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Crônicas Catalãs – 11-S: Um povo resiliente e resistente na luta por sua liberdade

De novo o povo catalão saiu na rua nesta Diada de 11 de Setembro. Como nos últimos sete anos, um milhão de pessoas ocuparam o centro de Barcelona. Não há lugar na Europa nem no mundo onde se repita esta persistente mobilização em prol da liberdade nacional.

Esta vez, entretanto, a manifestação era diferente. Vinha depois de um ano muito difícil. Depois de celebrar um exitoso referendo de autodeterminação no qual participaram dois milhões e quatrocentos mil eleitores (e mais que teriam participado se os colégios não tivessem sido fechados). Um exitoso referendo mas também caro e duro: com mais de dois mil feridos de diversa consideração, um deles com perda de um olho, com brutal repressão da polícia jamais vista desde os tempos de Franco.

Um ano no qual a indecisão do governo da Generalitat em proclamar e implementar a República imediatamente depois da votação do referendo de 1 de outubro deixou a população mobilizada a ver navios e deu brechas para a reação. Um ano no qual houve encarceramento de presos políticos, exílio de líderes políticos independentistas, assim como o processo contra e o encarceramentos de rappers, digitual influencers, sindicais, prefeitos, vereadores ou simplesmente cidadãos que exerciam sua liberdade de expressão. Um ano de aplicação fraudulenta de um artigo, o 155, pelo qual suspenderam a autonomia e descabeçaram o autogoverno por alguns meses. Um ano no qual o encarceramento e o exílio de líderes tornou difícil os acordos internos e faltou uma estratégia comum do soberanismo e independentismo. Um ano no qual o que se viu a intenção de que a República catalã signifique uma ruptura na estrutura nacional, mas não se viu que os principais líderes queriam uma ruptura com a política neoliberal e o compromisso para fazer uma  República socialmente avançada.

Mas esse difícil para os e as catalãs contribuíram para a erosão e queda do corrupto governo Rajoy. Sucedeu-lhe um governo que precisou levantar o 155 e falar de “diálogo”. Mas o governo de Sánchez, do PSOE, segue defendendo a mesma orientação que o de Rajoy em relação ao Estado e o pacto surgido do “regime de 78”: a inviolabilidade da monarquia ante seus delitos de roubo e corrupção; a inviolabilidade de juízes franquistas; a proibição de qualquer vislumbre de direito à autodeterminação nacional; a manutenção de leis e políticas repressivas ante a liberdade de expressão; a manutenção de políticas antissociais e leis do PP, como as reformas laborais… Contra esse Estado choca a Catalunha avançada…

A emoção com a qual saíram às ruas os catalães e catalãs foi imensa. As mães dos rappers, dos filhos de participantes dos CDR (Comitês de Defesa da República), de sequestrados, exilados, processados… deram um exemplo de integridade e dignidade ao mundo, defendendo a luta de seus filhos e animando a segui-la. A avó de Adrián o membro do CDR de Esplugues, da comarca operária do Baix Llobregat, dizia num comício o qual assisti que “não se pensava em morrer até que não estivesse implantada a república”. E sua mãe chamou ontem a “superar o medo para conquistar um país livre”. Esse é o espírito de uma grande parte do povo catalão neste Setembro de 2018.

No ato da Diada intervieram os advogados que representam presos e exilados no exterior. Aamer Anwar, advogado da ex-conselheira Clara Ponsatí, atualmente na Escócia, acusou o Estado espanhol de se comportar como um Estado terrorista, antidemocrático, que torna reféns pessoas por suas opiniões políticas. Afirmou que “apesar do silêncio dos Estados, Catalunha não caminha sozinha” e que cada vez tem mais simpatia internacional. Ben Emmerson, advogado que representa ante a ONU sete dos nove presos e Puigdemont, se dirigiu ao presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez: “hoje, ante um milhão de pessoas que levantam sua voz, tem uma última oportunidade de fazer o correto antes de que comece o juízo”. E entoou a palavra de ordem que foi a mais empregada nesta Diada: “Liberdade aos presos políticos e presas políticas!”.

Esta Diada voltou, pois, a demonstrar que a luta do povo catalão segue. Não era um suflê, como diziam os políticos do regime. Não está derrotada, como pretendiam decapitando os líderes e aplicando o 155. A consciência de haver cometido erros e de haver confiado ingenuamente em que a Europa pressionaria e o Estado espanhol cederia facilmente, está cedendo espaço a um amadurecimento. Mas a determinação segue intacta. Boa parte da Catalunha está disposta já a lutar até conseguir sua República. A próxima etapa de sua mobilização: a liberdade dos presos e presas.

Uma nova página para apoiar e construir novas alternativas na América Latina e no mundo, defendendo o poder dos trabalhadores e do povo contra o 1% dos ricos e poderosos, e uma sociedade sem exploração.

Secretaria de redação

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