Portal da Esquerda em Movimento Portal da Esquerda em Movimento Portal da Esquerda em Movimento

México à esquerda: uma oportunidade histórica com a vitória de Obrador

Estou acompanhando a eleição mexicana, como observador internacional, a convite dos camaradas da esquerda social e política do país. A enorme riqueza cultural, crivada nos cenários, no contato com o povo, nas ruas da capital, se sente por todo lado. Fui muito bem recebido, fazendo reuniões e seminários com personalidades da esquerda, sindicatos, ativistas, parlamentares e militantes diante da eleição de domingo, 1 de julho.

O clima revela tensão no ar, por conta da violenta campanha eleitoral, fruto do domínio do narcotráfico nas esferas políticas e estatais. Será um processo amplo eleitoral com a renovação de todos os cargos legislativos do país, disputa dos principais governos regionais e prefeituras, além de eleger o presidente para o próximo sexênio. A eleição é de tamanho proporcional ao gigantismo do país: são 3400 cargos em disputa ao todo. Se renovam autoridades locais em 30 dos 31 estado; 128 senadores, 500 deputados federais. Serão disputados 9 governos regionais: Chiapas, Cidade do Mexico, Tabasco, Morelos, Guanajuato, Jalisco, Yucatan, Puebla e VeraCruz.

Caminhando junto ao ambiente polarizado e violento, a esperança de mudança mobiliza centenas de milhares de mexicanos que votam e fazem campanha por Andres Manuel Lopez Obrador, candidato de MORENA(Movimento de Regeneração Nacional). AMLO como é conhecido lidera todas as pesquisas, com mais de 50%, entre 20 e 30 pontos a frente dos candidatos que estão em segundo, num empate técnico, Jose Antonio Meade(PRI) e Ricardo Anaya( PAN-PRD).

Pude presenciar um grau superior de mobilização no comício de encerramento de Obrador no famoso estádio Azteca, com mais de 100 mil presentes. O ato fechou a campanha, com um discurso contundente de AMLO e ampla assistência popular e combativa. Foi uma expressão vibrante de um México que oscila entre o medo e a violência e a esperanca por mudanças tao profundas quanto necessárias.

Nosso vizinho do norte, onde o povo tem identidade e simpatia com o Brasil, protagonizou grandes momentos na historia. As tropas populares de Zapata e Villa derrotaram os latifundiários e oligarcas, na primeira grande revolução social da America Latina no seculo XX. A obra de Reed, México Insurgente, conta com detalhes esse gesto heroico. A constituição de 1917 foi considerada uma das mais avançadas do mundo. O país que recebeu refugiados, imigrantes, perseguidos políticos como Trotsky e os presos da ditadura militar brasileira tem uma larga tradição democrática, que foi sendo liquidada ao longo das ultimas décadas, com a imbricação entre o poder político corrupto e o peso econômico e militar do narcotráfico. Esse México intenso que tem outro capítulo especial de sua história nos próximos dias.

Um narco-regime em decomposição

É impossível entender o México atual sem levar em conta sua principal contradição. O regime político está em decomposição, com um brutal padrão de violência e fraude, empurrado pela relação entre o narcotráfico, os agentes políticos dos partidos do regime e as bandas armadas que atuam nessa área cinzenta.

A violência política impressiona. Conforme o Instituto Nacional Eleitoral, foi a campanha eleitoral mais violenta da história. Segundo a Mexico Etellket, foram assassinados 122 candidatos e pré-candidatos, no período que compreende entre setembro de 2017 e junho de 2018. Guerrero e Oaxaca foram consideradas as regiões mais violentas, com 27 e 19 mortes, respectivamente. A Anistia Internacional denuncia o crescimento do numero de assassinatos, com quase 8 mil homicídios apenas no primeiro trimestre do ano de 2018.

O problema dos carteis do trafico domina o cenário. Além da espetacular cobertura da imprensa do processo judicial que responde, Chapo Guzman, maior traficante do país, o problema é generalizado no âmbito da vida social. O salto de qualidade na violência política- com homicídios, sequestros, infiltrações e controle territorial ocorreu no começo dos anos 2000.

Com o eixo mundial do trafico se deslocando da Colômbia para o México, no período de queda brusca dos carteis de Cali e Medellín, os “narcos” mexicanos tornaram-se os mais poderosos do mundo. O governo de Felipe Calderón lançou uma “guerra contra os carteis da droga”, polarizando mais a situação, sem quebrar os esquemas de corrupção que se alastravam pelas estruturas oficiais de poder. O resultado foi desastroso.

A raiz da crise do regime remonta a crise do PRI(Partido Revolucionário Institucional), depois de um seculo de controle sobre a sociedade de conjunto, num modelo que ficou conhecido como “partido-estado”. O desgaste do PRI, depois de sucessivos conflitos sociais e político, foi galvanizado, através de novas fraudes, para vitorias do seu tradicional rival, o PAN , de origem católica e direitista. Vencendo as eleições de 2000 com Fox e 2006 com Calderón.

