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Entrevista de Freixo ao programa “Diálogos” de Mário Sérgio Conti [VÍDEO/TRANSCRIÇÃO]

TRANSCRIÇÃO DA ENTREVISTA REALIZADA E VEICULADA EM 14/03 NO CANAL GLOBONEWS 

MARIO SÉRGIO CONTI: Olá, sejam bem-vindos ao programa “Diálogos” de Mário Sérgio Conti. O entrevistado de hoje é um companheiro da vereadora Marielle, que foi assassinada há um ano, e é um dos responsáveis por sua militância política. Hoje, ele é deputado federal em seu primeiro mandato, após presidir a Comissão dos Direitos Humanos da ALERJ. Obrigado pela sua presença em São Paulo neste dia tão agitado.

MARCELO FREIXO: Obrigado pelo convite, Mário.

MSC: Marcelo, foram presos dois suspeito com todos os indícios de serem eles mesmos os que mataram Marielle e o motorista Anderson. Você está satisfeito com o resultado? E essa história de “quem é o mandante”, que você acha disso?

MF: Eu acho que este é o ponto mais importante que tem acontecido neste momento sobre o caso Marielle. As provas são muito contundentes contra essas duas pessoas presas. Houve ali um trabalho de investigação, tardio… Um ano é um tempo de investigação inaceitável, por mais que o crime tenha sido muito planejado, feito por pessoas muito profissionais, com precauções que fazem a polícia afirmar que se trata do “crime mais sofisticado da história do Rio de Janeiro” que não é um lugar com pouco crime. Apesar disso tudo, um ano de demora é inaceitável! Este tempo só foi possível porque ocorreram muitos erros por parte da polícia. Houve um desentendimento muito grande entre a linha de investigação da Polícia Civil e a do Ministério Público.

MSC: Houve uma suspeita de um emperramento, de uma obstaculização da investigação?

MF: Eu não tenho a menor dúvida disso, e a maior prova é que a Polícia Federal entra no caso exatamente por isso. Não há a federalização da investigação que continua na mão da Polícia Civil e do Ministério Público, mas a Polícia Federal entra no caso para investigar a investigação. Quantas vezes isso aconteceu na história do Brasil? Pouquíssimas vezes. E a entrada da Polícia Federal neste caso da Marielle foi fundamental. Eu acompanhei este caso de muito perto, eu me reuni inúmeras vezes com a Polícia Civil, com a Polícia Federal, com o Ministério Público em menor intensidade…

MSC: Quem barrava a investigação?

MF: Bem, a Polícia Federal entra para se impedir que se barrasse a investigação, investigando os limites dessa investigação. A Polícia Federal faz uma operação para desarticular uma tese gerada a partir de uma testemunha plantada no caso. Uma testemunha sobre a qual Delegacia de Homicídios sustentou sua principal hipótese e que se revelou posteriormente uma perda de tempo. Neste ponto, a PF foi decisiva, porque era uma testemunha que surge a partir de um depoimento para um delegado da PF, demasiadamente suspeito, que foi realizado fora da sede da PF, sem o conhecimento da  chefia da PF, ante a presença de um jornalista, ou seja, um depoimento feito para vazar, totalmente irregular. E esta foi a principal linha da Polícia Civil durante boa parte do tempo. Isso é imperdoável! Contudo, Mario, eu acho que a caso da Marielle é muito grave e sério, e não é porque era minha grande amiga, minha grande companheira de trabalho. Foi um crime contra a democracia! Uma vereadora eleita morta por um grupo político, e quem está dizendo que é um grupo político é a própria polícia. A morte da Marielle foi uma morte planejada por um grupo político. Nós precisamos saber que grupo político é capaz de matar seus adversários em pleno século XXI.

MSC: Não é possível que estes dois PMs, um reformado e outro expulso, sejam eles os que planejaram e mataram Marielle e Anderson?

