20 de agosto de 1940. O agente stalinista catalão, Ramon Mercader, atinge a cabeça do revolucionário russo León Trotsky que viria a falecer um dia depois na Cidade do México. Um dos assassinatos políticos mais trágicos do século XX completa 77 anos nesta semana e o Portal de La Izquierda traduz ao português uma entrevista de Esteban Volkov, neto do Trotsky.

No centenário da Revolução Russa, da qual Trotsky foi um dos protagonistas mais destacados, prestamos homenagem ao fundador do Exército Vermelho que derrotou 22 legiões estrangeiras e jamais capitulou para a contrarrevolução burocrática de Stalin.

Esteban e sua esposa (1959)


Esteban Volkov, neto do Trotsky: “É preciso restabelecer a verdade histórica”

21/08/ 2017 –

Em 20 de agosto cumpriu-se um novo aniversário do assassinato de León Trotsky no México. Sputnik falou com Esteban Volkov, seu neto, que esteve nesse dia de 1940 na mesma casa do bairro de Coyoacán onde ocorreram esses sangrentos episódios há 77 anos.

Lev Davidovich Bronstein foi presidente do Soviete de Petrogrado em 1905 e em 1917, dirigiu a tomada do Palácio de Inverno durante a Revolução de Outubro. No novo governo foi encarregado das Relações Exteriores e depois foi Comissário de Guerra. Fundo o Exército Vermelho que ganhou a Guerra Civil posterior à Revolução.

Orador e teórico, liderou a oposição a Stalin nos anos 20. Foi expulso do partido e depois da URSS em 1929. Depois de um longo périplo que o levou a Turquia, França e Noruega, México foi o único país que lhe concedeu o direito de asilo, sob a presidência de Lázaro Cárdenas e graças aos ofícios do pintor Diego Rivera. Há 80 anos, o líder russo chegava ao México, porém não se salvou. Três anos depois, um comunista catalão, Ramón Mercader, sob o pseudônimo de Jacques Mornard, cravou-lhe uma picareta de alpinista na nuca e o assassinou por ordens de Josef Stalin.

Esteban é filho de Zinaida, nascida no primeiro matrimônio de Trotsky, e foi testemunha desses momentos trágicos. Desde então considera sua missão “restabelecer a verdade histórica”. Dirige, além disso, o Instituto do Direito ao Asilo – Museu Casa León Trotsky, o mesmo lugar onde seu avô foi assassinado e onde jazem seus restos e os de Natalia, sua esposa.

Quais as lembranças que você tem do seu avô?

Eu cheguei um ano antes de seu assassinato. Houve dois atentados, um em 24 de maio [de 1940] chegou um grupo de stalinistas dirigido pelo pintor David Alfaro Siqueiros, tomaram posse da casa na madrugada com o apoio de um jovem guarda que era um agente infiltrado, Sheldon Hart. Um dos assaltantes estabeleceu uma cortina de fogo frente aos quartos dos secretários e ajudantes e outros foram ao quarto dos meus avós, e de três ângulos distintos metralharam o quarto. Meu avô se salvou milagrosamente, graças ao rápido reflexo de

Natalia, que ante os primeiros disparos o jogou para um canto escuro.
Eu estava no quarto ao lado e dispararam sobre o leito onde me encontrava, esvaziaram toda uma pistola automática no pequeno catre onde dormia, mas o instinto de sobrevivência funcionou, me atirei ao solo, me encolhi, e graças a isso só me raspou uma bala num dedo do pé.

Trotsky sabia perfeitamente que Stalin só lhe havia dado uma pequena trégua e tinha a certeza de que num prazo breve viria outro atentado. Finalmente. um catalão agente da GPU, Ramón Mercader, com o pseudônimo de Jacques Mornard, conquistou uma jovem trotskista dos Estados Unidos e estabeleceu certa amizade com os guardas. Ele foi bastante hábil, nunca mostrou interesse na política.

