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A experiência da construção do mandato e da corrente em São Paulo

Desde janeiro de 2017, o Movimento Esquerda Socialista, corrente interna do PSOL, deu início à construção de um mandato na Câmara Municipal de São Paulo, conduzido pela vereadora, dirigente e figura pública de nossa organização, Sâmia Bomfim. A partir de então, as responsabilidades de nossa organização na cidade, nossas possibilidades de construção e enraizamento, ampliaram-se. São Paulo é a maior e mais populosa cidade do país, epicentro de muitos dos principais eventos políticos nacionais. Em pouco tempo, o fortalecimento da expressão política de Sâmia e, consequentemente, do alcance da política e do perfil de nossa organização para setores antes não acessados já é notável.   

Entretanto, a inauguração de um mandato não fomenta apenas questões “práticas” e de construção imediata de nossa organização. Ela traz à luz os debates históricos realizados pela esquerda revolucionária acerca da intervenção dos trabalhadores no interior da institucionalidade como forma de aproveitar as brechas democráticas abertas em determinados regimes políticos, sem que isso leve à adaptação ao parlamento burguês ou ao pragmatismo parlamentar.

Historicamente, duas posturas opostas se apresentam como igualmente equivocadas. De um lado, o sectarismo ultra-esquerdista que recusa qualquer intervenção institucional por enxergar nesta um caminho de inevitável  degeneração burocrática. De outro, o reformismo que orienta a estratégia partidária em torno apenas das disputas institucionais e das ganhos parciais, perdendo a bússola das grandes transformações e da intervenção na luta de classes. Se o primeiro vício condena uma organização à marginalidade política, sem capacidade de alterar o estado de coisas, o segundo anula o caráter transformador e revolucionário do partido, que passa a ser parte da reprodução do sistema dominante.

Dessa forma, acreditamos que a postura de uma organização revolucionária frente ao desafio da intervenção institucional deve ser, ao mesmo tempo, ousada e vigilante, ambiciosa e criteriosa. Há que se ter disposição de utilizar desses espaços e dos processos eleitorais como instrumentos para disputar influência de massas, mantendo os princípios políticos de nosso programa (cujo objetivo final é de destruição dessa própria institucionalidade)  e a independência organizativa em relação ao Estado burguês.   

No cenário brasileiro, observamos nas últimas décadas um peso relevante das eleições como momentos em que a massa identifica, mesmo que distante e com desinteresse crescente, o debate sobre o poder. Por isso, nunca titubeamos em apontar a importância do PSOL disputar a sério as eleições. Junto a isso, defendemos que o partido seja um instrumento vivo de intervenção nos processos de luta, nas greves, manifestações da juventude, que amplie sua inserção nos bairros etc., para que não repita os erros e a trajetória do PT. Falar do mandato de Sâmia Bomfim na capital de SP, como neste texto faremos, ajuda a dar materialidade ao debate.

Quem é Sâmia e o que a levou ao parlamento?

Sâmia Bomfim é uma jovem militante revolucionária de 28 anos. Nasceu no interior do estado de São Paulo e mudou-se para a capital aos 17 anos para estudar Letras na Universidade de São Paulo. Neste espaço, iniciou uma trajetória de militância que já completa mais de uma década. Foi atuante no movimento estudantil, dirigindo o Centro Acadêmico de seu curso e o Diretório Central dos Estudantes da USP (principal DCE do Brasil) por cerca de 5 anos. No período, protagonizou, ao lado de mais de uma geração de militantes, muitos dos quais agora construtores de seu mandato ou militantes do MES/PSOL em outras cidades e estados, greves e ocupações de reitoria, como em 2007 e 2013.

Sâmia combinava desde cedo a militância estudantil com o mundo do trabalho. Em 2011, foi admitida como servidora pública na mesma universidade, como técnico-administrativa. Entrou no sindicato da categoria e construiu a extensa greve de 2014, que durou mais de 60 dias e emparedou o governador Alckmin (PSDB).

