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Pode existir um Estado de Israel democrático?

[Texto escrito em 2014 após uma sequência de barbáries perpetradas pelo Estado Sionista de Israel e republicado agora pelo Portal de la Izquierda por conta da atualidade de muitos debates que propõe, dias depois de Trump anunciar que pretende reconhecer Jerusalém como capita de Israel, em mais um sinal de desrespeito à história e à soberania palestina]

Pedro Fuentes 14/07/2014

O estado sionista quer destruir a Palestina

A atual agressão do estado sionista em terra Palestina não deixa dúvidas: Netanyahu quer destruir a Palestina. Uma das características do sionismo é sua ilimitada capacidade de mentir. Sempre teve que fazê-lo para justificar sua brutal política colonialista, racista, de limpeza étnica, de apartheid, de agressão militar permanente sob o manto de seu “direito a existir”.  Mas suas últimas ações não deixam dúvidas: não é coexistir, é eliminar todo vestígio de palestinos sobre sua terra. Salem Nasser publicou um artigo na Folha de São  Paulo, no dia 17 de Julho   (www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/07/1487025-) sobre este racismo que merece ser destacado. “Trata-se de um tipo especial de racismo, que não se basta em representar sua vítima como traiçoeira e naturalmente orientada para a violência, o que quer é destituí-la do direito de definir sua identidade, negar o seu direito de ser, apagar sua própria história”.   Nasser diz que para isso tem que eliminá-la, e como qualquer ladrão, ocultar o cadáver. Quem está levando adiante esta tarefa suja não é somente Netanyahu, ele é o porta-voz do fundamentalismo sionista que diretamente se opõe a este mínimo direito palestino a existir, a viver.  

A resistência diante da agressão permanente (e o legítimo uso de métodos de defesa armada) pode levar a atos desesperados como no caso dos três meninos israelenses mortos. Mas, nem este, nem nenhum outro fato, justificam uma das mais bárbaras agressões da história da humanidade e que tem um objetivo: não é defender a existência de Israel, mas arrasar definitivamente o que sobra da Palestina depois de anos de colonização, limpeza étnica e apartheid, O informe do relator da ONU Richard Falk, disponibilizado na página web da ONU, no dia 4 de março, o atesta com toda clareza: Israel promove “colonialismo”, “apartheid” e “limpeza étnica” na Palestina: três qualificativos que englobam os objetivos que tem (e por tanto do que é), o estado de Israel.

Isto é o essencial da situação atual, o determinante. Esta é a linha que se consolidou e se tem afirmado no tempo. Os muros que cercam Gaza e Cisjordânia, (mais extenso e mais sinistro que o Muro de Berlim, porque é uma prisão, falar de apartheid é pouco), a sistemática política de aumentar os assentamentos, são um salto de quantidade em qualidade, um processo irreversível, da burguesia sionista “dona”, não apenas dominante, do estado sionista.

 

No estado sionista de Israel se consolidou firmemente o setor mais extremo da direita fascista, assentado no mais sinistro racismo que tem o mundo nestes últimos 70 anos.  Benjamin Netanyahu deve estar sendo apoiado pelos setores mais fascistas da comunidade judaica, por um aparato e uma burguesia que atuam com força própria (como dizia Trotsky o fascismo se apoia nos setores pequeno-burgueses desesperados e em seguida termina sendo aceito pelo grande capital financeiro). Se o sionismo sempre foi um aliado dos EUA com o imperialismo ianque sendo seu sócio maior, agora parece que essa associação, que é e será indestrutível, está invertida.

Com a primavera árabe, Obama ameaçou assumir uma política mais “independente” em relação a Netanyahu.  Esta política tinha que se concretizar no consenso mundial de que há dois estados (não sobre a base das resoluções da ONU de 1968, pela qual Israel devia devolver os territórios, mas sobre certas bases mínimas que permitam à burguesia palestina sobreviver e nesse sentido também aos palestinos que habitam Gaza e Cisjordânia).  De forma crítica, Hamas também terminaria aceitando esta política, e essa deve ter sido a explicação para o acordo Hamas-Al Fatah. Mas esta política do imperialismo, com a qual muitos setores de esquerda conciliaram, se transformou em uma farsa.

A política de destruição da Palestina encerra uma grande contradição: Por um lado, se afirma como política estratégica, quase como principio para as forças consequentemente democráticas e anticapitalistas que não há outra forma de paz e de autodeterminação do povo palestino senão com a destruição deste estado (breve abordaremos o tema do estado como conjunto de instituições e do estado como país).

Por outra parte, como tática e como política concreta, consequência do desenvolvimento da política sionista e da atual correlação de forças, a palavra de ordem presente e concreta é o reconhecimento do estado palestino já, a retirada dos assentamentos e a abertura das fronteiras derrubando o muro. Esta é a única forma pela qual as massas palestinas podem respirar e se pode ganhar a primeira batalha contra o sionismo. Esta é a consigna pela qual agora pode lutar o povo palestino que começa com a retirada das tropas sionistas, o fim da agressão, dos bombardeios e matanças e o bloqueio.  A nível internacional temos que exigir a ruptura de todo tipo de relações com o estado sionista. A mobilização unitária internacional tem que fazer essa exigência aos governos, como já está fazendo o PSOL com toda energia no Brasil.

 

Pode existir um estado de Israel democrático?

O estado sionista sempre será fonte de desestabilização. Temos que aprofundar a questão do estado sionista e a diferença entre estado como país e estado como o conjunto das instituições pelas quais uma classe, ou um setor de classe, domina o país, assim como problematizar (neste caso) a diferença entre regime e estado. Os estados burgueses como países ou como nações se formaram em um processo revolucionário que arrasou os feudos, formou um mercado nacional e ao redor dele uma superestrutura de organização do país (de domínio burguês obviamente), vinculada a relações de classe entre os homens que se construiu sob o impulso do capitalismo em sua fase progressiva, quando desempenhava um papel revolucionário.

