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ESPECIAL DE ENTREVISTAS COM IMIGRANTES NO BRASIL #1 – César Augusto Barrios (Coordenador da ANIV-SP)

O Portal Esquerda em Movimento começa uma série de entrevistas com lideranças de imigrantes e refugiados no Brasil, ouvindo as comunidades sobre sua situação no país e a conjuntura política de seus países de origem. Nossa primeira entrevista é com o jornalista César Augusto Barrios, ex-professor da Universidade Bolivariana da Venezuela e coordenador da ANIV (Associação Nacional de Imigrantes Venezuelanos) em São Paulo.

Portal Esquerda em Movimento: O que é a ANIV?

César Augusto Barrios: A associação foi criada em Roraima, porque é por lá a entrada no Brasil dos imigrantes venezuelanos. O fluxo vem de Pacaraima, cidade de Roraima. Com o respaldo da CSP-Conlutas, que se solidariza com a situação da classe trabalhadora internacional, se iniciou o processo de formação da ANIV – Associação Nacional de Imigrantes Venezuelanos no Brasil – a princípio em Roraima, se estendeu até Manaus e agora nos organizando em São Paulo.

PEM: Como funciona a associação?

César: A associação, segundo seus estatutos, tem seus representantes eleitos entre os imigrantes venezuelanos. Não todos eles, mas sim alguns grupos [de imigrantes] que se reúnem em assembleia e determinam uma direção com um coordenador, dois vice-coordenadores, um tesoureiro e um secretário. Os objetivos da mesma são organizar a luta por trabalho, por moradia, por defesa de direitos, e assim viemos construindo algumas pequenas políticas para vencer estas lutas de forma organizada. Por exemplo, aqui em São Paulo organizamos um mapeamento da localização dos venezuelanos no estado, hoje em dia temos aproximadamente mil venezuelanos vivendo em São Paulo e ainda não conseguimos atingir a todos, que são atendidos por diferentes organizações. Os setores [de atendimento] da prefeitura atuam por meio do Projeto Acolhida, o programa de interiorização de venezuelanos no Brasil, e são mais fechados para o acesso da associação, e existem os setores ligados à Igreja Católica, à Arquidiocese e à sociedade civil que são muito mais receptivos.

PEM: E qual é o principal foco da ANIV?

César: Na questão do trabalho. Nosso mapeamento tem a intenção de identificar qual é a nossa força de trabalho e promover uma alternativa de trabalho através das micro-empresas individuais, para poder participar dos programas de financiamento que existem no estado e atender aos requerimentos da burocracia para abrir uma micro-empresa. Para isso, já temos parcerias com estagiários de administração da FECAP para apoiar os imigrantes na relação com a Receita Federal e também com professores da FMU, que darão assistência personalizada aos imigrantes para a elaboração dos projetos, análise suas viabilidades e seus processos de aprovação pelos programas de financiamento. Para aqueles que buscam empregos, organizamos uma proposta de oferta de trabalho coletiva onde já temos mais de cinquenta membros, entre pedreiros, pintores, mecânicos e outros, para organizar esses trabalhadores sobre seus direitos e somar aos esforços que já existem [entre a comunidade venezuelana].

PEM: Como a ANIV se organiza?

César: Nós fazemos assembleias, como outros grupos de imigrantes do Congo, de Angola, da Palestina, da Síria, com a intenção de reivindicar nas localidades alguns pontos da Lei 6428/16. Esta é a lei que permite a interiorização e a integração com maior alcance dos imigrantes, tratando do atendimento de temas como moradia, albergues, encaminhamentos para cursos de português, mas algumas coisas da lei ainda não são garantidas. Então nós reivindicamos como uma força conjunta da CSP-Conlutas e da Associação de Venezuelanos, convocando as demais organizações, impulsionando projetos ao governo e reivindicando melhorias na situação dos imigrantes. Estes são nossos objetivos.

PEM: E são quantos venezuelanos no Brasil?

César: As estatísticas do governo federal falam em 90 mil venezuelanos, mas também falam que 56% deles voltaram para a Venezuela. Então, se este dado levantado pelo governo estiver certo, temos ao redor de 40 mil venezuelanos no Brasil, com Roraima concentrando a maior quantidade deles e tendo uma complexidade particular porque, segundo os dados do governo estadual, possui 4 mil venezuelanos morando em albergues improvisados pela força tarefa composta pelo Ministério da Defesa, governo locais e ONGs, mas tem mais de 16 mil venezuelanos que moram na rua. É quase a mesma quantidade de moradores de rua que existe em São Paulo.