Toda essa trajetória foi combinada com a construção do MES/PSOL, de que Sâmia é uma jovem dirigente, e com as experiências realizadas no período. Orientada pela leitura internacional de um giro histórico a partir da crise econômica iniciada em 2008, que levou o mundo a presenciar novamente grandes movimentos de massa, nossa corrente fez uma aposta decidida de inserção na juventude. Menos contaminada pelo ciclo decadente da esquerda brasileira, representado pelo PT, e sintonizada com os novos processos mundiais que despontavam no mundo árabe, na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina, a juventude brasileira podia ser vanguarda da retomada dos processos de luta no país, após longos anos de calmaria sob a hegemonia dos governos do PT.

Foi o que notamos em junho de 2013, quando milhões de jovens trabalhadores e brasileiros de todas as idades foram às ruas e abriram uma crise de morte no regime da Nova República, cujos efeitos se intensificam e as contradições se fazem sentir até o período atual, em sintomas progressivos e regressivos.

Sâmia fôra fundadora do movimento Juntos!, colateral ampla de juventude do MES, professora e entusiasta da Rede Emancipa, movimento social impulsionado por nossa corrente que organiza milhares de jovens periféricos que estudam para ingressar nas universidades, e também liderança do Juntas!, nosso agrupamento feminista. Além da participação destacada em junho de 2013, ela ganhou referência nas ruas durante uma expressiva jornada de luta feminista ocorrida no final de 2015, bem como em diversas mobilizações que se deram pelas redes sociais em torno da pauta. Tornou-se notável, a partir de 2013, um protagonismo crescente das mulheres nos processos de enfrentamento, sobretudo das mulheres jovens que construíram a “Primavera Feminista”, e hoje podemos dizer que Sâmia é a maior representação política deste fenômeno.

Esses breves parágrafos “biográficos” servem menos para descrever uma pessoa do que para demonstrar que o substrato da vitória eleitoral de nossa corrente em SP foi um trabalho longo, paciente e ousado de inserção nos setores sociais e de intervenção nas lutas. Este, portanto, é o perfil de nossa parlamentar e a propaganda que fazemos em torno de sua figura pública: uma jovem mulher, feminista, trabalhadora, grevista, anti-capitalista, radical etc. Como está se comprovando pela experiência, há espaço para isso em São Paulo e no Brasil, ou seja, há espaço para nossa política frente à terrível crise brasileira.

Um mandato a serviço de que?    

Construímos nosso mandato orientados pelos elementos discutidos acima. Nossos objetivos podem ser sintetizados em três eixos: i) fortalecer os processos da luta de classes, dando apoio aos setores e buscando combinar a luta de rua com a luta institucional; ii) denunciar permanentemente a podridão do sistema político brasileiro fazendo, de dentro do parlamento, uma denúncia da própria instituição e um chamado a que as pessoas confiem em suas próprias forças; iii) apontar, de maneira geral, para uma alternativa de poder cujo escala seja não apenas municipal, mas nacional e internacional.

Em relação ao primeiro ponto, em apenas um ano de mandato, tomamos diversas ações exemplares. Na greve geral de 28/04/17, a maior no Brasil em décadas, todas nossas forças se giraram para a distribuição de materiais convocando a greve nos bairros e nos transportes, além de falas em plenário defendendo a manifestação. No dia da Greve Geral, Sâmia amanheceu no piquete dos metroviários, setor protagonista da greve, e anoiteceu na manifestação que reuniu mais de 50 mil pessoas em frente à casa do presidente Temer. Um mês depois, mesmo sendo uma vereadora de São Paulo, Sâmia foi a Brasília na multitudinária manifestação em frente ao congresso nacional, em que se viu uma repressão policial tão intensa quanto a resistência dos manifestantes, empunhando as bandeiras do PSOL, do Juntos e do Emancipa.    

