o líder e porta-voz do protesto é Marwan Barghouti, líder e parlamentar do Fatah, preso há 15 anos e condenado a cinco prisões perpétuas por seu papel na resistência durante a segunda Intifada (um julgamento marcado por irregularidades, em que o réu recusou a assistência jurídica e a legitimidade do tribunal do exército de ocupação).

Barghouti é o prisioneiro mais famoso e popular, e é conhecido como “Mandela palestino”. A campanha pela liberdade, que começou em 2013, tem sido apoiada por centenas de personalidades e vários ganhadores do Prêmio Nobel da Paz. Em uma carta publicada no The New York Times explicou as razões para esta greve de fome e denunciou as persistentes violações dos direitos humanos que Israel comete contra os prisioneiros e suas famílias.

“Tinha apenas 15 anos quando fui preso pela primeira vez. Tinha apenas 18 quando um interrogador israelense obrigou-me a abrir as pernas enquanto eu estava nu na sala de interrogatório, para acertar meus genitais. Eu desmaiei de dor, e a queda resultante me deixou uma cicatriz permanente na testa. O interrogador depois zombou de mim dizendo que eu nunca mais procriaria, porque as pessoas como eu só geram terroristas e assassinos “, escreveu ele.

Barghouti acusou Israel de manter uma “ocupação colonial e militar desumana” e de um “apartheid jurídico” que procura “quebrar o espírito dos prisioneiros e da nação a que pertencem, infligindo sofrimento em seus corpos, separando-os de suas famílias e comunidades, utilizando medidas humilhantes para nos forçar à submissão. Apesar de tal tratamento, nós não vamos nos render. ”

Mais repressão

As autoridades israelenses responderam ao ataque com violência repressiva, dentro e fora das prisões. Os líderes foram colocados sob isolamento e estão sendo transferidos de uma prisão para outra. Foram confiscados pertences pessoais dos grevistas (em algumas prisões até mesmo o sal que ingerem com a água) e suspenderam as visitas, tanto da família quantos dos advogados. Por esta razão, os advogados de prisioneiros boicotaram os tribunais militares, recusando-se a assistir às audiências.

O apoio ao protesto continua a crescer, tanto dentro como fora da Palestina. A greve geral nos territórios ocupados na quinta-feira 27/04 teve quase 100 por cento de adesão. Na sexta-feira, 28/04, a população palestina convocou um “dia de fúria” com numerosos protestos que foram brutalmente reprimidos pelas forças israelenses; dezenas de manifestantes foram feridos ou presos. Nas grandes cidades e universidades palestinas foram organizadas tendas de solidariedade, e grupos familiares ou estudantes rapidamente se somaram. Um filho de Marwan Barghouti convocou pelas redes sociais o desafio de beber água e sal em apoio aos prisioneiros.

Apoio internacional

Em 1 de Maio, a Federeção Sindical Mundial emitiu uma declaração de apoio a prisioneiros palestinos, à qual se uniu a Confederação Sindical Internacional. No mesmo dia, os sindicatos palestinos chamaram a adesão ao movimento BDS para boicotar companhias israelenses e internacionais que são cúmplices da ocupação, do colonialismo e do apartheid e pressionar para cortar as relações militares e comerciais com Israel. “Reiteramos o nosso apelo ao boicote contra a Histadrut, o sindicato oficial israelense, por sua cumplicidade com violações do direito internacional e sua recusa em tomar uma posição clara de apoio aos direitos do povo palestino”, expressaram sobre o sindicato que convidou o Pit-Cnt de Israel.

Ativistas se juntaram à greve de fome em vários países, enquanto dezenas no mundo aderem ao desafio de água e sal. Centenas de instituições e profissionais de direito no mundo assinaram a declaração de solidariedade da organização estadunidense de advogados National Lawyers Guild. Também emitiram mensagens de apoio o bloco de esquerdas do Parlamento Europeu e a Associação Parlamentar do Mediterrâneo. A organização Samidoun registrou 161 ações de apoio à greve de fome entre 14 de Abril e 7 de Maio.

Questão sensível

A questão dos presos políticos é uma das mais sensíveis na Palestina, um país onde 21 por cento da população esteve ou está na cadeia. A greve de fome e a repressão que as forças sionistas estão empregando dentro e fora das prisões ameaça a já deteriorada imagem internacional de Israel.

A luta dos prisioneiros também tem um potencial político. Para uma população tão desgastado pela brutalidade da ocupação, como desesperançosa pela corrupção e divisões de seus líderes, o chamado de unidade que sai das prisões independente de sectarismos pode levantar o moral e capacitar as pessoas. Um movimento de resistência civil maciça, crescendo desde baixo com uma liderança potente como Barghouti, seria diametralmente oposto aos esforços estéreis de um Mahmoud Abbas desacreditado, buscando apoio dos governos ocidentais.

Israel procura desacreditar o movimento de presos e seu líder acusando-os de “terroristas”. Deixando de lado que a maioria das pessoas nas prisões nunca pegou em uma arma, ou que todos os anos 700 crianças palestinas são julgados em tribunais militares por atirar pedras. Em entrevista ao The Washington Post, a parlamentar e ex-presa Khalida Yarrar disse: “O problema não são as ações de pessoas ocupadas, mas a própria ocupação. As pessoas estão apenas reagindo contra ela. É precisa conhecer melhor o sofrimento diário do povo palestino pela sua falta de liberdade, os checkpoints, as colônias, por não poder acessar suas terras, sua água … O que esperam que faça um povo que suporta tudo isso?”. O próprio Barghouti, que já condenou os ataques a civis israelenses, disse que “não haverá paz nem segurança sem o fim da ocupação”.

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