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Haverá referendo, mas falta uma quinta pergunta

O Fujimorismo não quer o referendo anti-corrupção proposto desde o Executivo pelo presidente Vizcarra como resposta à indignação cidadã que exige “Que se vayan todos!”. Keiko Fujimori, a líderança de Fuerza Popular que ainda conta com maioria no Congresso, diz que a reforma política e a reforma na justiça não são prioridades. Argumento que não corresponde à crise política agravada desde os áudios da vergonha que põem de manifesto o apodrecimento da justiça no Peru e a relação perversa entre juízes, políticos e empresários que colocam seus interesses mafiosos acima de tudo.

Não se descarta que a senhora K atue desta forma por revanchismo e para fazer notar que ela é quem manda com uma maioria congressual que pode derrubar qualquer um. Mas, sem dúvida, o fundamental é que ela e seu partido SÃO PARTE DA CORRUPÇÃO, e desmontar a rede mafiosa que foi se tecendo no sistema judicial leva o perigo de terminar presa se a justiça passa a ser administrada com um pouco de independência. Igual se sucede com AG, que também se opõe ao referendo por suas tramas com Odebrecht e Lava Jato.

Não que as reformas propostas pelo governo nos quatro temas do referendo represetem uma mudança de fundo. A reforma constitucional do Conselho Nacional da Magistratura, a reeleição de congressistas, o financiamento privado de partidos políticos e o retorno da bicameralidade, são temas absolutamente insuficientes para abordar uma crise do regime como a que vivemos que se combina com uma crise sistêmica de longa data.

Mas submetê-las a referendo abre uma oportunidade para varrer os corruptos e que o povo participe na discussão sobre alguns dos problemas graves que afligem o país. E é um desafio também para a esquerda que deve ir mais longe e disputar ao próprio Vizcarra a bandeira anticorrupção com a qual pretende ganhar apoio social e converter-se na peça de troca da direita neoliberal que se divorcia do fujimorismo.  A CONFIEP e a SNI (confederações patronais), com o pragmatismo que lhes caracteriza, já deu mostras desta viragem em favor de Vizcarra, pois o fujimorismo passou a ser um fator de instabilidade que não é boa para seus negócios.

Ainda estando a favor do referendo, seria um crasso erro assumir uma atitude condescendente com o governo pois com estas reformas parciais e insuficientes Vizcarra busca também calar as vozes por uma Nova Constituição que poria em debate mudanças inclusive em matéria econômica com o que o modelo neoliberal que consagra a constituição de 93 ficaria em apuros. Por isso, faz muito bem a Assembleia Cidadã* em “impulsionar que se consulte ao povo uma quinta pergunta: a implementação ou não de uma Assembleia Constituição no país”. Esta iniciativa deveria merecer o lançamento de uma intensa campanha para que seja incluída essa quinta pergunta com o qual a transcendência do referendo poderia chegar a ser histórica.

O referendo deve nos servir, conforme se disse, como uma oportunidade para estimular a mobilização social a fim de liquidar um Estado corrupto e mudar o regime político fujimontesinista apontando uma mudança de modelo em matéria econômica também. Uma coisa leva a outra, ainda que de momento o eixo seja a luta democrática frente a uma situação na qual a impunidade ameaça se impôr pela mão do Procurador Chávarry e pela maioria congressual. A palavra uma vez mais será do povo nas ruas, enquanto vamos construindo desde o MNP e com Veronika Mendoza uma verdadeira alternativa ampla e unitária, com um claro norte democrático e antineoliberal, que é por onde passa a luta anticapitalista no mundo.

(*) A Assembleia Cidadã agrupa os organismos de direitos humanos, vários coletivos, assim como organizações políticas, e desempenhou um papel ativo nas convocatórias das marchas e concentrações anti-corrupção. O pronunciamento mencionado é de 27 de agosto de 2018.

Uma nova página para apoiar e construir novas alternativas na América Latina e no mundo, defendendo o poder dos trabalhadores e do povo contra o 1% dos ricos e poderosos, e uma sociedade sem exploração.

Secretaria de redação

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