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Por trás da turbulência econômica

Fonte: InprecorTradução: Alain Geffrouais

Suzi Weissman: Convidei Robert Brenner para a Rádio Jacobin para discutir a situação política e econômica por uma hora. Quando você lê as páginas dos jornais dedicados a esta questão ou escuta como todos os políticos estão se gabando sobre a baixa taxa de desemprego recorde, o aumento dos salários e a recuperação do mercado de ações, você pode ver que a confusão é predominante.

Ao mesmo tempo, nos Estados Unidos, a Reserva Federal (FED) parou de aumentar suas taxas de juros, os salários estão estagnados, a precariedade e a insegurança são a norma e os professores entraram em greve contra a política de subinvestimento dos estados e para salvar a educação pública.

Então, qual é a realidade? Vamos começar com a bolsa de valores. Dizer que existe uma volatilidade extrema é um enorme eufemismo, e a política de taxas de juro da FED é, ela mesma, muito volátil. Então, o que se passa?

Robert Brenner: Esta história não é muito bonita. Desde a grande recessão de 2008-2009 até agora, a FED tem mantido uma política de taxas de juro extremamente baixas – na verdade, taxas de juro que são zero ou abaixo de zero. Se forem considerados os aumentos de preços, a taxa de juros real tem sido nula ou até menos na maior parte do tempo.
As baixas taxas de juros têm sido a principal ferramenta do governo para restaurar a ordem nos mercados e estabilizar a economia após o colapso do mercado financeiro e a desaceleração econômica.
No passado, o senso comum mandava aumentar a procura diretamente, através do déficit orçamental, através de despesas públicas maciças. Mas estamos numa nova era em que isso já não é politicamente na moda.
Com o mesmo objetivo de estabilidade, a FED procedeu a um “quantitative easing” (flexibilização quantitativa), que o levou a comprar grandes quantidades de ativos financeiros para manter os seus preços e assim reduzir indiretamente o custo do crédito.
O resultado foi a criação de uma bolha de preços de ativos verdadeiramente insensata – de fato, bolhas de preços de ativos surgiram em todo o lado, desde obras de arte a matérias-primas, desde casas a mercados bolsistas. Tudo mundo sabe disso porque está nas manchetes há quase 10 anos.
O Índice Composto S&P subiu de seu recorde de baixa pós-crise de cerca de 1.000 em 2009 para seu recorde de alta de cerca de 2.900 em dezembro passado. Quase triplicou.
O resultado tem sido transformar praticamente qualquer um que tinha condições de investir em ações num investidor bem-sucedido, um génio das finanças. Conseguiram empréstimos a taxas ridiculamente baixas, garantidas pela FED, e deixaram o seu dinheiro neste mercado em alta. Nossos ouvintes já ouviram falar de tais pessoas, mas poucos estão entre eles.
Depois de quase uma década desta política concebida para tornar os ricos mais ricos, seja o que eles têm feito, a desculpa de estabilizar a economia esgotou-se. Especialmente porque o governo e a imprensa económica anunciavam cada vez mais alto que a taxa de desemprego tinha caído para um nível sem precedentes e que a economia estava registrando o pleno emprego, ou mesmo uma escassez de mão-de-obra.
Se assim fosse, eles concordaram, em breve haveria um rápido crescimento dos salários e, por sua vez, aumentos incontroláveis dos preços. Até agora, a estagnação dos salários face ao pleno emprego parecia ser um paradoxo misterioso. Por conseguinte, a FED foi submetida a uma enorme pressão para voltar à normalidade, a fim de evitar a inflação salarial antes que está se tornasse incontrolável.
A ascensão e a queda
Por conseguinte, a FED iniciou uma subida lenta, mas constante das taxas de juro. Ao mesmo tempo, começou a reverter sua política de flexibilização quantitativa, vendendo em vez de comprar ativos, o que reduziu ainda mais os preços dos ativos financeiros- Isto significava puxar para baixo o mercado de ações em vez de tirar para cima.
Em dezembro de 2018, após a FED ter anunciado que iria continuar esta política, os preços das ações caíram, mais do que em qualquer meses da nossa memória, se não da história. À medida que o mês avançava, as quedas diárias tornavam-se cada vez mais significativas e parecia que ocorreria um colapso.
Poderia a FED continuar a sua política de aperto monetário lento, mas sustenido? Essa era a pergunta que todos faziam. No final, a FED perdeu a coragem e pôs fim à sua política de subida gradual das taxas de juro e de venda de ativos financeiros. Tai! Houve outra reviravolta, e agora a bolsa de valores já quase compensou o seu recente colapso.

Suzi Weissman: Como isso é possível? Todos os observadores pensaram em dezembro que esta seria mais uma queda livre no mercado de ações e na economia, uma repetição de 2007-2008. Como podem as condições ter mudado tanto no decurso de um mês? Como é que explicamos este novo fracasso e porque é que estamos agora a falar de um novo boom?

Robert Brenner: Acho que há realmente dois aspectos intimamente relacionados. Primeiro, a FED e muitos outros acreditaram que a economia era muito mais forte do que realmente era.