No caso de Israel não foi assim. Como país é um engendro imperialista contrarrevolucionário que se construiu sobre a base de uma ideologia super-reacionária que é o sionismo e sobre a base da expropriação e expulsão dos palestinos que formavam 93% da população. Se construiu na fase imperialista, de rapina do mundo pelo capital financeiro, como definiu Lênin. Este estado, fundado sobre a base da comunidade de fé é também um retrocesso em relação ao projeto moderno de “estado fundado na comunidade nacional”.

Seguindo a sistematização de Nahuel Moreno dizemos que o estado (como tal) é uma superestrutura formada pelo conjunto de instituições através das quais uma classe (ou setor de classe) domina. E que regime é a forma como se organizam, se relacionam ou estruturam as diferentes instituições em determinada situação, ou seja, qual é a que domina (Exército no bonapartismo, parlamento eleito na democracia burguesa, etc).

A pergunta é: no estado sionista (racista) de Israel, é possível separar as instituições do estado, ou seja, elas têm a possibilidade de alternar-se ou organizar-se de diferentes formas de poder estatal? Me parece que é um estado irreversivelmente contrarrevolucionário: a) se funda sobre um país artificial, engendrado por interesses imperialistas; b) necessita de uma ideologia reacionária que não pode mudar que é o sionismo (não pode ser laico, por exemplo), sem sionismo não há estado; c) tem que manter um exército em agressão permanente, não pode ter outro papel dentro do estado (há um estado de guerra). Em um estado burguês mais normal há instituições mais independentes como os sindicatos e os partidos políticos. Estes existem em Israel, mas parecem que são marionetes, cada vez mais meros instrumentos absorvidos pelo estado sionista. O argumento que no interior de Israel há “democracia”, porque os palestinos que lá habitam têm representação parlamentar é errado. É uma minoria reprimida que nunca pode sair dessa condição.

Derrubar este estado é algo muito distante de querer dizer que há que terminar com todos os habitantes judeus (como que fazer Netanyahu com os palestinos).  Pelo contrario é a única forma de alcançar o fim definitivo da violência e chegar à forma de convivência entre judeus e palestinos.

Sionismo e islamismo

Também há que distinguir entre ideologia sionista e a islamita. A primeira é a base do racismo opressor, base de sustentação da ocupação de territórios e do avanço no extermínio do povo palestino. Para mostrar ainda mais a cara deste racismo basta recordar a posição sustentada por uma parlamentar israelense que disse que “havia que matar todas as mulheres palestinas para não haja mais terroristas” (O sionismo tomou força sobre as bases do antissemitismo desenvolto até suas últimas consequências pelo estado nazista, felizmente derrotado com a Segunda Guerra Mundial).

A ideologia islamita é também uma ideologia reacionária, retrógrada, que quer obstaculizar conquistas da humanidade, em particular, em relação aos direitos da mulher, e que deforma a luta contra o imperialismo sob a falsa oposição cultural entre Ocidente e Oriente. Deu origem a diferentes movimentos políticos que, a partir desse ponto em comum, abarcam desde a reacionária e autocrata burguesia saudita até Hamas e Hezbolah. Se tornou forte a partir da traição ou adaptação dos movimentos pan-árabes nacionalistas radicais das décadas de 50 a 70 como o nasserismo, ou diretamente revolucionários e marxistas como foi a Frente de Libertação Nacional, na Argélia, e Al Fatah, na Palestina.

As ideologias são superadas ou são fortes segundo o estado da luta de classes e a mobilização. Quando a mobilização avança se abre o caminho para uma consciência de classe e internacionalista. A consciência democrática revolucionária é um passo nessa direção. Assim aconteceu no mundo árabe; se avançou e se retrocedeu, mas nada indica que a mobilização não volte a avançar e por tanto a consciência.

Palestina triunfará

O povo palestino é o que está mais sujeito e mais dependente da luta de classes no mundo. A brutal agressão e o terrível sofrimento transformam a Palestina não só em uma luta do povo árabe, mas também em uma causa mundial. A contradição formulada por Rosa Luxemburgo é atual e há que repeti-la. Socialismo ou barbárie deixou de ser um prognóstico para o futuro para se tornar presente; o estado de Israel é a barbárie para os palestinos e para o futuro da humanidade, não pode seguir de pé.

A decadência do capitalismo imperialista colocou as tarefas democráticas na ordem do dia e mostrou também a incapacidade da burguesia de resolvê-las. Se fizermos um balanço das últimas décadas, houve mais avanços que retrocessos das causas democráticas e eles foram arrancados pelas lutas, mobilizações e revoluções. Foi a mobilização do povo russo que, em última instancia, derrotou o fascismo. Assim caíram as ditaduras na América Latina. Assim se pôs fim ao apartheid na África do Sul, e assim também caíram as ditaduras do estalinismo.

É verdade que a consciência socialista, que é o que supera os nacionalismos entre os povos, e com a que se pode começar a conquistar toda a liberdade, teve um retrocesso porque as massas conheceram como socialismo a degeneração da burocracia estalinista. Felizmente se acabou, e seu fim foi provocado pela mobilização popular e é uma conquista democrática.

Cremos que a resistência palestina não vai baixar a guarda e cada vez mais vai impactar sobre a consciência do mundo. Somos todos palestinos e sua causa triunfará.

Uma nova página para apoiar e construir novas alternativas na América Latina e no mundo, defendendo o poder dos trabalhadores e do povo contra o 1% dos ricos e poderosos, e uma sociedade sem exploração.

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