Calderón venceu AMLO em 2006 sob suspeitas de grandes fraudes, numa diferença de 0,5%. Seu fracasso abriu a hipótese mais segura de uma vitoria de AMLO em 2012, novamente favorito. As manobras e a fraude foram mais evidentes, dando a vitória a Enrique Peña Nieto, de um PRI agonizante. Era o princípio da crise “terminal” do regime.

O sexênio de governo de Peña Nieto foi marcado tanto por reformas privatizantes e impopulares (abertura do setor energético ao capital privado, sistema de avaliação do magistério com critérios empresariais, etc) como por escândalos de corrupção (negócios escusos da primeira-dama com empreiteiras, rede de empresas-fantasmas com fins de desvios financeiros no Governo Federal, governadores dos principais partidos foragidos sob acusação de malversação dos fundos públicos).

Por outro lado, a hemorragia do regime político não ficou sem resposta dos de baixo. Os movimentos sociais contra-atacaram em alta voltagem durante os últimos seis anos. A resistência indígena bem como os zapatistas em Chiapas ocuparam seu importante papel de contraponto aos ataques de Peña Nieto. Os povoados em regiões altamente crivadas pelo crime organizado começaram a dar uma resposta contundente já no começo de 2013, com os grupos de auto-defesa comunitária nos estados de Michoacán, Guerreo e Jalisco. Outro setor que apareceu com dinamismo na linha de frente dos embates sociais foram os estudantes, cujo movimento #YoSoy132 (em defesa da desmonopolização dos meios de comunicação concentrados em alguns grupos empresariais) ainda nas eleições de 2012 ganharam as manchetes mundiais. Mas foi a desaparição dos 43 estudantes em Ayotzinapa (2014) que fez transbordar o copo da indignação massiva e abriu a brecha para que a população rompesse de vez com os personagens desse regime cada vez mais desgastado.

A crise dos #132, onde Peña Nieto foi reconhecido como presidente mas sem legitimidade, se combinou com a grande crise aberta pelo desaparecimento dos 43 jovens de Aytoznapa. Eis o caldo de indignacao masiva contra o governo e o regime. Ambas mobilizações tiveram na juventude seu principal sujeito social, colocando o México na rota mundial da indignação, junto aos indignados espanhóis e as jornadas de junho brasileiras.

A vitória de Trump agudizou a crise

Cruzada com a crise do regime mexicano, a eleição de Donald Trump nos EUA agudizou mais as contradições. A histórica e profunda relação de dependência do México diante do seu vizinho do Norte conheceu contornos dramáticos. Alvo preferencial dos ataques verbais de campanha de Trump, o México acompanhou com apreensão as ameaças de renegociação do NAFTA (Tratado de Livre Comércio da América do Norte), acordo que orienta as estratégias do empresariado mexicano desde 1995. Simplesmente mais de 80% das exportações do México possuem como destino o mercado estadunidense, de modo que qualquer sobretaxa imposta por Trump aos seus produtos teria um impacto devastador nas finanças do país. Além disso, o setor energético está sendo privatizado em grande parte para benefício das grandes petroleiras dos EUA, como a Exxon Mobil e a Chevron (o superávit comercial dos EUA com o México em 2017 foi da ordem de 15 bilhões de dólares).

Entretanto, o ponto mais absurdo da indisposição de Trump com o México foi o problema dos imigrantes nos Estados Unidos e a promessa de construção de um gigantesco muro na fronteira, argumentando que os milhões de indocumentados que ingressam nos EUA anualmente ameaçam a segurança nacional e “roubam” os empregos dos “americanos”. O México responde pela comunidade imigrante em solo estadunidense (cerca de 4% da população dos EUA é mexicana) e a riqueza gerada pelo trabalho desta mão-de-obra equivale a 8% do PIB norte-americano. Ainda assim, Trump utiliza o projeto do muro e seu financiamento como cavalo-de-batalha dos candidatos apoiados por ele nas eleições legislativas no final do ano. Esta marcha xenofóbica de Trump é facilitada pela completa subserviência dos políticos mexicanos, sem autoridade moral alguma para endurecer nas respostas aos insultos vindos da Casa Branca contra sua população.

Obrador, entre o “tigre” e o fantasma da fraude

Pois bem, é neste quadro de esfacelamento do establishment político mexicano que se processam as eleições deste ano. A grande polêmica da corrida presidencial foi o que executará de fato Obrador diante de sua virtual vitória. A metáfora do tigre foi usada para ilustrar seu dilema. Diante de uma entrevista televisa, AMLO chamou a “respeitar o voto popular”, porque se houver uma fraude, se “soltaria o tigre”. Ao contrario de outras vezes, onde diante da pressão popular contra as fraudes, AMLO não conteria o descontamento popular. Como uma ameaça para evitar um golpe, também desvela sua condição de capitalizar e ao mesmo tempo, descomprimir a enorme bronca social. O tigre do qual fala é a raiva social alimentada nos últimos seis anos de presidência de Peña Nieto.