MF: Não há a menor chance. Eu queria tocar neste ponto, Mario, porque é muito importante. Este crime da Marielle é um crime importante em si, porque é um crime contra a democracia, é um crime que um grupo político manda matar uma vereadora em pleno exercício do mandato. É a violência como método político em pleno século XXI, o que é completamente inaceitável! Essa situação tem a ver com o processo histórico do Rio de Janeiro, onde crime, polícia e política não se separa há muitos anos, e eu disse isso na CPI das Milícias em 2008. Foi isso que levou à morte da Patrícia Acioli em 2011, e agora leva à morte de Marielle. Há uma estrutura de poder no Rio de Janeiro que se mistura com o crime de uma forma que a gente precisa enfrentar. Este é o eixo central de uma crise profunda de segurança pública que nos custou a vida de Marielle e muitas outras vidas. São cerca de 60 000 homicídios neste país por ano, um número estarrecedor. Mas o crime contra a Marielle se diferencia por ser um crime contra a democracia. E mais importante ainda: quando se olha a investigação do caso se nota a presença de obstáculos que revelam a crise profunda pela qual o Rio de Janeiro atravessa há anos. Estes grupos aos quais pertencem esses policiais matadores, perigosíssimos, atuam há muitos anos e nunca foram investigados, Mario. Por quê? Será que a polícia nã queria chegar neles no caso Marielle?

MSC: Mas esses grupos elegem deputados, vereadores, governador, senadores… Eles têm o domínio do aparelho do Estado.

MF: É esta relação entre crime, polícia e política, de domínio de território útil para projetos econômicos e eleitorais. Esta é uma crise profunda.

MSC: Como é que isso funciona? Chega um grupo de parlamentares, vamos dizer assim para não ficar vago, e falam com policiais: “olha precisa matar a Marielle…”?

MF: Este é um bom ponto. Por que eu tenho certeza absoluta que os assassinos não agiram por conta própria. Estes sujeitos matam há anos no Rio de Janeiro. É um grupo sofisticado de matadores, envolvidos com milícias. Ele é um sargento com um salário de 7 mil reais. Ele tem um patrimônio incompatível com a sua renda, algo aliás que só é possível no Brasil, e nada acontece, ninguém investiga e fica por isso mesmo… Isso mostra que o valor da grana, o valor da capital, é maior do que o valor da justiça. Ele era vizinho do Presidente da República, morava na mesma rua do condomínio, ganhando 7 mil reais. Além disso, possui casa em Angra dos Reis, carros luxuosos, lancha… Um escândalo! E ninguém havia investigado! Ele era traficante de armas, 117 armas foram apreendidas na casa de um amigo dele, a maior apreensão de fuzis da história do Rio de Janeiro, M-16, uma arma altamente mortífera… Foi preciso investigar o caso da Marielle para se descobrir que o cara que era vizinho do presidente da República era um dos maiores traficantes de armas do país. Então, o que está se desnudando por trás do caso da Marielle é uma crise muito profunda que ou resolvemos agora ou não resolvemos nunca mais. Por isso que devemos aprofundar este debate. Não é só por causa da Marielle. É muito por causa dela, mas é principalmente tudo o que o caso Marielle nos trouxe. Então, como imaginar, Mario, que esse homem, que é um matador, que enriqueceu ligado à milícia e traficando armas, ele resolveu ter raiva da Marielle e matá-la por uma questão passional. Não faz o menor sentido!

MSC: Então, você acredita que não houve “crime de ódio” nem de “obsessão” neste caso?

MF: Convenhamos que não existe “crime de amor”, todo crime é movido por ódio, mas um sujeito que tem 117 fuzis, deve odiar muita gente, pelo visto, né…

MSC: 117 fuzis M-16, que ninguém nunca viu atuando nas ruas do RJ com a polícia…

MF: Custa uma fortuna cada fuzil desse! Não tem cabimento a hipótese de que um indivíduo, com envolvimento tão complexo na criminalidade, resolveu ter raiva da Marielle e matá-la.

MSC: Por que a Marielle, exatamente, foi a escolhida para ser assassinada?

MF: Essa é a grande pergunta que estamos cobrando respostas. Todas as manifestações hoje no mundo eram no sentido de dizer: “quem mandou matar a Marielle? Por quê?”. Já sabemos agora quem apertou o gatilho, e as provas são muito contundentes acerca disso. Mas eles não agiram por conta própria, não há o menor sentido de se cogitar isso. Eles começam a pesquisar a vida da Marielle – pesquisaram também a minha vida, aliás – em outubro ou novembro de 2017. Ali naquele momento tem muita coisa acontecendo na política carioca: a prisão da cúpula do PMDB, uma crise profunda no Tribunal de Contas… Toda essa linha do tempo tem que ser investigada. Tem mandante e esse mandante é poderoso. Porque não é qualquer mandante que consegue que esse grupo mande matar uma vereadora.

MSC: Por que ela incomodava tanto seus assassinos?

