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Por que somos “socialistas”, e não “progressistas”

Fonte: Jacobin Magazine – 01/07/2019

Uma pergunta que frequentemente escutamos como organizadores socialistas é se realmente é necessário usar a palavra ‘s’ – socialismo! – quando se fala de temas como Medicare for All, moradia digna ou Green New Deal. Não podemos ignorar todos estes incômodos “ismos” e simplesmente “colocar as mãos à obra”?

É uma pergunta justa, dado que durante décadas, a maioria dos ativistas da esquerda progressista evitaram se identificar como socialistas (ou mesmo criticar abertamente o capitalismo). Mas também é justo perguntar: onde nos conduziu todo este “trabalho” livre da “Ameaça Vermelha” e de ideologias?

Donald Trump ocupa a Casa Branca. Três multimilionários possuem mais riqueza que os 90% mais pobres da população estadunidense. E a mudança climática coloca uma ameaça iminente e existencial para a civilização humana.

Nos encontramos numa encruzilhada. Se queremos garantir um mundo habitável para nós e para as gerações futuras, não podemos continuar aceitando a derrota. Mas tampouco podemos ganhar se nossa política é demasiado tímida para dizer a verdade sobre os desafios que enfrentamos e qual é a culpa deles.

E aqui está a verdade: a crise climática, a crise de desigualdade de renda, a crise de moradia (e muitas mais) foram causadas pelo mesmo “ismo” muito poderoso e muito pernicioso. Chama-se capitalismo, um sistema econômico desenhado para explorar sem cessar o trabalho humano e extrair sem fim os recursos naturais do planeta. Um sistema que oferece lucros a alguns poucos ricos enquanto muitos sofrem, que trata as pessoas e suas comunidades como meras oportunidades de investimento, para ser abandonadas quando já não sejam rentáveis.

Nada ilustra melhor que a crise climática. Somente cem empresas são responsáveis de mais de 70% de todas as emissões globais de gases de efeito estufa. O exército dos Estados Unidos emite mais CO2 que a maioria dos países. A crise climática foi causada não por nossos hábitos de consumo individual, mas pela obscena desigualdade da riqueza, pelas guerras perpétuas pelo petróleo, pela constante necessidade de crescimento e novos mercados, pelos multimilionários que usam seu excesso de riqueza para comprar governos.

A crise climática, simplesmente, é uma crise do capitalismo, e não existe uma “solução de mercado” para abordá-la. Parafraseando a famosa linha, devemos substituir o capitalismo com um sistema econômico mais sustentável, ou enfrentar a barbárie e a extinção.

E, todavia, trinta anos depois da Guerra Fria, o capitalismo continua recebendo uma reverência quase pestanejar, quase religiosa, no discurso político dominante dos Estados Unidos. Todos os candidatos presidenciais democratas de 2020 (exceto um) defendem com entusiasmo o capitalismo. Pete Buttigieg se identifica como um orgulhoso “capitalista democrático”. Inclusive a incendiária Elizabeth Warren sente a necessidade de afirmar repetidamente que “acredita nos mercados” e descreve a si própria como “capitalista até os ossos”.  Segundo Warren, os problemas que enfrentamos como sociedade não são culpa do capitalismo, mas de algumas maçãs podres que manipularam o sistema para seu benefício. Não necessitamos terminar com o capitalismo, ela oferece, mas simplesmente ajeitá-lo.

Seguramente, há um lugar para políticas inteligentes e tecnocráticas em qualquer plano de sobrevivência esperado. Entretanto, à medida que avançamos até o apocalipse, poderíamos parar e perguntar por que essas ‘soluções’ nunca parecem funcionar por muito tempo. Por que, apesar de todos os gênios educados em Harvard que agraciaram os corredores do Congresso ao longo dos anos, as emissões vêm aumentando sem parar, a desigualdade cresce exponencialmente e nossas expectativas de vida estão diminuindo. Talvez não possamos simplesmente remendar estas coisas.

Talvez, em lugar de encontrar formas de salvar o capitalismo de si mesmo, deveríamos começar a descobrir como nos salvar do capitalismo.

