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“Voces del Cambio”: A unidade, um caminho por andar

Em meio a uma nova crise política que estremece o país, aconteceu o II Encontro de “Voces del Cambio” [“Vozes da Mudança”], desta vez na cidade imperial de Cusco. O contexto nacional tornava mais imperiosa a necessidade de avançar uma articulação de forças de esquerda e o progressismo para dar resposta à classe política e empresarial tradicional que segue empenhada em cobrir seus delitos de corrupção, além de sustentar a todo custo um modelo econômico cada vez mais agressivo contra o povo trabalhador.

Embora o evento de Huancayo tenha sido mais pragmático e, portanto, mais consistente, o de Cusco foi mais abarcador já que se somaram PR, FS, MPS e PH, além do PC que já estava – todos de JPP – salvo CxC que se manteve à margem. Desta vez, “Voces del Cambio” girou mais em torno à conjuntura política e à unidade que havia sido estremecida por declarações anteriores de Gregorio Santos do MAS. Apesar disso, primou mais o sentido de unidade ante a grave crise política e de regime que abre uma oportunidade única inédita para as forças da mudança.

A mais enfática foi Verónika Mendoza pois disse que o povo está cansado de aguentar tanto e que chegou a hora de uma mudança histórica para o qual não basta declarar isso, mas que faz falta o como. Que para isso temos que nos juntar para além da esquerda, com o povo e suas múltiplas lutas, formando uma grande plataforma programática, popular e cidadã. Enfatizou a necessidade de exigir o fechamento do Congresso que abra passagem para uma saída constituinte e uma nova Constituição que tome em suas mãos as mudanças necessárias para recuperar a soberania, a independência plena, o fim da corrupção, o atraso e a pobreza. Recordou Tupac Amaru e Micaela Bastidas para afirmar que agora há milhares como eles, que eles apenas abriram o caminho.

Vladimiro Cerrón abriu o evento explicando que “Voces del Cambio” deve transcender o 2021 como uma plataforma de luta, de renovação de ideias e questionamento à ordem imperante. Que a unidade é a pedra angular do triunfo de nosso povo e que consegui-la é uma tarefa complexa mas não devemos torná-la mais difícil, que devemos sepultar o sectarismo e o oportunismo que fez fracassar à esquerda nos anos 80.

Goyo, em sua intervenção, carregou suas críticas aos que estiveram comprometidos com governos liberais e até foram ministros dos mesmos, com o qual buscou marcar posição de uma maneira simplista, pois certamente não podemos esquecer o passado que nos interpela, mas não podemos ficar aí separando os bons dos maus, mas que isso deve servir para NÃO VOLTAR A COMETER OS MESMOS ERROS, em particular o de pactuar com setores da direita liberal como sucedeu com o governo de Humala com o auspício e colaboração de um setor da esquerda.

A ideia de uma frente de classes deve ser enterrada porque foi o que afundou a grande parte da esquerda peruana. “Voces del Cambio” deve construir a unidade em base a um programa democrático antineoliberal e uma clara independência em relação a todo o leque de liberais que tentarão ocupar um espaço flertando com a esquerda para levá-la a seu terreno. A tentação de ir para o centro e buscar aliados no bando contrário está muito fresca e compromete a muitos, aí estão as candidatura de CORNEJO, BELMONT ou CAPUÑAY nessa lógica de pôr um liberal à frente de um projeto popular. A desconfiança nas próprias forças deve ceder ante o impulso do povo peruano que não cessa de lutar por uma mudança de fundo.

“Voces del Cambio” é o ponto de partida para forjar uma unidade superior sustentada num claro programa de ruptura com o modelo econômico e o regime político imperante, com métodos democráticos para construir essa unidade, com eleições primárias abertas tanto para chapa presidencial como para congressistas. Se fizermos as coisas bem, o Novo Peru com Verónika Mendoza têm uma grande responsabilidade –por seu peso político- de ajudar a conduzir este processo apontando a não repetir a história, a não nos somar ao velho mas impulsionar o novo, parte do qual são as forças regionais de esquerda que alcançaram a vitória nas eleições recentes. Outro dos componentes do novo deve ser superar o economicismo com o qual se costuma enclausurar o protesto popular sem perceber que a luta democrática passou a ser um componente fundamental da luta social em todo o mundo justamente porque o neoliberalismo necessita fechar espaços democráticos para impor a todo custo ante a resistência dos povos. Hoje essa bandeira não podemos deixá-la nas mãos de Vizcarra, nós temos que ir mais longe para emparedar e vencer o fuji-aprismo e fechar a passagem às opções autoritárias que tentam levantar cabeça como alertou Verónika.

Para vencermos dependerá que empalmemos com a vontade de mudança de uma ampla maioria de peruanos fartos de situação na qual nos encontramos. Cabe destacar o apoio acordado à paralisação nacional de 20 de junho convocado pela CGTP, assim como às múltiplas lutas em curso.

O caminho para construir a unidade que faz falta está no começo. É crucial nesse processo que haja réplicas de “Voces del Cambio” em cada rincão do território nacional, que as bases tomem em suas mãos esta tarefa de cujo resultado depende em grande medida que tornemos realidade esse outro Peru que queremos com um novo Estado e uma Nova República que deixe para trás o entreguismo, a corrupção, a exploração social e a discriminação em todas as suas formas. Tal objetivo é um fim em si mesmo, mas também ponto de partida rumo às grandes transformações estruturais que correspondem a esta época de crise capitalista global. Mas como diz o adágio, tudo começa com o primeiro passo. Mãos à obra!

Uma nova página para apoiar e construir novas alternativas na América Latina e no mundo, defendendo o poder dos trabalhadores e do povo contra o 1% dos ricos e poderosos, e uma sociedade sem exploração.

Secretaria de redação

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