Depois deste ambiente de favores e pequenas ajudas, um bom dia repentinamente solicita que meu avô lhe revisasse um pequeno escrito que havia feito, e o meu avô não podia negar. Aceitou revisar o escrito e Jacques conseguiu entrar no escritório. Na primeira vez, nada aconteceu, pois seu objetivo era reconhecer o terreno; na segunda vez, levou o pequeno escrito, e quando meu avô inclinou-se para ler, o assassino trazia uma picareta de alpinista e pegou-lhe por trás da cabeça com todas as suas forças.

Meu avô não faleceu instantaneamente, conseguiu levantar-se e lutar com ele, lançando um grito que foi escutado por toda a casa. Rapidamente, chegaram os ajudantes e imobilizaram o assassino. A umas quadras estava esperando a mãe de Jacques, Caridad Mercader, com um agente da GPU, Eitingon, conhecido como general Kotov na Espanha.

Eu chegava da escola. Desde longe vi que algo raro se passava, porque as tardes na casa da rua Viena eram muito aprazíveis. Tudo era feito pela manhã e as tardes eram um remanso de paz. Esse dia vi algo raro, a porta aberta, policiais, um carro mal-estacionado e me veio a angústia, pensei que acontecia algo grave. Entrei e os guardas estavam muito nervosos, segui caminhando pelo corredor empedrado do jardim e numa curva vi um indivíduo que estava imobilizado por dois policiais, gritando e queixando-se. Ao entrar na biblioteca, consegui ver meu avô no solo com a cabeça ensanguentada e Natalia colocando-lhe gelo.

Meu avô ao ouvir os passos pediu para os secretários que me mantivessem afastado para não ver a cena. Emocionou-me muito esse gesto, mostrava sua qualidade humana, um moribundo que se preocupa em causar um trauma no seu pequeno neto. Também conseguiu dar ordens para que não matassem Jacques, o que foi acertado porque graças a isso se pôde descobrir toda a trama.

A 100 anos da Revolução, como você avalia o papel do seu avô na mesma?

Os dois personagens-chave dessa revolução foram Lenin e Trotsky. Lenin desempenhou um papel-chave organizando e criando o partido bolchevique, porque sem essa direção não haveria possibilidade dessa revolução ocorrer.

Trotsky definiu a dinâmica da revolução com a teoria da revolução permanente, contra a teoria da revolução por etapas que defendiam Bukharin e Stalin, segundo a qual primeiro tinha que fazer uma revolução burguesa, e posteriormente deveria se fazer a revolução socialista. Trotsky estabeleceu que era preciso ir diretamente à etapa proletária e que a burguesia não desempenharia nenhum papel progressista. Assim foi na Revolução Russa que estabeleceu o soviete de operários, soldados e camponeses, conseguindo triunfar.

Durante vários anos, estabeleceu-se um governo mais ou menos democrático, mas como em toda a revolução, depois do avanço vem a ressaca, o retrocesso, igual na Revolução Francesa, o que se chama o Termidor. Aí foi onde Stalin desempenhou um grande papel, dirigir a segunda etapa que era a contrarrevolução. Para levá-la a cabo, teve que executar e eliminar os companheiros de armas de Lenin, fuzilando-os e acusando-os nos processos de Moscou, deportando-os aos gulags, para consolidar esse novo poder.

Trotsky interveio com Lenin na preparação e realização da Revolução. Durante a Guerra Civil desempenhou um papel vital, crucial. Organizou e dirigiu o Exército Vermelho e 22 exército estrangeiros foram rechaçados. Muitos especialistas militares inimigos do comunismo reconhecem o papel-chave de Trotsky nessa guerra, pois de outra maneira teria se destruído a União Soviética, com a balcanização em muitos estados, e graças ao Exército Vermelho se salvou a URSS.

Um fato muito importante é que durante a revolução houve uma confiança absoluta entre Lenin e Trotsky. Tanto é assim que nos arquivos da Universidade de Harvard, onde estão os arquivos de Trotsky, há folhas em branco com a assinatura de Lenin, no caso de que tivesse que dar uma ordem e não pudesse contactá-lo. Quer mais testemunho da confiança entre os dois?

