22/08/2017 – Oly Millán Campos – APORREA.ORG (em espanhol)

É indubitável que, depois de instalada a espúria Assembleia Nacional Constituinte (ANC), o panorama política do país mudou, demonstrando uma vez mais a incapacidade de uma oposição de direita concentrada na MUD, que ano após ano, vem cometendo os mesmos erros sem nenhuma capacidade – porque sua arrogância não lhes permite fazer diferente – para gerar minimamente um processo profundo de reflexão e poder reorientar o rumo errado de sua política. Alguém dizia, e creio corretamente que é assim: o governo tem a oposição que necessita. Mas também, creio como dizia recentemente Enrique Ochoa Antich, num artigo intitulado “Los errores de la MUD”, que sua expressa incapacidade para se converter numa verdadeira opção política para o país, está em que esse “saco de gatos” que é a MUD, não é mais que um grupo de partidos e individualidades que taticamente se juntam para a realização de ações pontuais e de saídas rápidas, esperando que outros façam a devida tarefa, seja o “império norte-americano” ou setores da FANB descontentes com a gestão do governo e sua orientação autoritária.

Esta saraivada de desacertos são produto de, como se refere Ochoa Antich, a incapacidade das visões estratégicas e contraditórias que estão presentes no seio da MUD, que lhes impede de perceber que, depois de 1989, no imaginário coletivo do povo venezuelano se instalou uma disposição de mudança e foi um gerado um processo de busca de um projeto de país que reivindicasse o reconhecimento e a construção de uma sociedade multiétnica e pluricultural, mediante o exercício de uma democracia participativa e protagônica. Neste ponto residem em essência, a meu modo de ver, as profundas debilidades que a oposição tem para gerar vínculos estáveis com o povo venezuelano.

Por outro lado, o fato de que a MUD tenha esse desastroso inventário político, caracterizado pela derrota sistemática, não quer dizer que o binômio Governo – PSUV esteja em melhores condições. No meu entendimento, o que vem ocorrendo é que a instalação da ANC marca um novo rumo na direção e na forma de fazer política no país. O suprapoder, tal como foi proposto que é a ANC, é a expressão de busca da consolidação de um governo e uma elite de poder que começa a ter perfil próprio a partir da morte do presidente Chávez. Esta elite de poder, embora busque sustentar-se num discurso pseudo-democrático, sob o argumento da necessidade de enfrentar as ameaças externas (imperial) e internas que supostamente pairam sobre o governo “revolucionário”, tratará de consolidar – utilizando todo o tipo de mecanismos de poder, inclusive abertamente anticonstitucional como está demonstrando – um modelo de governo autoritário. Este, sem nenhum tipo de respeito ao Estado de direito, executa como política a violência institucional que se traduz em mecanismos de repressão e controle social e político, apagando de forma sistemática as referências da revolução bolivariana e separando-se progressivamente de sua origem, isto é, da alma e da essência da revolução bolivariana. Se não fosse porque a oposição (MUD) tem um legado histórico que evidencia sua torpeza e razão de ser, poderíamos pensar que a mesma colocou uma armadilha para os líderes do PSUV-Governo no sentido de obrigá-los a se mostrar ante o país como o que são: os coveiros da única possibilidade certa de construir o socialismo no século XXI.

Urge construir uma oposição de esquerda.

Oly Millán Campos é economista (UCV), pós-graduada em Finanças (UCV), Magister Scientiarium em História (UCLA); Doutorado em teoria e Política Econômica. Ex-ministra do Poder Popular para as Comunas e Proteção Social (2004-2006). Ex-ministra do Poder Popular para a Economia Popular (2006).