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O interessante cenário colombiano


Atualmente, a Colômbia vivencia um momento novo bastante interessante. Por um lado está sob um governo de extrema direita, o de Ivan Duque, cuja eleição corresponde em muitos pontos com a dinâmica mundial que levou à vitória Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil. Por outro, também é palco de uma forte efervescência político-social. Para um país que viveu muitas décadas sob um intenso conflito armado, a multiplicação de novas e renovadas formas de luta é algo surpreendente e animador.

Neste contexto, os estudantes colombianos protagonizaram nos últimos meses uma intensa jornada de mobilizações. Desde meados de setembro, as 32 universidades públicas do país são palco de uma greve massiva, paralisações e muitos atos. No mês de novembro ocorreram manifestações gigantescas nas principais cidades do país. Diz-se ser essa uma das maiores jornadas de lutas da história. A principal reivindicação estudantil centra-se no aumento das verbas públicas destinadas ao ensino superior e contra a sua mercantilização – saída apresentada pelo governo para resolver o problema da intensa precarização. Mas logo os protestos ganharam o apoio e a adesão de amplas parcelas da sociedade e de outros segmentos sociais. Sendo assim, a mobilização ganhou um caráter mais político, voltando-se contra as principais medidas do governo Duque.

O fato é que os primeiros meses do governo de extrema direita do atual presidente não têm sido fáceis. Além da forte mobilização estudantil, sua principal agenda (uma reforma tributária que, dentre outras coisas, visa taxar em 18% os principais artigos da cesta básica) ainda não conseguiu ser aprovada. Tal reforma passou a ser alvo também das manifestações de rua. Soma-se a isso o fato que, no último mês, Duque precisou lidar com outra intensa crise, um escândalo de corrupção. Recentemente, denúncias revelaram o pagamento de propinas por parte de executivos da Odebrecht a membros do alto escalão do governo em troca de favorecimento em contratos. Desde então, duas testemunhas-chave do caso foram assassinadas. Curioso é que Duque foi eleito prometendo moralizar a Colômbia.

É conhecido por todos que o país viveu sob um intenso conflito armado as últimas cinco décadas. O país neste período esteve sob um regime bastante fechado, até meados da década de 1980 o desaparecimento de pessoas sob tutela do Estado não era crime; bipartidarista, com revezamento entre liberais de direita e conservadores; e sob controle militar estrito dos EUA. Do ponto de vista econômico, a Colômbia é uma das principais nações exportadoras de petróleo para o país do norte – atualmente superando a Venezuela. Ainda assim, durante as últimas décadas, a Colômbia esteve entre os cinco países com maior desigualdade do mundo. Se sob o aspecto militar alguns chegam a compará-la com Israel, sob a ótica econômico-social para outros tantos ela se parece mesmo com o Afeganistão.

A Guerra na Colômbia remonta à década de 1960 quando, por exigência dos EUA, o exército colombiano começa a perseguir grupos rebeldes que se organizavam nas zonas rurais, influenciados pela Revolução Cubana. Neste momento, o governo também autoriza a criação de milícias paramilitares para combater os mesmos grupos. São criadas as Farc e uma dúzia de outras organizações guerrilheiras para resistir à militarização do conflito social no campo. Décadas mais tarde entram em cena os narcos. Portanto, a intensa militarização da política colombiana se sustentou em dois pólos: no combate aos “insurgentes” e ao narcotráfico.

A completa submissão da política à estratégia militar também foi o caminho que um setor importante da esquerda colombiana decidiu trilhar. As Farc são conhecidas como a maior organização guerrilheira do mundo. Não à toa, os sucessivos governos justificaram contra elas e por elas sua escalada militar e a criminalização de toda e qualquer atividade política. Sob este pretexto o Estado colombiano cometeu crimes bárbaros. O país esteve durante muito tempo entre os mais inseguros do mundo para os defensores de direitos humanos. Mas as guerrilhas também não são isentas de responsabilidade. No terreno político, a tática da luta armada como via para a libertação nacional produziu resultados desastrosos. Mas no caso colombiano, as guerrilhas ainda se associaram aos narcos e a crimes como os sequestros de civis como forma de financiarem suas atividades. Estes elementos ajudaram muitíssimo à criminalização de toda a esquerda. A polarização entre guerrilha e Estado impediu por décadas que novas alternativas surgissem.


Sendo assim, as recentes mobilizações na Colômbia também estão inseridas num novo contexto histórico: a deposição das armas por parte das Farc após o último “processo de paz”.