AMLO tem um discurso genérico, baseado na ideia de que o Mexico precisa viver a sua “quarta grande trasnformação”. As anteriores foram a independência, a reforma e a revolução de 1910. Propõe reduzir salários e privilégios dos políticos, encarar o problema da corrupção, além de revogar as reformas neoliberais como a educativa e a energética. AMLO vem do estado de Tabasco, governou a Cidade do Mèxico e foi parte da ruptura que Guathemoc Cardenas encabecou contra o PRI no final dos anos 80, fundando o PRD(Partido da Revolução Democratica). A rápida degeneração do PRD levou a tensões internas, explodindo apos a aceitação da fraude de 2012, por parte da maioria de sua direção, assinando junto ao PRI e ao PAN, o “Pacto pelo México”, se comprometendo com as reformas neoliberais.

AMLO rompe com PRD para conformar um movimento- Partido de novo tipo. Sob a forte critica ao regime, sem grande base orgânica, mas com a simpatia de milhões de trabalhadores e jovens, AMLO funda o MORENA(Movimento pela Regeneração Nacional), um partido que escancara as diversas contradições de seu líder. A fim de acalmar as elites, adotou o lema “Paz e Amor” e uns de seus chefes de campanha têm frequentado almoços empresariais para “desestigmatizar”. Além disso, o MORENA está coligado com o fundamentalista evangélico Partido Encontro Social e deve ajudá-lo a conformar uma enorme bancada na próxima legislatura. Outro aceno conciliatório de AMLO é o recuo na proposta de desmilitarizar a segurança pública no país em que o Exército tem cada vez mais presença nas ruas.

No entanto, uma parte significativa da burguesia mexicana está visivelmente preocupada com uma esmagadora vitória de AMLO, não só nas presidenciais como nas legislativas. Uma enxurrada de difamações e baixarias contra AMLO se intensificou nas últimas semanas nos grandes meios de comunicação e nas redes sociais. Para estes setores, o triunfo de AMLO atrapalharia ainda mais seus negócios com os EUA, cada vez mais numa situação calamitosa com Trump. Alguns analistas postulam até a hipótese de uma nova fraude que beneficie algum dos candidatos do regime. Esta possibilidade seria escandalosa, não só pela vantagem que AMLO adquiriu nas pesquisas, como abriria uma crise ainda mais avassaladora na política e na economia do país. O “tigre” (mais da metade do eleitorado) poderia ser atiçado e ninguém teria muita certeza da explosão social que viria pela frente e do quanto esta confusão poderia afugentar os investidores internacionais. É pensando nisso que uma parcela do empresariado e dos banco já começa a aceitar AMLO e procura descafeinar suas propostas mais populares. O que, sim, tem altas probabilidades de acontecer é uma fraude parcial, na luta por postos menores em âmbitos regionais e municipais.

Esta se abrindo uma Caixa de pandora num gigante latino-americano

A experiencia política acumulada e a força do povo mexicano é impressionante. A convicção de que somente a luta transforma a vida está marcada não apenas nos seus livros de história, como pulsa nas gerações que nos últimos anos desafiaram o narco-regime, como demonstrado, por exemplo, na revolta generalizada contra o Gasolinazo (janeiro de 2017) ou na paralisação de 150 dias dos professores contra a reforma educativa.

Esta tradição de combate é, sobretudo, exercitada e cultivada pela esquerda radical mexicana. O lócus genuíno dessa esquerda no próximo deverá ser fortalecendo e atuando em sintonia com os movimentos sociais. A luta pela ampliação dos direitos democráticos e a batalha por um sindicalismo de novo tipo que enterre as velhas práticas burocráticas serão parte fundamental do roteiro das próximas batalhas.

Neste sentido, a vitoria de AMLO pode ser enxergada como um começo na longa luta para acabar com o narco-regime e abrir um processo mais participativo do ponto de vista político e independente diante dos Estados Unidos. Mas nenhum avanço virá sem a pressão da força popular, e só nesta é possível confiar e apostar sem ressalvas. Os mecanismos de auto-sobrevivência da casta serão colocados ao máximo vapor, em caso de vitória de AMLO, e as organizações populares radicais não terão vida longa se seguirem o trajeto das que foram sendo cooptadas pelo estado mexicano, nas últimas décadas.

O nosso ponto de vista, afinal, é que o México (país que conheceu a primeira revolução popular no seculo XX, sempre é bom relembrar) esta diante de desafios que só poderão ser superados com uma nova revolução, de caráter democrático e base popular, para liquidar o presente regime corrrupto e assassino.

Uma nova página para apoiar e construir novas alternativas na América Latina e no mundo, defendendo o poder dos trabalhadores e do povo contra o 1% dos ricos e poderosos, e uma sociedade sem exploração.

Secretaria de redação

  • Pedro Fuentes
  • Bernardo Corrêa
  • Charles Rosa
  • Clara Baeder