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E a Europa entrou pela Andaluzia

04/12/2018 | Miguel Urbán

Eleições são uma foto fixa que sintetiza conjunturalmente processos complexos de longo percurso. É difícil analisar resultados eleitorais como os andaluzes sem cair no impressionismo mais imediatista, sem inutilizar essa complexidade ou sem usá-los interessadamente para justificar posições de partida ou como arma instrumental entre uns e outros.

Em qualquer processo político, mais ainda num terremoto eleitoral, não há um motivo único nem principal. Isso nunca existe. Desta vez tampouco. Algumas vozes põem o foco no papel de normalização de VOX para o qual contribuíram os meios de comunicação ou o restante de partidos; outra na onda mundial de ascenso dos novos populismos xenofóbicos e punitivos; outras no marco do conflito territorial; outras na impotência da esquerda e nas limitações de certas estratégias eleitorais e institucionais; outras nos medos e incertezas das classes populares e das classes médias empobrecidas no contexto de crise sistêmica que vivemos há mais de uma década. Todas têm parte de razão. Mas nenhuma explica por si só quase nada.

Além das causas múltiplas e das consequências e lições variadas, na foto que nos revela o 2D, Andaluzia, e com ela o Estado espanhol, parecem-se hoje um pouco mais com a Europa: bipartidarismo quebrado, extremo centro neoliberal em recomposição, sua pata social-liberal se afundando, a extrema-direita em ascensão, uma esquerda impotente e parlamentos resultantes fragmentados. A tendência vem de longe no tempo e no espaço. Hoje aqui estamos um pouco mais perto dela.

E por que não até agora? O 15M e as marés foram vacinas, corta-fogos que puseram o foco da crise na partilha da riqueza e nos de cima, em lugar de buscar bodes expiatórios entre os mais frágeis ou em fomentar a guerra dos últimos contra os penúltimos, como fazem outras forças reacionárias na Europa. Mas as vacinas necessitam de lembretes para ser úteis. Aí está boa parte da chave que é impossível resolver em duas linhas e que requer um debate cru, sincero, estratégico e de fundo, que não podemos postergar.

Por outro lado, que hoje Andaluzia e com ela o Estado espanhol, já não seja uma exceção europeia no qual formações de extrema-direita em suas instituições se refere, não deveria nos fazer esquecer que já havia muitos parlamentares de extrema-direita nas instituições espanholas. Antes deste 2 de dezembro, durante todos estes 40 anos, abrigados em outros partidos que já não reclamavam essa ideologia. Porém, sobretudo, que o ideário xenófobo, autoritário, espanholista, machista e homofóbico que agora abandeira VOX estava já muito presente na vida pública e institucional espanhola, oque alguns autores vem considerando como uma presença ausente da extrema-direita neste país.  Sempre insistimos em que a chave não era somente tirar Franco do Vale de Cuelgamuros, mas tirar o franquismo das instituições. Por isso, aquela Transição e o Regime que agora completa 40 anos não tiveram nada de modelares e sim muito de que os de sempre e suas práticas/privilégios transitaram de uma ditadura a uma democracia de baixa intensidade sem custo algum.  

E agora o que fazemos? Frear o avanço do neofascismo e todas as suas práticas, independentemente das siglas sob as quais se escondam, é uma tarefa histórica prioritária. Sem dúvida. Mas fazer isso sob o manto frente-populista de mãos dadas com aqueles que criaram as condições austeritárias para o surgimento dos monstros e depois impulsionaram e normalizaram seu ascenso, poderia constituir o abraço de urso definitivo para nós que nos reclamamos como alternativa tanto ao neoliberalismo do extremo-centro como o avanço da extrema-direita. E isso não é somente uma questão ideológica ou de estratégia geral. Também suporia um suicídio tático: cerrar fileiras acriticamente com os partidos do extremo-centro contribui para dois processos muito perigosos: primeiro, seguir alimentando as supostas bondades democráticas e progressistas dos que se ajudaram a chegar a situação que vemos hoje, reforçando desse modo a armadilha binária que nos obriga a escolher entre o populismo xenofóbico ou um neoliberalismo que se apresenta como progressista no reflexo do espelho da besta autoritária. Em segundo lugar, abraçar-se com o extremo-centro sem contrapesos deixa de bandeja para o VOX o monopólio do voto de protesto anti-establishment e a etiqueta de outsider de um sistema que gera mal-estar crescente.

Significa isso que, como alguns asseguram, essa orfandade pela esquerda se traduzirá num deslocamento de eleitores para a extrema-direita? Não de forma matemática, melhor podendo se traduzir no que ocorreu no último domingo e que pouco vem tendo destaque: num aumento crescente da abstenção de esquerda. Cruzemos dados de votos com níveis de renda e não tenhamos pudor algum de usar todos os qualificativos pertinentes para caracterizar a nova extrema-direita. Mas analisemos também qual a razão VOX (ou Ciudadanos) iludem parte do eleitorado conservador (o que já votava em outros partidos de direita e o que se abstinha), em que medida recolhem suas aspirações e medos, e até que ponto são percebidos como ferramentas de protesto eleitoral desde a direita. E façamos o mesmo para tentar entender por que ocorre o contrário hoje com as novas formações de esquerda, tão nas antípodas do que ocorria há poucos anos. Ou, para ser mais justos, o que fizemos para deixar essa ferramenta de federação do descontentamento e da impugnação, do protesto contra o establishment, da ilusão das e dos debaixo, e como podemos voltar a ser isso.  Não caiamos na tentação de combater o medo com medo, apelando para os perigos que se avizinham, mas antepondo projetos que iludam e recuperem a esperança de ir mais além do possível, que recuperem o espírito impugnador do 15M e da greve feminista do 8M.

Não nos equivoquemos de inimigos nem desperdicemos qualquer gota de saliva no habitual e infame fracionalismo. Que não nos reste nenhuma dúvida de que sem ferramentas como Adelante Andalucía o resultado teria sido muito pior. Agora, como dizia Spinoza, não toca nem rir nem chorar, mas compreender. O problema não é o corta-fogo, mas como reajustá-lo e engrandecê-lo para que mais gente se sinta protegida atrás dele e o considere uma ferramenta útil de transformação social. Porque 300 000 voto é muita coisa, mas não resultariam em 12 cadeiras sem uma abstenção de mais de 40%. Esta crise multidimensional também é uma crise de representação, de institucionalidade e de legitimidade do poder estabelecido. A melhor maneira de ser antídoto contra a extrema-direita é ser uma alternativa real contra o extremo-centro. E já conhecemos esse caminho: impugnação ideológica, autonomia estratégica, radicalidade programática e auto-organização popular. Renovemos as vacinas para que não nos tomem as medidas. Estamos a tempo.

4/12/2018

Miguel Urbán, europarlamentar, faz parte do Conselho Assessor do portal Viento Sur

https://blogs.publico.es/tomar-partido/2018/12/04/y-europa-entro-por-andalucia/

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