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O Congresso da UNE e a necessidade de “novos junhos” com um programa

Transcrição da intervenção de Roberto Robaina (dirigente nacional do MES/PSOL) durante mesa de debate no Congresso Nacional da UNE em 11 de julho de 2019.

Companheiros e companheiras,

Eu queria, em primeiro lugar, saudar os demais integrantes da mesa – Rogério Carvalho (senador do PT-SE), João Pedro Stédile (liderança do MST), João Campos (deputado federal do PSB-PE), Luciana Araújo (presidenta nacional do PCdoB), Guilherme Boulos (liderança do MTST/PSOL).

Este Congresso da UNE talvez seja o mais importante Congresso da história da UNE. Houve um grande Congresso, símbolo da sua história, em 1968. Também houve outro Congresso fundamental, o Congresso de reconstrução, em 1979.

O Congresso de 1968 ocorreu quando o movimento de massas no Brasil já havia sofrido uma derrota. E o Congresso de 1979 foi um congresso de retomada.

O presente Congresso talvez seja superior em importância. Como disse anteriormente a Luciana Araújo, nós estamos numa situação muito difícil. O nível de retrocesso que nós temos é muito grave. E a responsabilidade da UNE é imensa, porque uma das marcas do governo Bolsonaro, numa combinação de autoritarismo e neoliberalismo, é o ataque à educação, à cultura, à tecnologia, à ciência e à juventude.

Um governo cuja essência é o autoritarismo e o neoliberalismo, cuja a marca é o obscurantismo, não pode conviver com uma educação democrática e massiva, nem com a ciência e a cultura. Não foi uma irracionalidade do governo Bolsonaro ter como eixo o ataque à educação. Foi precisamente a sua racionalidade.

A imposição de seu projeto pressupõe a derrota da juventude. E o novo neste início de ano é que o movimento estudantil respondeu de modo contundente, tanto no dia 15 de Maio, quanto no dia 30 de Maio. Maio foi histórico, pois a partir desse mês tivemos a possibilidade de iniciar uma retomada da reorganização e da refundação da esquerda brasileira construída pela base, com milhares de novos ativistas. E são esses, os milhares de novos ativistas, que podem refundar a esquerda brasileira.

Não estamos numa situação fácil. Nós tivemos ontem, embora não tenha terminado o processo de tramitação, uma derrota com a aprovação da Reforma da Previdência na Câmara de Deputados.

Nós temos um quadro fundamental que merece toda a nossa atenção. No Brasil, o palco da disputa política começou, ainda que não totalmente, a ter muito mais peso o que ocorre nas ruas do que ocorre nas instituições. Isso começou a mudar em junho de 2013. É muito importante refletirmos sobre isso, pois tem tudo a ver com a nossa responsabilidade. Se o movimento estudantil tem uma responsabilidade histórica de abrir uma nova etapa na refundação da esquerda, o movimento estudantil precisa discutir isso de modo profundo. Junho de 2013 abriu um novo regime do discurso político.

Eu não sou velho, mas também não estou muito novo. Eu fui diretor da UNE em 1988. Eu comecei a militar em 1982. Depois de 1989, meus amigos e minhas amigas, um ano de grande ascenso do movimento de massas, o ano da campanha do “Lula lá”. Depois daquela derrota eleitoral, os anos 1990s e os anos 2000s, a marca do Brasil foi a existência de um pacto político que manteve um capitalismo concentrador de renda, concentrador de poder.

O João Pedro Stédile deve saber muito bem e deve lembrar na pele que antes de 2013, grandes mobilizações no Brasil se contavam por 100 mil. Quando nós em 1999, e eu acho que quem juntou mais gente foi o MST, fizemos a Manifestação dos 100 mil em Brasília, isso demandou muito trabalho. Agora, depois de Junho de 2013, têm centenas de milhares nas ruas de várias capitais.

Junho de 2013 provou muita coisa para quem reivindica a revolução socialista, como eu reivindico. Antes não estava difícil só demonstrar que a aplicação de um programa radical era possível; estava difícil provar que grandes mobilizações de massa eram possíveis! Depois de Junho de 2013, esse regime do discurso de que o povo brasileiro não se mobiliza foi quebrado. Isso tem muita importância, porque agora, depois de Junho de 2013, é nas ruas que se decide o futuro do Brasil. Está nas mãos da UNE, dos estudantes e da juventude tomar as ruas.

Nós temos uma discussão. É verdade que Junho de 2013 esteve longe de resolver nossos problemas, pois Junho de 2013 não teve um programa. E a grande obrigação que nós temos, sabendo que é necessária uma unidade de ação ferrenha para derrotar o governo Bolsonaro. Eu, fundador do PSOL, que propus a existência do PSOL, depois de anos militando no PT, tenho muito convencimento que é necessária a mais ampla unidade. Mas a construção da unidade não nos isenta, camaradas, da responsabilidade de discutir um programa que enfrente as cinco famílias detentoras da fortuna de 100 milhões de brasileiros, taxe os lucros/dividendos das grandes empresas, cobre impostos da classe capitalista.

Neste processo de discussão de um programa, companheiras e companheiros, há uma conclusão que é preciso se extrair. Quando fundamos o PSOL, não havia “mensalão”. Não fundamos o PSOL por conta dos escândalos de corrupção. Nós fundamos o PSOL porque nós não concordamos com a ideia de que se poderia governar com setores da burguesia, seja com bancos, seja com empreiteiras, seja com latifundiários. E se comprovou mais uma vez historicamente que com a burguesia não se pode governar. Não se pode confiar na burguesia! Por isso, eu considero que a razão histórica do PSOL foi sim confirmada. Mas a confirmação de uma ideia não vale nada, se essa ideia não ganhar corpo ou força material.

E é na unidade com todos, mas discutindo de modo claro nossas diferenças, construindo um programa contra a classe dominante, afirmando a independência da classe trabalhadora que nós poderemos ter a vitória.

Viva o Congresso da UNE, viva a luta da juventude! Por novos Junhos de 2013, mas com um programa, com ampla unidade, para derrotar o sistema capitalista!

 

Uma nova página para apoiar e construir novas alternativas na América Latina e no mundo, defendendo o poder dos trabalhadores e do povo contra o 1% dos ricos e poderosos, e uma sociedade sem exploração.

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