MF: A Marielle não recebeu nenhuma ameaça. Nenhuma. Nenhum de nós imaginou, nem ela, nem a família, nem a sua companheira, ninguém nunca imaginou que ela estivesse sob qualquer risco. Eu conversei com a Marielle – a nossa relação era muito profunda, trabalhamos juntos durante muitos anos -,  eu falei com a Marielle na véspera de seu assassinato, programamos uma atividade na Favela da Maré no final de semana seguinte à quarta-feira em que ela morreu. Ela não tinha a menor ideia de que ela estava sendo monitorada, investigada ou que corria riscos. O mandato da Marielle era muito participativo e inovador na cidade. Era uma mulher negra, vinda da favela, com uma pauta muito importante para o Rio de Janeiro. Mas eu olhei tudo, todo mundo olhou seus registros, e não se encontrou nada. Ela, por exemplo, nunca presidiu uma CPI que pudesse incomodar o interesse concreto de grupos poderosos. Não há nada que nos desse uma pista.

MSC: Ela não confrontava as milícias abertamente?

MF: Ela nem queria isso, inclusive. Até porque ela tinha convivido com o nosso trabalho nestes anos todos, participando da minha equipe durante 10 anos. Já na CPI das Milícias em 2008, ela era da minha equipe. Logo, ela sabia perfeitamente de tudo pelo que tínhamos passado e o preço daquilo tudo. Ela não queria passar por aquilo de novo, no que ela tinha total direito. Então, é muito estranho que ela tenha sido escolhida para ser morta. Por isso, a gente precisa saber se se trata de um crime contra um projeto político do qual nós fazemos parte. É um recado? A gente precisa saber! Não sou eu que preciso saber, mas nós, o país, que precisamos saber. A democracia brasileira precisa saber. Por trás do crime contra a Marielle se revela um Rio de Janeiro sombrio, um Rio de Janeiro que não tem nada de cidade maravilhosa. Agora, precisamos saber que a segurança pública não pode mais ficar sendo objeto de uma disputa ideológica torpe, que negue a importância dos Direitos Humanos e que eleja defensores da barbárie, e não a democracia.

MSC: É um crime horrendo, é um crime político, é um crime que revela uma corrupção dentro do aparelho de estado, da polícia e da política no Rio de Janeiro. Realisticamente, como é possível avançar? Você mesmo disse que só foi a partir da intervenção da Polícia Federal nas investigações. É necessário que a PF fique permanentemente no Rio de Janeiro?

MSC: Eu acho que tem um grande problema nessa história, que aliás pode ser associado a este grande pacote “Anti-Crime” apresentado pelo Ministro da Justiça, Sérgio Moro. É preciso a integração das forças policiais. O Moro acaba de lançar um pacote, que não é um pacote com medidas de segurança pública. É um pacote de endurecimento penal, é um pacote de restrição de direitos. Nele não há uma linha sequer sobre a inteligência da Polícia Federal, sobre a integração dos serviços de inteligência e sobre a ação preventiva da polícia. É um pacote que reforça a tendência de explosão do sistema penitenciário. O caso Marielle mostra muito de forma contundente essa situação. As duas maiores apreensões de fuzis da história do Rio de Janeiro – este caso do assassino da Marielle e o caso do aeroporto do Galeão – ocorreram sem nenhuma troca de tiro, por meio dos serviços de inteligência policial. Não foi em favela, matando e morrendo, não foi com helicóptero, não foi atirando em narcotraficante, não foi nada disso. É completamente ineficaz a lógica de segurança pública calcada na guerra nos lugares mais pobres, uma guerra que criminaliza os territórios mais pobres, que fortalece os comandos, fazendo com que o terror local aumente o poder armado de quem tem ali o domínio do território, e não é eficaz. É fundamental que o Sérgio Moro, agora responsável pela Polícia Federal, entenda que é preciso investir em inteligência. E tem que investir numa inteligência integrada. A Polícia Civil teve muita dificuldade de trabalhar integrada em conjunto com a PF e teve, até um certo momento, muita dificuldade em trabalhar de forma integrada com o MP, o qual tem também seu próprio serviço de inteligência. A ação preventiva precisa ser planejada com a integração desses órgãos, e não ficar numa disputa se “federaliza ou não federaliza” a investigação.

MSC: Mas não é uma questão técnica. É uma questão de poder, não?

MF: É uma questão de entendimento político, de projeto integrado.

MSC: O governador do Rio de Janeiro estava num palanque onde foi destruída uma placa com o nome de Marielle. O Presidente da República tem um filho que fez homenagens a milicianos e, ele próprio, é muito reticente em criticar milicianos. Realisticamente, como é possível avançar?