Mais recentemente, em janeiro de 2018, uma ação judicial do nosso mandato combinou-se com um novo processo de luta dos metroviários. Estes deflagraram greve contra a privatização parcial das linhas por Alckmin, e uma ação movida por Sâmia, no dia da greve, impediu a realização dos leilões. Embora horas depois o governo tenha revertido a decisão em instância superior, a medida jurídica gerou enorme fato político, moralizou os trabalhadores e expôs as maracutaias do governo e dos empresários, pois o tema ganhou espaço na grande mídia. Uma das lideranças da categoria e membra do sindicato é dirigente do MES (a também jovem Ana Borguin) e sua figura se fortaleceu no processo, como parceira imediata de Sâmia e vice-versa. Cabe pontuar que Alckmin, hoje, é o principal nome dos “mercados” para a eleição presidencial de 2018. Esse mesmo método de combinação de lutas temos feito com diversas categorias, como professores e outros.

O segundo ponto (denúncia do regime político e do parlamento) é central. Ocorre que a crise política no Brasil, assim como no mundo, amplia exponencialmente o descrédito das massas com os velhos partidos e com a democracia burguesa. Nota-se, cada vez mais, que se trata de uma democracia sequestrada pelos “mercados”, que fazem dos políticos e governantes verdadeiros marionetes de seus interesses e figuras afundadas na corrupção. Temos de nos diferenciar radicalmente, sob pena de servos vistos como “parte do sistema”. De dentro do parlamento, Sâmia ecoa a insatisfação popular com a própria instituição. Desde ações pequenas, como recusar os aumentos salariais e os privilégios, levando uma vida comum, até o chamado mais amplo à ação política dos trabalhadores e setores médios.

Por fim, o terceiro ponto se orienta pela construção global que fazemos do MES e do PSOL. Muito embora o mandato de Sâmia tenha o limite municipal de atuação e compromissos concretos e imediatos com os munícipes, julgamos essencial apontar, sempre que possível, a defesa geral de uma alternativa de poder e de transformações radicais no Brasil e no mundo.

A própria experiência de intervenção no parlamento, em nossa corrente, tem um história anterior. Inspiramo-nos em figuras como Luciana Genro, Fernanda Melchionna e parlamentares ligados ao MES contemporâneos à Sâmia em cidades como Rio de Janeiro, Porto Alegre e Natal. Como uma voz ouvida no município com poder de “formar opinião”, Sâmia ecoa as linhas mestras da estratégia que conduzimos, buscando traduzir nossas posições de acordo com o nível de consciência da massa. O mesmo que vale do ponto de vista internacional. Prestamos solidariedade às lutas e resistências no mundo. Sâmia e sua equipe viajam para eventos de intercâmbio internacional entre a esquerda e os revolucionários. Debatemos a relação entre os problemas locais e à lógica mundial do capital (por exemplo, nas privatizações do prefeito João Doria do PSDB, em que muitas vezes se beneficiam empresas multinacionais estrangeiras).

Conclusões sobre a relação entre construção da corrente e construção do mandato  

Por todo o exposto, fica clara a importância da combinação entre construção do mandato e construção da organização revolucionária. Sem esta, tudo pode se perder no “ativismo parlamentar” ou no reformismo. Já um processo bem conduzido, como buscamos fazer em São Paulo, pode proporcionar à política da organização um alcance superior, assim como inserção e respaldo frente à classe trabalhadora crescentes. Trata-se de uma ferramenta e tanto para romper com a marginalidade, condição fundamental para se fazer política a sério, uma política de massas, nosso grande objetivo.

 O aumento de nossa expressão política por meio da figura pública deve ser acompanhado do aumento do enraizamento social da organização, da presença na base e da participação nas lutas. Também os métodos organizativos da corrente não podem se confundir com o Estado, sendo fundamental a subordinação de qualquer militante, inclusive da parlamentar, ao regime de partido. Dessa forma, cremos estar conduzindo uma experiência de alto valor no município de São Paulo, apontando, em meio à crise política e econômica que tanto penaliza os brasileiros, um foco de esperança, um caminho, mesmo que embrionário, de construção de um novo mundo e de uma nova sociedade.

Pedro Serrano – Coordenador político do mandato da vereadora Sâmia Bomfim (MES/PSOL)

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