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Boletim do Portal da Esquerda em Movimento [29/08]

PORTAL DA ESQUERDA EM MOVIMENTO – 29/08

Este Boletim trata de dois assuntos muito importantes da atualidade: a maré socialista nos EUA e o fortalecimento da luta feminista em todo o mundo.

Vale perguntar: por que o socialismo está crescendo mais rápido nos Estados Unidos que em outros países? Há várias respostas, algumas são abordadas nos artigos publicados em nossos boletins. Mas queremos chamar a atenção para uma hipótese, que se estiver certa tem muitas repercussões para todos os socialistas. Os EUA seguem sendo o país mais rico do planeta, onde há também a maior concentração de riqueza. Segundo o economista Dumenil, cerca de cem famílias, corporações ou bancos, que de uma forma ou de outra dominam ou concentram a riqueza mundial, 40% são americanos. É o país que tem mais riqueza para distribuir e onde também há uma grande desigualdade. Sob o socialismo, está essa ideia de que pode se distribuir riquezas.

Por sua vez, a maré feminista é o mais dinâmico que ocorre internacionalmente como demonstram os artigos que publicamos e, em particular, o das companheiras que estiveram na Argentina. Como disse uma companheira de Juntas, “o movimento feminista do Brasil pode tirar a esquerda do limbo”. E agregamos, está sacudindo o mundo.

Dentre as mobilizações recentes da esquerda, as protagonizadas por mulheres jogaram um papel fundamental, sendo responsáveis por mover milhões às ruas em todo mundo. No nosso dossiê feminista, apresentamos uma avaliação sobre a impressionante mobilização pela legalização do aborto na Argentina, por Paula Kauffman, Nathalie Drumond e Giulia Tadini; além de textos das principais referências do feminismo contemporâneo. No Brasil, destacamos Débora Diniz, professora da UnB que desenvolveu importante pesquisa sobre o aborto no Brasil junto ao Instituto Anis, e que é hoje ameaçada por grupos de extrema-direita pelo seu posicionamento (aproveite par assinar carta em apoio à professora). Apresentamos também textos de Cinzia Arruzza, Nancy Fraser e Angela Davis, principais personalidades signatárias do Manifesto por um Feminismo das e dos 99%.

Trazemos ainda reflexões sobre a crise humanitária na Venezuela que tem produzido milhões de refugiados para os países vizinhos

Boa leitura!

Secretaria de Redação do Portal da Esquerda em Movimento – 29/09/2018


Uma onda feminista no mundo

Uma maré feminist| Nathalie Drumond, Giulia Tadini, Paula Kaufmann, Keké Bandeira

Desde 2015, vivemos uma Primavera Feminista em nosso país. Destacamos dois momentos em especial: os atos contra Eduardo Cunha, que tomaram as ruas de várias capitais – numa combinação da luta das mulheres com a luta contra a casta corrupta; e a Marcha Nacional das Mulheres Negras, que ocupou a Esplanada dos Ministérios em Brasília – reivindicando direitos para as mulheres negras e denunciando a política genocida do Estado brasileiro. Em 2016, novamente as mulheres foram em peso às ruas, compondo atos de milhares contra a cultura do estupro, após um caso bárbaro ocorrido no Rio de Janeiro. Também neste ano, as mulheres ocuparam as eleições municipais – aprofundando um processo que buscamos vocalizar já em 2014 com a corajosa campanha de Luciana Genro à presidência, uma das responsáveis por levar as pautas do movimento de mulheres para dentro da disputa eleitoral. O ano de 2016 teve como resultado a eleição de várias feministas pelo Brasil, dentre elas Sâmia em São Paulo.

Aborto na Argentina e no Brasil: esperamos a onda verde | Debora Diniz

Nenhuma mulher será obrigada a fazer um aborto nem na Argentina, nem em nenhum outro país do mundo que o tenha descriminalizado. Cada mulher será livre, no respeito às suas crenças, para tomar a decisão. Hoje, é a liberdade de crença o que se viola ao criminalizar o aborto: as mulheres são carregadas ao risco da clandestinidade, por isso um dos dizeres mais fortes das ruas era “todos somos pró-aborto. Uns pró-aborto clandestino, nós pró-aborto legal”. Vivemos na região do mundo com maior taxa de aborto e, não por coincidência, somos quem mais acredita que a lei penal pode coibir o aborto. Sei que é difícil de entender, mas a fórmula é ao contrário: lei penal não diminui aborto, aumenta. Somente a descriminalização é capaz de reduzir o número de abortos.