MF: É mais do que isso, né? Muitas pessoas me perguntaram o que eu achava do Presidente ser vizinho do assassino da Marielle. Eu não vou fazer uso político disso. Qualquer um poderia ser vizinho ali. Eu não sei quem são os meus vizinhos. Mas não se trata disso. O problema é outro. O atual Presidente da República, durante anos, defendeu a legalização das milícias. Quando eu presidi a CPI das Milícias, e apresentamos um relatório mostrando que milícia é máfia, que milícia domina território, que era o lugar onde se concentrava o maior número de homicídios no Rio de Janeiro, ele veio a público defender a legalização das milícias. Ele sempre defendeu os grupos de extermínio. Sempre defendeu a ação letal das polícias. Então, neste sentido, ele tem uma responsabilidade muito grande sobre um caldo de cultura violenta que cresce cada vez mais no país. Você tem uma polícia que mata e que morre. E, neste sentido, é preciso que o Ministro Sérgio Moro entenda que, mesmo fazendo parte de um governo com este perfil, o Ministro da Justiça tem uma responsabilidade enorme. O pacote que ele apresentou com nenhuma discussão com o conjunto da sociedade, havendo muitos setores (especialistas, universidades, pesquisadores, organizações) que podem contribuir com o debate da segurança pública e que deveriam ser ouvidos com toda humildade. O pacote que ele apresenta vai gerar o endurecimento penal, vai gerar o crescimento do sistema carcerário, vai gerar o aumento do poder das facções criminosas, vai gerar o aumento da letalidade policial. É um projeto consistente e inconsequente. É bom que o ministro apresente um projeto de combate ao crime organizado, mas este projeto apresentado agora é consistente em sua inconsequência.

MSC: Mas ele tem a legitimidade do voto com ele, também, né? Este é um ponto interessante. O presidente, que, segundo você, elogia as milícias e as acoberta, foi eleito com uma plataforma de endurecimento da polícia e de restrição de direitos. Como saímos disso?

MF: Esta é uma luta pedagógica que precisamos fazer. Acabamos de passar por um episódio horrendo em Suzano [massacre escolar na Grande SP em que 10 pessoas perderam a vida], porque existe a banalização do processo de violência no país, um descontrole completo sobre o acesso às armas. Eu presidi a CPI do Tráfico de Armas e Munições, e descobrimos que o Estado não consegue controlar o acesso legal às armas. Quem controla as seguranças privadas é Polícia Federal, quem controla as lojas de venda de armas é o Exército, que faz fiscalização previamente agendada. Isso não existe! O agente que fiscaliza um setor não conversa com o agente que fiscaliza o outro setor. O setor de inteligência do Exército nunca conversou com a Polícia Federal. Há um descontrole absoluto sobre a política de armas. Ninguém controla munição neste país. Agora, o discurso do ódio, o discurso do medo, é calcado em cima de uma realidade que é violenta. A nossa realidade é violenta. No Brasil, há 62 000 homicídios por ano. Assim, evidentemente, o discurso do medo e o discurso do ódio podem convencer muitas pessoas. Principalmente, num momento em que existe uma crise política de representatividade muito grande, e o Bolsonaro aparece como candidato antissistêmico, mesmo sem sê-lo. Ele nunca foi antissistêmico, muito pelo contrário. Ele sempre foi sub-sistêmico, ele sempre participou desse sistema da pior maneira possível. Mas ele conseguiu, depois de 2013, aparecer como uma novidade política antissistêmica, que se baseia num discurso calcado no medo, e produzindo um suposto resultado mais imediato na segurança pública. O debate da segurança pública é central no debate da democracia. Não podemos permitir que este debate seja feita por uma lógica policial calcada no medo. Isso vai custar muito caro para a nossa sociedade e estamos vendo isso. O caso Marielle é um exemplo.

MSC: A primeira grande reportagem sobre você foi feita, se eu não me engano, em 2012 pelo Dorrit Harazim. Uma matéria completa, grande, que mostrava você durante o governo do PT tentando avançar no debate da segurança pública. De lá para cá, a situação só piorou, Marcelo. Temos agora um governo duro e de direita. Como se avança neste contexto? Eu insisto com a mesma pergunta.