Do atual e massivo campo de aspirantes a 2020, somente Bernie Sanders tem “um plano para isso”. E se chama socialismo democrático, um sistema econômico no qual os “meios de produção”: nossas fábricas, nossas corporações e nossos recursos naturais, etc. – são de propriedade e controle coletivos, de modo que a democracia funciona não somente no âmbito da política eleitoral, mas também em nossos locais de trabalho e na vida econômica.

É um sistema no qual os fundamentos da sobrevivência e liberdade humanas (como a atenção médica, a educação, a moradia, o emprego, os benefícios previdenciários, o meio ambiente) não se compram e vendem no mercado, mas são tratados como direitos humanos assegurados para todas as pessoas. É um sistema no qual trabalhamos não para obter lucros pelo bem dos lucros, mas para garantir que todos em nossa sociedade tenham o que necessitam para viver vidas felizes, plenas e saudáveis.

Como seria a vida para um trabalhador ordinário num sistema assim? Todos os dias acordaria em moradia digna e de qualidade construída ou subsidiada pelo governo. Se tiver filhos, irão caminhando para uma escola pública de qualidade ou seriam deixados num centro de cuidados infantis gratuito. O trabalhador viajaria num trem ou ônibus elétrico para trabalhar numa empresa em que ele é proprietário ou controla. Em lugar de lidar com o autoritarismo de algum pequeno tirano, ou competir com seus companheiros de trabalho por alguma promoção tonta, poderia se concentrar naquilo que importa: fazer um melhor produto com seus colegas e contribuir para um mundo melhor.

Se o trabalhador se zanga e quer mudar de trabalho, ele pode voltar à escola de forma gratuita e aprender novas habilidades. Também haveria um monte de novos empregos, financiados pelo governo, para reparar nossa infraestrutura, limpar e proteger o meio ambiente, fazer arte, ensinar e passar um tempo com as pessoas mais velhas. E dado que teria atenção médica e refúgio sem importar quem seja, poderia começar sua própria empresa algum dia, ou tirar um descanso do trabalho para escrever aquele romance que esteve refletindo. Ainda haveria angústia, enfermidade, envelhecimento, morte.Mas você teria tempo, recursos e apoio social necessários para lidar com eles de maneira digna e humana.

Podemos construir este mundo, sem dúvida. Mas para fazer isso, o “progressismo” não será suficiente. Não podemos esperar que nossas melhores intelectuais venham com “planos” para nos salvar. A gente comum deve estar facultada para encontrar suas próprias soluções em relação a suas circunstâncias econômicas e políticas. Necessitamos da luta de classes, guiada pelos princípios do socialismo democrático, no trabalho, nas ruas e na campanha eleitoral. Os muitos devem se levantar como leões contra os poucos para exigir um mundo melhor.

Para construir um movimento de massas exitoso, em estados vermelhos e azuis, devemos construir o poder coletivo em instituições democráticas e autofinanciadas, como os sindicatos e o DSA. Não podemos confiar em organizações sem fins lucrativos financiadas e controladas por patrocinadores corporativos e os doadores ricos que fazem parte de suas juntas diretivas. Estas organizações não desafiam o capitalismo porque estão alimentadas por capitalistas. O mesmo é certo para a maioria dos políticos, nos dois principais partidos políticos. Para ganhar o poder, devemos nos unir em torno de políticos de base popular e políticos como Bernie Sanders, Alexandria Ocasio Cortez e Rashida Tlaib.

Durante demasiado tempo, segmentos da esquerda se isolaram uns dos outros enquanto trabalham em lutas distintas pela justiça racial, a desnuclearização, a justiça ambiental, a reforma penitenciária, os direitos LGBT, os direitos reprodutivos das mulheres, as liberdades civis, os direitos de imigração e mais. Devemos desenvolver uma análise econômica coerente que nos permita ver a relação entre todos estes temas sob o capitalismo e unir forças quando seja necessário.

Quando saímos do armário como socialistas democráticos, nos despedimos da possibilidade de patrocínio corporativo para nosso ativismo, ou de jogar bem com multimilionários benevolentes. Mas surgem novas e melhores possibilidades de organização. O socialismo democrático é o futuro, e o futuro é brilhante.

Uma nova página para apoiar e construir novas alternativas na América Latina e no mundo, defendendo o poder dos trabalhadores e do povo contra o 1% dos ricos e poderosos, e uma sociedade sem exploração.

Secretaria de redação

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