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“O povo húngaro já não se deixa enganar pela política de Orban”

21/12 – Nascida a partir da adoção de uma reforma laboral muito controvertida, a contestação cresce. O movimento quer frear a iniciativa governamental na mídia. Para a especialista Catherine Horel, na Hungria “soa o final do descanso”.

Uma semana de protestos e uma revolta que não pára. O anúncio da adoção em dezembro de uma li que flexibiliza a legislação laboral cristalizou no descontentamento de uma parte da opinião pública contra o governo de Viktor Orban. Que continuou desde então com manifestações cotidianas.

A nova legislação eleva para 400 o número de horas extraordinárias que o empresariado pode pedir para seus empregados a cada ano. Ou seja, o equivalente a dois meses de trabalho. Um volume julgado como “exorbitante” pela oposição e pelos sindicatos, que denunciam a criação de um “direito à escravidão”.

Ao descontentamento suscitado por esta lei, veio se somar um novo desafio nesta segunda-feira: que a televisão pública tenha se inclinado a favor do poder. Considerada como um ponto nevrálgico do governo de Orbán, a MTVA tem sido acusada de estar sendo controlada pelo partido Fidesz do primeiro-ministro húngaro.

Feito inédito desde o retorno ao poder de Orban em 2010, a oposição tanto de esquerda, como os liberais e a extrema-direta, marcharam sob a mesma faixa em 16/12 e continuaram fazendo uma frente comum no dia seguinte.

Um leque contestador muito variado e manifestantes que não correspondem com o perfil típico segundo Catherine Horel, especialista em Europa Central contemporânea e diretora de investigação no CNRS [Conselho Nacional de pesquisas científicas]. Como destaca ela:

“De um punhado de irredutíveis, o movimento de protesto passou para 15 mil manifestantes no domingo, 16 de dezembro … e não parece que vai enfraquecer.

Parece até adquirir maior amplitude. Obviamente, devemos ser cautelosos, os protestos são muito concentrados na capital. É difícil ouvir sobre o que acontece nas províncias, o pluralismo da mídia tornou-se uma ilusão; não à toa, a televisão pública está no centro das atenções [das mobilizações]. É normal que num país tão centralizado como a Hungria a capital dê o tom, mas enquanto as províncias não se mobilizarem, o movimento ficará circunscrito a Budapeste e será menos importante.

De qualquer modo, é interessante que o leque dos protestos se amplie: vai da extrema-esquerda à extrema-direita, passando por cima do partido governista. O Jobbik (Movimetno para uma Hungria melhor, ultranacionalista, racista e antissemita) não foi excluído. Vendo chegar à extrema-direita organizda, poder-se-ia imaginar que se tratava de uma contra-manifestação antifascista, mas não foi o caso. Há um composição muito ampla nas manifestações: pela primeira vez, menos jovens estudantes urbanos e muito mais pessoas de todas as idades. Isso se explica facilmente: a lei contra a qual se protesta afeta o trabalho e todas as pessoas da Hungria, não só as de maior consciência política.Esto se explica fácilmente: la ley contra la que se protesta afecta al trabajo y a todas las personas de Hungría, no solo a las concienciadas políticamente”.

PERGUNTA: Assistimos ao nascimento de um movimento cidadão capaz de sacudir o poder atual?

– C. H. Digamos que tudo partiu da base, de um movimento muito cidadão ao qual se uniram todos os partidos da oposição e os movimento alternativos que existem na Hungria há dois ou três anos, como Dialogue, Momentum. É extremamente amplo e é aí onde reside a força de um movimento que aspira desequilibrar Orban. Pode ser que esta união se posicione contra o primeiro-ministro; este se dará conta de que não tem poderes totais. Atualmente, Orban quer impôr sua posição de força; acredita que tudo é permitido para ele. Por isso, que a cidadania acorde é bastante saudável. Se os protestos desembocarem num verdadeiro movimento cidadão, assistiremos a um episódio importante na Hungria. A questão agora é saber se a revolta seguirá durante as festas e se continuará em benefício da preparação das eleições europeias.

– P.Depois de sete dias, as reivindicações se multiplicaram, já não se fala somente da legislação das horas extraordinárias.

– C. H. Exatamente. A ausência de pluralismo midiático fez as pessoas saírem às ruas. Porque se a juventude urbana pode ser informada corretamente através das redes, outras pessoas, especialmente nas províncias, gente talvez de mais idade, não têm o reflexo de ir buscar uma informação alternativa e fica presa nas cadeias e jornais públicos que bloqueiam o pluralismo e que acusam a mídia alternativa de intoxicar e alimentar as teorias de conspiração. É suficiente ver a forma como a TV pública cobre as manifestações. Informa pouco, desfigurando as principais características do movimento, anunciando que o povo está sendo manipulado, por exemplo, por George Soros, pela União Europeia, pelo Ocidente…

Através desta reforma trabalhista, é toda a política de Orban que aborrece o povo. Há uma incoerência total na política do governo. A lei anima o povo a trabalhar mais, o desemprego é muito baixo, a Hungria está em recessão demográfica… é preciso fazer entrar mão de obra. Em outras palavras, imigrantes.

Orban sabe disso, está rodeado de suficientes empresários e de oligarcas para ser consciente disso. Mas ao ter feito campanha contra as pessoas migrantes, não pode recuar. Estas manifestações mostram também que a população húngara não é tonta; pedem para o governo ampliar a contratação no lugar de impôr um “direito à escravidão”.

– P. Viktor Orban deve temer por sua popularidade?

– C. H. Este movimento pode afetar um eleitorado que no fundo não é orbanófilo, ou seja, o personagem irrita a direita clássica. Mas não devemos nos enganar, Orban ainda está numa posição muito segura.

Tradução ao português feita pela equipe do Portal da Esquerda em Movimento de reportagem do portal belga Le Soir

https://plus.lesoir.be/196345/article/2018-12-18/les-hongrois-ne-sont-plus-dupes-de-la-politique-dorban

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