MF: Isso que você disse é verdade. Mas temos também algumas vitórias. Eu fiz a CPI das Milícias em 2008 no início do Governo Cabral. Ali, estávamos denunciando os grandes esquemas do Cabral. Durante muitos anos, eu fiquei denunciando o Cabral sozinho. O Cabral era o político querido de muita gente. Foi reeleito no primeiro turno em 2010. E na CPI das Milícias, estávamos denunciando suas relações com os empresários de ônibus, com as máfias estabelecidas no Rio de Janeiro. Estávamos falando em 2008 que crime, polícia e política estavam relacionados de uma maneira que não se separavam, que aquilo custaria caro para nós. Em 2011, a juíza Patrícia Acioli foi assassinada; e agora, perdemos a Marielle. Bem, após essa gestão do MDB, estamos aqui conversando, estamos falando da importância do enfrentamento contra o crime organizado, estamos falando que as propostas precisam ter mais consistência… E aquele grupo do PMDB, que ria de nós, está preso. Então, valeu a pena termos sido uma minoria ali, valeu a pena termos insistido na luta. Porque, na época, também me perguntavam a mesma coisa: como você irá enfrentar esse PMDB tão poderoso? Nos tachavam de extremistas, e nós não éramos extremistas. Tínhamos propostas concretas, mobilizamos a sociedade, fizemos um relatório, fundamentou as discussões e vencemos aqueles caras. Eles hoje sumiram da política do Rio de Janeiro. Estão todos presos. Apesar disso, sabemos que os problemas do Rio de Janeiro estão longe de ser resolvidos. Aumentou o número de milícias, você tem razão. Precisamos nacionalizar este debate e entender que este é um debate de democracia. Mas também tivemos nossas vitórias, não devemos contabilizar só as derrotas.

MSC: Você estaria disposto a se sentar com o Sérgio Moro para discutir um plano de prevenção, desmontagem das milícias e da corrupção no Rio de Janeiro?

MF: Sem dúvida. Devemos ter uma relação republicana. Eu acho que o Sérgio Moro precisa fazer um movimento de ouvir o conjunto da sociedade. Agora ele não pode  ficar refém das pressões do twitter e não conseguir nomear nem uma conselheira para o Conselho Penitenciário e uma suplente de Conselheira que sequer era remunerada. Se um ministro não consegue manter nem uma suplente de um Conselho Penitenciário, eu acho que ele vai ter muitas dificuldades de se reunir com setores mais progressistas, porque será pressionado por esses fanáticos que hoje dominam a república brasileira.

MSC: O filho do presidente diz que ninguém conhecia a Marielle. É uma provocação, mas há um fundo de verdade. De uma hora para a outra, ela se transformou num símbolo pop, em algo até muito maior que a política institucional. As manifestações no dia da morte dela foram impressionantes. Como se explica isso, deputado?

MF: Olha, eu tenho uma dificuldade… Eu conheço a Marielle de um lugar muito singular. Mas a Marielle não é mais isso que eu conheci. A Marielle se tornou algo muito grande. Eu conheci a Marielle em 2002, a conheci ainda menina na Favela da Maré. Eu fui professor da sua irmã, Anielle Franco, no Ensino Médio inteiro. Ela trabalhou 10 anos comigo. Mas a Marielle, na Comissão de Direitos Humanos, que ela coordenava e eu presidia, foi crescendo de uma maneira muito impressionante, porque a história de vida dela se relacionava com aquilo que ela estava fazendo. Ela deu a alma na Comissão de Direitos Humanos e aquilo a transformou da mesma maneira. Quando ela sai candidata à vereadora, ela tem um crescimento incrível. Mas, é verdade, ela foi eleita com 46 502 votos. E ela é conhecida de um setor pequeno do Rio de Janeiro. Mas a sua morte é de uma brutalidade tão grande e desperta algo no mundo inteiro que não vem de pessoas que conheciam a Marielle, mas de pessoas que queriam ter conhecido a Marielle. Quem olha para o mundo e olha para aquele fato fala: “eu não quero viver num lugar que a gente venha a perder mais Marielles”. A Marielle transforma-se num símbolo pelo desejo de que boa parte do mundo se manifesta de um novo modelo de sociedade. Por isso que eu acho que as coisas não estão perdidas. O desfile da Mangueira, a reação da população, a cada manifestação com Marielle, os setores populares como reagem a esta forma tão brutal como ele perdeu a vida… A Marielle não se transforma num símbolo à toa. Passamos talvez as piores noites de nossas vidas naquele dia. Marcamos o velório para a manhã seguinte, na Câmara de Vereadores, sem ter ideia que aquilo iria acontecer. Quando chegamos na Câmara de Vereadores, não havíamos dormido, havia uma multidão. Ali, o mundo já estava enviando um recado que não queríamos perder novas Marielles. Não era só por ela, em si. Mas por tudo o que ela representava e por um modelo de sociedade que não podemos abrir mão.

 

 

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