Discurso na sessão do STF sobre a descriminalização do aborto | Debora Diniz

Exposição da pesquisadora Débora Diniz durante a audiência pública que debate a nossa #ADPF442, que pode descriminalizar o aborto até a 12ª semana de gravidez, mostra: a criminalização só serve à manutenção de tabus e de uma realidade de violência e mortes para as mulheres brasileiras.

Carta em apoio à Débora Diniz | Juntas

Nós, militantes do coletivo Juntas! manifestamos nossa completa solidariedade à Debora Diniz – professora da Universidade de Brasília e pesquisadora do instituto ANIS – que por sua atuação em defesa da legalização do aborto no Brasil, vem recebido recorrentes ameaças de agressões e morte. Manifestamos, ainda, nosso completo apoio a legalização do aborto no Brasil, que por ainda não se essa nossa realidade, faz que percamos milhares de mulheres pelo aborto clandestino e inseguro.

“O feminismo dos e das 99% é a alternativa anticapitalista ao feminismo liberal”| Cinzia Aruzza

O paradoxo é que o capitalismo precisa que haja reprodução social e que seja relativamente funcional, mas não quer pagar o custo disso. Especialmente porque todas as atividades da reprodução social têm pouca tecnologia, mão de obra intensiva, o que significa que são caras. A forma em que os capitalistas (e os Estados) conseguem manter estes custos o mais baixos possível varia, mas podemos identificar alguns fenómenos comuns: o aumento do uso de mão de obra imigrante mal remunerada e não organizada em sectores privatizados (por exemplo, os migrantes que cuidam de dependentes ou idosos); os cortes na despesa social e nos serviços sociais, que obrigam as mulheres e as pessoas feminizadas e realizar este trabalho gratuitamente no lar; a mercantilização dos aspetos mais rentáveis do trabalho reprodutivo social — cadeias de restaurantes, lavandarias, etc. — empregando, uma vez mais, mão de obra imigrante barata.

Um feminismo em que romper barreiras não rompe com a exploração| Nancy Fraser

Como eu disse antes, a dominação masculina não pode ser superada sem abolirmos a fixação do capitalismo pela produção econômica em detrimento da reprodução social. É por isso que eu enxergo a busca por transformações radicais como uma pauta mais realista do que a ideia de “romper barreiras”. Mas eu não teria problema se alguém provasse o contrário. Se um novo modelo capitalista for capaz de promover a libertação das mulheres (de todas as mulheres) sem prejudicar outras pessoas, eu aceito. Bom, então vamos correr atrás de reformas não reformistas e ver no que dá.

Angela Davis na UFBA (2017)| Angela Davis

As mulheres negras estão entre os grupos mais ignorados, mais subjugados e também os mais atacados deste planeta. As mulheres negras estão entre os grupos mais sem liberdade do mundo. Mas, ao mesmo tempo, as mulheres negras têm um trajetória histórica que atravessa fronteiras geográficas e nacionais de sempre manter a esperança da liberdade viva. As mulheres negras representam o que é não ter liberdade sendo, ao mesmo tempo, as mais consistentes na tradição, que não foi rompida, da luta pela liberdade, desde os tempos da colonização e escravidão até o presente.

 

Fortalecimento das ideias socialistas nos EUA

A defesa de Bernie 2020| Neal Meyer e Ben Beckett

O pior dos casos é que Bernie anuncie a princípios de 2019, DSA não tenha tido uma discussão prévia, e apressamos um respaldo ou desperdiçamos os primeiros 6 meses de sua campanha envoltos em um debate interno sobre o que fazer. A primeira opção seria antidemocrática. O segundo nos faria parecer fracos a nossos inimigos e confundir a nossos aliados potenciais. DSA é a melhor esperança que a esquerda socialista nos Estados Unidos teve em décadas para construir um futuro melhor. E para aqueles que recordam a política antes do renascimento do DSA, quando os debates sobre a estratégia socialista pareciam triviais ou abstratos porque fomos marginais e nada do que fazíamos parecia afetar ao mundo em geral, a mudança nas condições é estimulante e vertiginoso.