Depois da morte de Lenin, Trotsky toma a tarefa de defender a Revolução e luta contra Stalin. Poucos personagens históricos foram tão difamados e caluniados como Trotsky. Ele defendia as ideias e os princípios da Revolução, não tanto pelo poder. Ele disse que teria podido tomar o poder em 15 minutos com o Exército Vermelho, mas não se tratava disso, porque teria se estabelecido uma ditadura burocrática militar. Esses não eram seus ideais. Ele queria manter as bandeiras de Outubro.

Quando os famosos processos de Moscou [1936-1938], nos quais Stalin eliminou toda a vanguarda e os companheiros de Lenin, Trotsky organizou no México os contraprocessos para demonstrar ante a história a total falsidade desses juízos.

O que aconteceu com a sua família?

Toda a família foi perseguida e assassinada. Meu pai, Platón Volkov, foi deportado e executado. Os filhos de Trotsky, León Sedov, o filho maior, estreito colaborador em Paris, morreu em condições muito misteriosas depois de uma operação de apendicite na França, com certeza foi envenenado. O outro filho, Serge, totalmente alheio à política, ficou na Rússia, mas Stalin não lhe perdoou o parentesco e mandou fuzilá-lo. Minha avó, a primeira esposa de Trotsky, tenho entendido que faleceu em campos de concentração. Minha mãe foi levada ao suicídio porque lhe foi negada a nacionalidade russa e não podia retornar à sua pátria, onde tinha seu esposo e outra filha. Esse foi o destino da família, o extermínio, o assassinato.

Você voltou à Rússia para conhecer sua meia-irmã…

Sim, tive uma meia-irmã que conseguiu sobreviver. Um historiador amigo meu contou-se que encontrou minha irmã Alejandra, mas ela tinha um câncer muito avançado e tinha que viajar imediatamente. Era a época de Mikhail Gorbachev, viajei a Moscou, consegui conhecê-la e ela faleceu um mês depois.

Você contou que seu avô não queria que você se metesse na política.

Quando os secretários da casa conversavam comigo, ele lhes pedia que não falassem de política com ‘Sieva’, a abreviação de meu nome. Tratava de proteger-me. Escolhi a carreira de química por minha própria vontade. Na atmosfera da casa, onde havia certa tensão e adrenalina, me viciei em adrenalina. Por isso, escolhi uma carreira que tem seus momentos de tensão, de emoção, quando se trabalha com substâncias venenosas ou explosivas.

Você criou o Instituto do Direito de Asilo onde funciona o mesmo Museu. Trotsky dizia que havia um “planeta sem visto” e México foi o único país que lhe deu asilo, com o presidente Lázaro Cardenas. Como avalia esse papel?

Admirável. A nível internacional é motivo de grandes elogios e reconhecimento este papel que desempenhou o México. Não há país da América Latina do qual não tenha recebido asilados, Chile, Argentina, Guatemala. E com [Lázaro] Cárdenas, o grande asilo dos espanhóis [depois da Guerra Civil no final dos anos 30], que foi muito benéfico para o México, porque trouxe a intelectualidade e os melhores cientistas da Espanha.

Trotsky

Nos últimos anos, há um maior conhecimento da obra de seu avô, seus livros voltam a ser editados em russo. Como você vê esse processo?

Trotsky foi um dos indivíduos mais caluniados e difamados da história. Um dos crimes de Stalin foi destruir a verdade histórica, falsificá-la, dar falsos planos para a humanidade. Isso é imperdoável. Uma das missões que eu considero mais importantes é restabelecer essa verdade histórica e eu me propus a levar a cabo esse trabalho. Eu não me meto na política, mas como testemunha, vivi na carne esta atmosfera de calúnia e difamação a cerca de meu avô e considero que é muito importante restabelecer a verdade histórica.