O atual acordo de paz foi o principal feito de Manuel Santos (penúltimo presidente da Colômbia). Santos foi eleito como sucessor de Álvaro Uribe (o grande herdeiro do Plano Colômbia), já sob o desgaste de sua política. Socialmente a guerra na Colômbia já há muito tempo vinha sendo insustentável. Após as duas gestões de Uribe ela também apresentava dificuldades econômicas para se manter, vide por exemplo o tamanho do aparato militar colombiano (atualmente são cerca de meio milhão de militares, num universo de um milhão e trezentos mil servidores públicos). O fim da gestão de Uribe coincide justamente com a crise de 2008. Santos, ainda que eleito como parte do campo uribista, acaba sendo levado a se afirmar como via própria.

Se por um lado Santos foi o responsável pelo recente acordo de paz, o então presidente também buscou aprovar algumas reformas ultraliberais – comuns aos países latinos nestes tempos de crise. Em 2011, a Colômbia foi mexida por uma intensa mobilização estudantil sob o lema “Educação Não É Mercadoria” que enterrou a proposta do governo de reforma educacional. Esse processo, que extrapolou qualquer organização de esquerda e deu origem a tantas outras novas, é mencionado por muitos como o início de uma nova etapa na militância de esquerda no país. E também é o elo histórico mais forte com as recentes mobilizações.

Mas Santos também perdeu outra batalha importante, desta vez para a extrema direita. Em 2016, por uma diferença de 60 mil votos – mas com uma abstenção de mais de 60% – o “não” à ratificação do Acordo de Paz com as Farc saiu vitorioso de um referendo. A campanha pelo “não” selou a aliança entre Álvaro Uribe, frações da burguesia colombiana descontentes com os “planos de desenvolvimento nacional e territorial” pressupostos no acordo e ultra conservadores que atacavam Santos de, entre outras coisas, comunista e destruidor de famílias por supostamente defender a ideologia de gênero, com destaque para as igrejas neopentecostais, cada vez mais importantes na Colômbia. Essa aliança foi capaz de eleger Iván Duque presidente da Colômbia.

Em agosto de 2017, Duque elegeu-se após uma intensa polarização com Gustavo Petro, candidato de centro-esquerda pelo Pólo Democrático (e ex-membro do M19, única guerrilha urbana da Colômbia). Foi a primeira vez na história recente do país que um candidato de esquerda disputou com chances a presidência. Petro alcançou a marca de oito milhões de votos e perdeu para Duque por menos de dois milhões, um feito histórico.

Atualmente, a Colômbia vivencia nova jornada de lutas protagonizada pelos estudantes. Como em 2011, a mobilização conta também com a simpatia do conjunto dos colombianos – que defendem os jovens por serem os únicos a estarem fazendo algo pela Colômbia de verdade. Por conta disso, o governo precisou ceder se comprometendo a aumentar a fatia do orçamento destinada à educação superior. Ainda que o repasse prometido seja pequeno, não deixa de ser uma concessão – fato importante para um governo eleito sob o discurso de mano dura contra a esquerda.

Em que pese a dificuldade ainda de se vislumbrar uma saída política à esquerda no país – Petro recentemente também foi denunciado por receber propina para sua campanha – a efervescência das lutas sociais na Colômbia segue crescente. A ousadia dos estudantes ao enfrentar o governo direitista de Duque e a possibilidade de derrotá-lo arrancando concessões revelam que a luta por direitos não está entorpecida na Colômbia, pelo contrário. A deposição das armas por parte das Farc inaugurou uma nova etapa para a esquerda e a luta social no país. Sai de cena a guerrilha, entra em cena a luta por direitos em suas distintas formas. Ganham protagonismo a juventude, as mulheres, os ambientalistas, os defensores de direitos humanos, as organizações em defesa dos povos tradicionais, a luta por memória e justiça, os artistas e sua arte socialmente comprometida. Através deste fenômeno também se reativam as lutas dos camponeses em defesa de sua sobrevivência, dos trabalhadores contra a exploração de seus patrões.

E se ainda são escassas as saídas políticas, transborda entusiasmo para se construir algo novo, deixando de lado os escombros da velha esquerda e encarando de frente os representantes da extrema direita. A novidade é que a partir da multiplicação desse ativismo se renovam também as possibilidades de se construir uma alternativa política de esquerda, radical e democrática para a Colômbia. E apesar dos tempos brutos na política, a utopia de um mundo onde todos sejam socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres segue viva e em disputa neste país.

Uma nova página para apoiar e construir novas alternativas na América Latina e no mundo, defendendo o poder dos trabalhadores e do povo contra o 1% dos ricos e poderosos, e uma sociedade sem exploração.

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