PEM: Como funciona o programa de interiorização?

César: Esse é um tema importante. Em março de 2018, o governo federal convoca um comitê emergencial para monitorar a situação mas, infelizmente, na cidade de São Paulo não gerou nenhuma política para os imigrantes. Somente pegou uma multidão de venezuelanos que chegaram a São Paulo através do Exército Brasileiro e os colocou em centros de acolhida, que é uma política planejada para atendimento de moradores de rua, com um orçamento anual aprovado para isso, com convênios para esse tipo de atendimento. Não houve criação de nenhuma política de atendimento de imigrantes por parte do governo de São Paulo ou da prefeitura, e aí virou um conflito na parte operativa porque as necessidades de uma população imigrante não são as mesmas necessidades da população de rua. Antes de formarmos nossa associação, estabelecemos um movimento que foi até a prefeitura, fez audiência pública na Câmara dos vereadores, e nos foi informado que São Paulo recebeu uma verba de 10 milhões de dólares para projetos com os imigrantes venezuelanos. Mas, se estamos sendo atendidos pelos projetos voltados aos moradores de rua, para onde vai este dinheiro?

PEM: E sobre a situação da Venezuela? Como você e a ANIV veem a atual situação venezuelana?

César: Nossa associação vem debatendo com os companheiros da CSP-Conlutas sobre a situação da Venezuela e não suportamos a autoproclamação de um governo de Guaidó, porque é inconstitucional, mas também não suportamos a permanência de Nicolás [Maduro] no poder. Nossa posição é a de que é preciso haver um diálogo, pelo bem da população e da classe trabalhadora venezuelana, mas um diálogo assertivo, com respeito, onde os interesses consigam se conciliar. Temos certeza que isto é possível, mas é preciso jogar fora o ego de ambos os setores, da prepotência do império norte-americano e também do governo venezuelano. Se você faz uma análise concreta das estatísticas do governo da Venezuela por volta de 2012, com o preço do petróleo a 140 [dólares o barril], o país havia avançado em 11 dos 17 indicadores de metas do milênio. Os índices de diminuição da pobreza assustavam o império [norte-americano]. Então nossa postura é simples, não é somente uma troca de presidente que resolverá o conflito, mas sim o aprofundamento do projeto [chavista] que deu muito certo do ponto de vista histórico, que reivindicou, conquistou e prosperou. Mas, infelizmente, o problema foram as misérias humanas de muitos governantes que pactuavam em segredo com a oposição [anti-chavista] e levaram a esta situação.

PEM: E como vocês veem a iniciativa recente dos governos do Uruguai e México para o diálogo e a realização de novas eleições?

César: Achamos que é necessário, mas achamos mais ainda que é preciso surgir uma nova liderança na Venezuela, da própria classe operária. Dialogando com pessoas que simpatizam com os dois lados, mas principalmente que esteja com a classe trabalhadora da Venezuela, que tem um amplo setor não se identifica com Guaidó porque representa uma oligarquia, mas também não se identifica com Nicolás [Maduro] porque também virou uma oligarquia. Então, nessa situação onde o oprimido vira o opressor é preciso ter pessoas emancipadas da classe trabalhadora que consigam levar adiante as reivindicações e não perder as conquistas que já teve o povo venezuelano. Não o governo, mas sim o povo, e falo sobre o povo porque a Venezuela, em 1998, tinha 800 mil estudantes no ensino superior, enquanto em 2007 tinha 3 milhões, e a medida que a educação se fortaleceu, foi uma conquista do povo. No Brasil eu pago 20 reais por semana para utilizar o telefone celular, e na Venezuela com esse mesmo valor você paga um ano de telefone. O acesso às telecomunicações, diretamente relacionado com o acesso à informação e à educação, foi uma conquista do povo. E para voltar a termos estas conquistas é preciso uma liderança da classe trabalhadora, de pessoas conscientes do que conquistaram e não querem entregar isso nas mãos do império, mas também não querem suportar mais um governo que tem sido excessivamente corrupto.

Uma nova página para apoiar e construir novas alternativas na América Latina e no mundo, defendendo o poder dos trabalhadores e do povo contra o 1% dos ricos e poderosos, e uma sociedade sem exploração.

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