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A posse de Nicolás Maduro revela uma profunda crise institucional da Venezuela e uma degeneração cabal da Revolução Bolivariana. Após eleições altamente questionáveis, com proscrição de inúmeras candidaturas de oposição (incluindo os chavistas críticos), Maduro prepara-se para mais seis anos de governo.

O povo de Bolívar, que protagonizou um dos principais processos revolucionários dos últimos tempos na América Latina, encontra-se na miséria, em meio a uma disputa entre os poderes de Estado pelo controle do país e seus abundantes recursos naturais. De um lado, a Assembleia Nacional, onde a oposição de direita clama por uma intervenção militar do imperialismo e prepara um golpe para tirar Maduro do poder, em articulação com o Grupo de Lima e o governo de Trump. De outro, o governo autoritário de Maduro que viola a maior conquista da Revolução que é a Constituição Bolivariana. É o governo de uma casta burocrático-militar que, para manter seus privilégios, governa contra as necessidades do povo venezuelano.

Em nome do legado de Chávez e da Revolução, o governo tem implantado um modelo econômico de arrocho contra o povo, buscando consolidar uma nova elite em consonância com o imperialismo chinês e de maneira repressiva impede qualquer alternativa popular ao seu domínio. A esquerda mundial não pode legitimar um governo desta natureza.
Nós, do Movimento Esquerda Socialista/PSOL, sempre estivemos na linha de frente da defesa do processo bolivariano, de forma crítica e independente. Quando em 2003, a direção do PT e do Foro de São Paulo se recusaram a trazer Chávez ao Fórum Social Mundial, por razões de “governabilidade” e porque Lula recém eleito iria ao Fórum de Davos buscar conciliação com o imperialismo, por meio do mandato da então Deputada Federal Luciana Genro, fomos os responsáveis pela vinda de Chávez. Nunca nos furtamos em defender a luta antiimperialista e o empoderamento popular engendrados pelo processo constituinte na Venezuela. Também, como uma organização revolucionária, nunca nos furtamos em apontar os limites da Revolução Bolivariana e os equívocos cometidos pelo próprio Chávez. Uma crítica feita desde dentro do processo, como parte dele.

Entretanto, o processo de degeneração da direção do PSUV, a militarização crescente do poder de Estado, a corrupção da burocracia, o autoritarismo do governo Maduro, o arrocho de seu próprio povo e seu desrespeito à Constituição Bolivariana encerraram o caráter progressivo daquele governo, sua natureza mudou.

Agora, os mesmos que em 2003 queriam mais distância de Chávez do que de Davos apóiam Maduro para tentar ressuscitar o FSP que agoniza em meio à crise de seus partidos e governos (como o clã Ortega na Nicarágua). Ou seja, no momento em que a Revolução Bolivariana necessitava solidariedade ativa para continentalizar-se e avançar, se negaram a impulsionar a ALBA, O Banco del Sur, a PetroAmericas e outras iniciativas progressivas de independência do imperialismo ianque.

Ofereceram a Odebrecht e seus esquemas de financiamento de campanha, com vistas a moderar o processo em curso e enriquecer os capitalistas brasileiros. Em treze anos governo nunca colocaram o Brasil na rota da Revolução Bolivariana, pelo contrário, a frearam e contribuíram decisivamente para sua degeneração.

Nossa posição, desde o Brasil, deve ser a de resgatar a soberania popular usurpada por ambos os lados da disputa e acolher os imigrantes venezuelanos acossados pela miséria e pela repressão madurista. Somos antiimperialistas e internacionalistas, por isso imediatamente nos colocamos contra qualquer tentativa de intervenção imperialista na Venezuela. Mas também somos pela autodeterminação dos povos. É o combativo povo venezuelano, por meio de sua mobilização e seus instrumentos, quem pode construir uma saída independente para a crise, frente ao intervencionismo golpista e o entreguismo do governo Maduro.

BERNARDO CORRÊA – Executiva do PSOL/RS

PEDRO FUENTES – Ex-Secretário de Relações Internacionais do PSOL

ISRAEL DUTRA – Secretário de Relações Internacionais do PSOL

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