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A vitória de Trump traz um governo de ultradireita e um futuro incerto

por DAN LA BOTZ (Originalmente publicado em Viento Sur)

A vitória do republicano Donald Trump na eleição presidencial dos EUA não só eleva ao poder o presidente mais de direita da história moderna do nosso país, mas também nos traz, por se tratar de um outsider peculiar na política, um futuro muito incerto. O que podemos ter certeza é que esta vitória conduzirá a ataques contra a classe trabalhadora, as comunidades negra e latina, as mulheres e as pessoas LGBT. A escolha dos democratas de Hillary Clinton sobre Bernie Sanders levou este partido à derrota, enquanto a incapacidade do movimento operário e da esquerda de construir uma alternativa política deixou os eleitores com poucas opções, a maioria delas ruins. Hoje, enquanto metade do povo americano se alegra com o triunfo de Trump, a outra metade cambaleia, sentindo-se atordoada, furiosa, temerosa e triste pela derrota.

O triunfo de Trump

A vitória de Trump significa uma derrota esmagadora para o Partido Democrata e condenou à irrelevância o pequeno (de esquerda) Partido Verde, que ganhou 1% dos votos. Gary Johnson, do partido de direita Libertarian Party, por outro lado, ganhou pouco mais de 3%. Não só Trump ganhou a presidência, mas os republicanos também mantêm o controle do Senado e expandiram sua maioria no Congresso. Trump agora será capaz de nomear a pessoa para preencher a vaga no Supremo Tribunal e preencher quaisquer outras vagas. Além disso, os governadores republicanos agora governam 31 estados da União, enquanto em 27 estados os republicanos também controlam as legislaturas estaduais.

Embora Trump possa parecer um gigante, sua candidatura dividiu profundamente o Partido Republicano, e aos democratas lhes resta o filibusterismo no Senado. Governar não será fácil para ele. Como Trump, com seu programa conservador e pró-capital, responderá às demandas da base operária do partido que agora se ampliou? Como ele vai abordar, por exemplo, a questão do Obamacare, o plano de saúde do qual muitas pessoas dependem? Além disso, é provável que o Presidente Trump enfrente a recessão econômica e questões de política externa – Iraque e Síria, Rússia, China – que são bastante complicadas, para não dizer pior. Estamos prestes a entrar em águas desconhecidas e talvez num mar tempestuoso.

Como ganhou Trump?

Trump, que tem defendido uma agenda econômica nacionalista e exibido retórica racista, anti-imigrante e misógina, ganhou a eleição presidencial de 8 de novembro mobilizando dezenas de milhões de eleitores brancos, da classe média e da classe trabalhadora que estão indignados e furiosos com as elites dominantes em Washington e Nova York. A ironia, para nós esquerdistas, é que a classe trabalhadora garantiu a vitória de Trump. Mas a chave para a vitória de Trump está no voto dos trabalhadores brancos no cinturão industrial, formado pelos estados da Pensilvânia, Virgínia Ocidental, Ohio, Indiana e Michigan, onde a maioria dos homens e mulheres votaram nele. Tem um forte apoio entre os que abandonaram os estudos universitários e entre os eleitores de pequenas cidades e zonas rurais de todo o país.

A classe trabalhadora branca, negligenciada pelo Partido Democrata nos últimos 40 anos, tem se mudado gradualmente para o campo republicano, e este ano a mudança tem sido massiva. Trump tem motivado estes trabalhadores brancos, dizendo-lhes da necessidade de reconstruir a indústria, criar empregos, proteger seus empregos de trabalhadores indocumentados, proteger o país da concorrência estrangeira. Embora ele tenha prometido defender o país do terrorismo, Trump também se pronunciou contra o envolvimento dos EUA em guerras estrangeiras e tentativas de mudar regimes. Para surpresa de muitos, ele também ganhou um número significativo de votos de minorias raciais, ganhando 29% do voto hispânico e 29% do voto asiático. Clinton não conseguiu mobilizar a comunidade afro-americana como Obama fez em 2012, quando obteve 93% dos votos negros. Este ano, Clinton colheu apenas 88% dos votos negros, enquanto Trump reteve 8% e o libertário Johnson 2%.

Apesar de as pesquisas indicarem que Bernie Sanders teria feito melhor que Clinton diante de Trump, os democratas optaram pelo candidato do sistema, ao invés de seu próprio populista, o “socialista democrático” com seu programa de mudança social. Parece que a decisão do Partido Democrata de apresentar Hillary Clinton no lugar de Bernie Sanders garantiu o sucesso de Trump. Alguns eleitores que se sentiram atraídos pela mensagem de Sanders voltaram-se agora para Trump. Embora a maioria dos jovens tenha votado em Clinton, alguns dos que trabalharam para Sanders e votaram nele não foram capazes de decidir votar em Hillary. Alguns sanderistas podem ter votado em Trump e outros em Johnson ou Stein, enquanto outros se abstiveram, irritados com a rejeição de seus candidatos e desencantados com as opções oferecidas a eles.

A vitória de Trump, que prometeu uma futura proibição da imigração muçulmana e pediu a construção de um muro para bloquear os imigrantes mexicanos, não só colocou medo nos corações dos imigrantes latino-americanos e muçulmanos, mas também assusta os negros americanos que conhecem a história de racismo de Trump. Por todos os Estados Unidos houve manifestações contra Trump, lideradas por jovens gritando “Ele não é meu presidente!”. Podemos ter certeza de que a mobilização contra Trump continuará e aumentará, mesmo entre aqueles que votaram nele e ficarão profundamente decepcionados.

DAN LA BOTZ é um escritor e ativista norte-americano.

Uma nova página para apoiar e construir novas alternativas na América Latina e no mundo, defendendo o poder dos trabalhadores e do povo contra o 1% dos ricos e poderosos, e uma sociedade sem exploração.

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