Charles Rosa (MES-PSOL)

Na reta final do mandato do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, a crise na superestrutura política do Brasil ganhou mais capítulo digno das produções de Holywood: malas com 51 milhões de reais, em notas de cem, foram encontradas pela Polícia Federal em Salvador (Bahia) dentro de um apartamento ligado a um dos principais escudeiros de Temer, Geddel Vieira Lima. Resultado provavelmente da delação premiada do doleiro de Eduardo Cunha (Lúcio Funaro), a descoberta ocasionou a prisão de um dos maiores nomes do ‘quadrilhão do PMDB” e no aprofundamento da agonia que vive o governo ilegítimo, impopular e corrupto de Michel Temer. Recapitular a trajetória de Geddel nos ajuda a entender as entranhas da velha política brasileira desde o período militar, passando por todos os governos da Nova República, até a sua derradeira prisão.

Apelidado de “Suíno” pelos colegas de adolescência e de “Babel” pelas planilhas da Odebrecht, Geddel ingressou cedo nos gabinetes parlamentares, assessorando seu pai, um antigo deputado da ARENA. As boas relações com Antônio Carlos Magalhães, o coronel mais poderoso da política baiana durante a segunda metade do século passado, logo lhe renderam uma nomeação em 1982 como diretor do Banco do Estado da Bahia S.A. (Baneb), onde envolveu-se em seu primeiro escândalo: um esquema de desvio milionário de recursos em benefício de seus familiares.

Em 1990, ingressa na carreira parlamentar pelo PMDB. Sua estreia no Legislativo foi marcada pelo envolvimento no caso dos “Anões do Orçamento”: deputados que criavam entidades sociais fantasmas a fim de receber emendas federais que posteriormente seriam desviadas para o próprio bolso e/ou para o cofre de empreiteiras. No governo de FHC, sua extrema ‘maleabilidade’ moral guinda-o para a liderança do PMDB, participando da ‘operação-abafa‘ contra as investigações a respeito da compra de deputados durante a votação da emenda da reeleição em 1997. [1]

Depois de alguma resistência no primeiro governo petista de 2003 (num almoço com Renan Calheiros e Sarney, Lula chegou a brincar dizendo que trocaria os radicais do PT por Geddel, então da ala minoritária do PMDB), Geddel embarca de cabeça no segundo governo Lula como ministro da Integração Nacional, pasta responsável pela controversa transposição do rio São Francisco [2]. Em 2011, Dilma o nomeia para o segundo cargo mais importante da Caixa Econômica Federal, a pedidos do vice Michel Temer. Na diretoria da estatal, Geddel defende os interesses espúrios da empreiteira OAS. O avanço da Lava-Jato (Geddel recebeu o apelido de ‘Babel’ na planilha da Odebrecht) e as rivalidades locais com o PT, levam-no a trabalhar pelo golpe parlamentar de abril de 2016, recebendo posteriormente como recompensa o cargo de chefe de gabinete de Temer, cargo que lhe confere foro privilegiado. Em novembro de 2016, seu castelo começa a ruir, quando o então ministro da Cultura, Maurício Caleiro, o acusou de pressioná-lo para liberar uma construção em área histórica da Bahia. Áudios contundentes precipitam sua queda.

Meses mais tarde, em julho de 2017, Geddel conheceu pela primeira vez a carceragem da Polícia Federal, após as delações de Joesley Batista e do doleiro Lúcio Funaro. Rapidamente, sua defesa conseguiu que ele fosse para a prisão domiciliar, situação em que se encontrava até o começo deste mês, quando finalmente as malas milionárias foram encontradas no bunker de propinas do PMDB, utilizadas provavelmente para obstruir as investigações e comprar sustentação parlamentar. Tudo leva a crer que mais malas com igual ou maior conteúdo foram retiradas do imóvel nos dias anteriores à operação. Geddel, no momento, está na cadeia da Papuda em Brasília. Nesta semana, a “Comissão de Ética” (vários risos) do PMDB o afastou das funções partidárias por 60 dias, e seu irmão, o deputado federal, também está na mira da Polícia Federal. Resta saber quanto tempo a ‘resiliência moral’ do “Suíno” durará até que ele emporcalhe ainda mais Temer, que aliás acaba de ser ‘flechado’ duplamente por Janot no STF.

O enorme histórico de malfeitos de Geddel e seu clã demonstram, portanto, como as engrenagens da corrupção brasileira vêm se aprimorando nas últimas décadas. Base de sustentação de praticamente todos os governos desde 1985, o PMDB é a ‘quadrilha’ mais potente dentro da partidocracia, mesmo sem ter um nome com ampla popularidade nacional. Além disso, a passagem de Geddel pelos governos petistas de Lula e Dilma atesta a acomodação e conversão do PT à lógica criminosa do regime, seja pela via do financiamento privado de campanha, seja pela participação de seus dirigentes na gestão dos fundos de pensão. Por fim, a crise em que está imersos não só o governo Temer como toda a casta política tornam ainda maior a necessidade de uma rebelião popular, algo que foi bastante atrapalhado pela traição das centrais sindicais ao barrar o 30-J.

[1] À época, o procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, era notabilizado pelo arquivamento de todas as suspeitas que chegavam ao seu gabinete, a ponto de ser apelidado de “Engavetador-geral” da República, bem diferente de Rodrigo Janot.

[2] – Discurso de Lula elogiando Geddel em 2010: https://www.youtube.com/watch?v=30fo4JM13Fw