The Left and the City: socialismo democrático e a Primavera das Mulheres nas eleições | Maíra Tavares Mendes

O feminismo da nova geração tem sido capaz de se articular com a crítica mais ampla ao próprio sistema: no capitalismo há um projeto que precisa da mercantilização dos corpos das mulheres, que precisa subjugar o seu trabalho, seus direitos reprodutivos e sua própria autoestima para manter seus lucros e os privilégios dos detentores de poder. É por isso que Hillary Clinton é símbolo de um establishment que não empolga essa nova geração: mesmo defendendo o aborto e as políticas de identidade e sendo alvo de campanhas extremamente misóginas, está profundamente imbricada no na casta política tão criticada desde o Occupy Wall Street, e crescentemente pelas socialistas democráticas que defendem o feminismo dos 99%.

Uma maré socialista nos EUA e uma maré feminista| Pedro Fuentes

O socialismo não é um fenômeno novo nos EUA; tem uma longa tradição. Mas como diz o NYT, é verdade que há”new socialists”. Como já escrevemos muitas vezes nestas páginas, existe um fenômeno novo. Candidatos socialistas de Our Revolution e o próprio DSA disputam eleições primárias democratas e alguns ganham; o socialismo cresce como ideia em setores de massas. Está se formando uma nova vanguarda socialista e essa vanguarda se apaixona pela classe operária e se insere nela, acompanhando um ressurgimento das greves.

A era Trump e a onda socialista nos EUA| Charles Rosa

Parece ser irrefutável o crescimento de uma esquerda com uma plataforma ousada e com interesses vinculados à classe operária. É necessário, portanto, debater cada vez mais os rumos que os protagonistas deste momento histórico deverão tomar daqui para a frente. Da mesma forma que as potencialidades de construção para uma alternativa de massas são imensas, os riscos de acomodação de parte desta vanguarda à maquinaria parlamentar e partidária dos Democratas também não são desprezíveis. É preciso estar permanentemente vigilante contra uma situação de eterna convivência com o centro progressista no interior do Partido Democrata. Afinal, o sistema sempre reserva um pequeno espaço confortável para quem se dispõe ao papel de consciência crítica do mesmo.

 

Crise humanitária na Venezuela

Crise humanitária não é um conto | Tito Prado

Mais de 4 milhões de venezuelanos emigraram de seu país nos últimos anos, segundo estatísticas de INEI; deles, 350 mil vieram ao Peru, segundo os números que possui a Superintedência Nacional de Migrações. Não vêm para conhecer Machu Picchu, não vêm para roubar o trabalho de ninguém, não vêm porque são um álibi do império, vêm porque fogem de uma crise humanitária sem precedentes na América Latina. Buscam novas oportunidades como milhares de nossos compatriotas fizeram isso em épocas difíceis para o Peru.

Medidas do Governo descarregam a crise sobre o povo trabalhador e enfraquecem a nossa soberania | Marea Socialista

O governo colocou em marcha todo seu aparato de propaganda, com o único fim de mostrar o plano como algo favorável ao país. Em primeiro lugar, trata de ocultar sua responsabilidade na profunda crise que vivemos, e em segundo lugar canalizar a opinião pública – de maneira conveniente – em somente alguns aspectos. O esforço que pretendemos, desde Marea Socialista, é motivar uma análise do conjunto de medidas, e alertar que estamos ante uma ofensiva que pretende despejar sobre as costas dos trabalhadores uma crise que não geramos e que põe em risco nossa soberania nacional. Por isso, chamamos a redobrar esforços nas lutas que nos últimos meses vêm ocorrendo em todo o país.

 

Solidariedade urgente com os venezuelanos no Brasil | Revista Movimento

Independentemente das posições sobre o governo Maduro e a situação política venezuelana, é preciso articular uma ampla frente política e social, envolvendo também as organizações de direitos humanos e religiosas, para colocar na ordem do dia o acolhimento aos imigrantes. Em Roraima, 40 entidades assinaram o documento do COMIRR (Comitê para Migrações de Roraima), repudiando os atos de violência e convocando uma campanha para receber os venezuelanos. A CSP-Conlutas e o sindicato local da construção civil atuam na vanguarda do processo. Esta central organizou uma caravana e tem uma cartilha voltada ao atendimento das questões mais simples de organização dos cidadãos venezuelanos.

 

Uma nova página para apoiar e construir novas alternativas na América Latina e no mundo, defendendo o poder dos trabalhadores e do povo contra o 1% dos ricos e poderosos, e uma sociedade sem exploração.

Secretaria de redação

  • Pedro Fuentes
  • Bernardo Corrêa
  • Charles Rosa
  • Clara Baeder