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Os professores dão a linha: contra o arrocho, luta!

Erick Andrade  (diretor da UNE pela Oposição de Esquerda e militante do Juntos-DF)

O ano começou com uma importante demonstração de força dos trabalhadores nos Estados Unidos. Em fevereiro, quando os professores de West Virginia – pela primeira vez em mais de 20 anos – saíram às ruas para lutar por direitos, não se imaginava que o movimento poderia se nacionalizar. Depois de West Virginia, professores de Oklahoma e Kentucky também foram às ruas em greves históricas da categoria. Os professores reivindicam, em especial, aumento de salários – estes estados figuram entre os que menos pagam aos professores, alguns recebem menos de US$ 15 por hora – e maior investimento pras escolas, cuja variação da verba repassada pelo estado não acompanhou o aumento da inflação, além de garantia das aposentadorias.

Nas últimas semanas, outros dois estados foram palco da mobilização dos professores. No Arizona, onde o Partido Republicano vêm implementando uma série de medidas, como a privatização de escolas e a isenção de impostos para os mais ricos. Além disso, o descaso com a educação pública é evidente. O Arizona é um dos que menos investem – está em 48º em uma lista de 50 – e as escolas são precárias e faltam professores. O estado também figura entre os com menores salários para professores, muito abaixo da média nacional. Escandalosamente, ao passo em que não se investe em educação, os gastos com o sistema carcerário só aumentam e as prisões se enchem cada vez mais de jovens, em especial negros e latinos.

A greve no Arizona, para além das demandas imediatas, representa um avanço na organização dos trabalhadores em educação no estado, que nunca vivenciou uma greve de professores em todo o estado, e têm uma tradição sindical fraca. Ainda assim, professores iniciaram com o trabalho de base “escola-a-escola” e 78% votaram pela greve, que conta com uma larga aprovação popular. Os próprios estudantes se juntaram aos professores contra os ataques dos de cima e a tentativa de deslegitimação e criminalização do movimento. O governo do estado chegou a propor um aumento salarial para os professores, mas o movimento rejeitou a proposta por não incluir todos os trabalhadores das escolas.

O exemplo do Arizona é cativante porque deu movimento aos professores e abriu espaço para o desenvolvimento de uma alternativa. Ainda há a ausência de uma frente ou sindicato fortes que consigam dar cabo da organização da categoria e dinâmica para continuidade das lutas, com trabalho de base real. Ainda assim, os próximos passos da greve no Arizona podem ser fundamentais não só pro estado, mas pra própria dinâmica nacional, visto os contornos de novidade e certa radicalidade que assume a greve.

Outros estados já sentem essa energia. Professores do Colorado também saem às ruas demandando mais investimento para as escolas e aumento dos salários. O cenário da educação no estado também é caótico: faltam professores, há superlotação e fechamento de turmas. Como resposta às mobilizações e ao indicativo de greves, senadores republicanos apresentaram um projeto de lei que proibe a ação de greve dos professores. Em New York, uma assembleia dos professores adjuntos aprovou que se a CUNY (The City University of New York) não aumentar os salários, haverá greve.

Dar sentido de unidade entre a juventude e os trabalhadores para defender a educação pública como direito.

A resposta dos professores ao descaso dos governos com a educação mostra que, mesmo em meio a uma profunda crise – que se estende pras muitas esferas – há uma disposição de luta no seio dos que mais sofrem. E essa relação de “ataque e contra ataque” se expressa na luta dos professores, mas também nas diversas lutas localizadas que se estendem por todos os Estados Unidos. Os últimos meses têm sido marcados por uma série de movimentações da juventude e dos trabalhadores que comprovam que, partindo de um marco geral, os governos não tem como avançar suas agendas sem que haja respostas do povo.

Os estudantes têm travado importantes lutas, em especial pelo controle de armas. A March Of Our Lives em Washington e as mobilizações descentralizadas foram mundialmente noticiadas. Em Chicago, estudantes negros de South Side resistem contra o fechamento de escolas do governo democrata do estado. Os imigrantes também se mobilizam em defesa dos seus direitos, em especial do Programa DACA, que incentiva o estudo de jovens latinos nos Estados Unidos, e que foi eliminado no primeiro ano do governo Trump. Além disso, a campanha #NoMuslimBanEver combate a política de Trump que impede a entrada de viajantes de 8 países do Oriente Médio (6 deles muçulmanos).

Ainda que estas lutas representem uma resposta importante, a crise de regime, cuja principal expressão foi a própria eleição de Donald Trump, evidencia também o descontrole dos de cima sobre seu próprio regime. A polarização entre as ideias de Trump e Bernie Sanders demonstram a abertura da massa às ideias não tradicionais, ou, mais radicais. Ainda que haja um desgaste dos partidos tradicionais (Republicano e Democrata), da política, dos políticos, e da desordem trumpiana, há também respostas à crise entre os 99%

Estas lutas reafirmam justamente a necessidade de uma resposta orgânica à crise dos de cima. Dar sentido de unidade em meio a diversidade, construindo um programa radicalmente democrático que se contraponha ao regime, é uma tarefa que se coloca aos lutadores do mundo. As mobilizações dos professores nos Estados Unidos não acontecem de forma isolada. No mundo inteiro, há expressões de resistência em defesa da educação.

No Brasil, na França e Chile, estudantes e trabalhadores se unem contra os diversos projetos de desmonte dos direitos. E essa unidade, que coloca em xeque o poder dos de cima, é o que os poderosos mais temem. É uma tarefa avançar nas lutas em defesa da educação pública em todos os países, contra os que insistem em apostar na precarização, nas privatizações, na elitização, nos baixos salários dos professores. A defesa de uma educação é uma luta internacional e juntos podemos avançar na construção de uma educação que seja, de fato, emancipadora.

Uma nova página para apoiar e construir novas alternativas na América Latina e no mundo, defendendo o poder dos trabalhadores e do povo contra o 1% dos ricos e poderosos, e uma sociedade sem exploração.

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