Em particular, a FED e outros membros do governo acreditaram estar frente a um mercado de trabalho apertado. Com a taxa de desemprego oficial tão baixa, eles pensaram que o aumento dos salários e o aumento da inflação estavam prestes a explodir. Eles concluíram que precisavam aumentar as taxas de juros para interromper essa tendência antes que ela começasse.
Mas, na realidade, o mercado de trabalho é realmente muito mais fraco do que se pensa. Como resultado, quando a FED persiste em aumentar as taxas de juro face a uma economia realmente fraca, corre o risco de provocar um colapso e uma recessão.
Foi o que vimos recentemente: a FED a continua a apertar, a bolsa de valores entrou em baixa e, subitamente, a economia estava em sérios problemas, como se podia ver ao ler o Financial Times todos os dias.
Em segundo lugar, e ao mesmo tempo, a FED e outros acreditam que a recuperação recorde do mercado bolsista se baseia, em última análise, numa economia real forte. Mas, na realidade, a economia real tem sido incrivelmente fraca em todas as áreas – as principais tendências da economia têm sido muito ruins, sem precedentes na história.
O aumento do mercado de ações não se baseia em fundamentos sólidos; pelo contrário, baseia-se nas taxas de juros extremamente baixas da FED. Assim, quando a FED aumenta as taxas de juros, como tem feito, desestimula o mercado de ações, destruindo o pouco crescimento que a economia real tem sido capaz de proporcionar.
Em suma, o mercado de ações precisa da mesma política artificial de “economia bolha”, conhecida como bubblenomics, introduzida por Alan Greenspan na década de 1980, perseguida por seu sucessor Ben Bernanke, e que continua até hoje com Jerome Powell.
Um olhar mais atento sobre o emprego
E o mercado de trabalho? Ninguém pode negar o fato de termos visto a criação de emprego mês após mês. Isto conduziu-nos ao pleno emprego, pelo menos de acordo com os números governamentais, e supostamente a uma economia forte. Mas quais são as provas reais, qual é a situação atual do emprego e do mercado de trabalho?
De acordo com o Departamento do Trabalho e a FED, a taxa de desemprego está agora abaixo dos 4%, o que seria muito baixo… se a taxa de desemprego medida pelo governo hoje tivesse o mesmo significado que no passado. Uma taxa inferior a 4% indicaria uma economia extremamente forte, um mercado de trabalho apertado, e teríamos então de esperar aumentos salariais muito rápidos e a aceleração da inflação.
Mas qual é a realidade? A taxa de desemprego oficial mede a percentagem da população ativa que está desempregada. Mas o que o governo mede, o que considera ser a força de trabalho, inclui apenas aqueles que têm um emprego ou que o procuram. O ponto chave é que isto NÃO inclui as pessoas que deixaram de procurar trabalho porque ficaram desencorajadas e, portanto, já não estão na força de trabalho. Já não são considerados desempregados.
A taxa de participação da população ativa – a proporção da população total com idades compreendidas entre os 18 e os 64 anos que está empregada ou à procura de emprego – diminuiu acentuadamente quando a crise chegou. Esta taxa está ainda longe do seu nível de 2007.
Por outras palavras, a proporção de pessoas efetivamente empregadas na população potencialmente ativa está ainda longe de atingir o seu nível pré-crise. Esta percentagem era de cerca de 63% em 2007, mas agora, mesmo após tantos meses de criação de emprego, permanece entre 2% e 3% abaixo deste nível. Portanto, dificilmente se trata de pleno emprego, mesmo que pareça.
O fato de os salários ficarem estagnados não é, portanto, um paradoxo. A procura de emprego ainda não voltou ao que era em relação à oferta de emprego. O mercado de trabalho ainda não é muito apertado, então a pressão salarial não é muito elevada.
Além disso, e isto é igualmente importante – e muito grave -, não podemos simplesmente examinar apenas o número de pessoas contratadas, o número de empregos, temos de analisar o tipo de empregos que obtêm. E nossos auditores, como e certamente o caso, se defrontaram com o mercado de trabalho durante a última década, eles tiveram de aceitar empregos que que são muito piores do que antes da crise.
O fato de o salário de cada trabalhador ser inferior ao do seu emprego anterior torna ainda mais compreensível que não haja razões para acontecer aumentos salariais e inflação crescentes.
Ao seguir uma política tradicional de aumento das taxas em resposta ao que considera ser um mercado de trabalho forte, a FED operou com base numa falsa hipótese. Não surpreendentemente, isto acaba por perturbar os mercados financeiros e a economia subjacente.

Economia e a eleição de 2016

Suzi Weissman: Trump diz que “o estado da economia é forte”, mas os democratas não discordam. Eles simplesmente negam que o Trump é responsável por isso. Tanto os democratas como os republicanos estão querendo ficar com os louros. Estão ambos errados?

Robert Brenner: Este é realmente um ponto crucial, não só do ponto de vista econômico, mas também político. Estas afirmações de que a economia é forte não se sustenta, e não tem como se sustentar. Afinal, o que aconteceu em 2016?
Os conselheiros do Trump, Bannon e Mercer, muito a direita compreenderam que a economia era fraca, que as pessoas não conseguiam encontrar trabalho ou somente empregos desqualificados. Este foi o ponto de partida, na verdade a base, para a campanha presidencial alegadamente populista de Trump e sua vitória.
Não vou insistir – já o mencionei neste programa -, mas não posso deixar de gritar que a economia está enfraquecida há quase meio século e que está artificialmente inflacionada por bolhas, pelo forte aumento das bolsas de valores nos anos 90 e pela igualmente infeliz alta dos preços da habitação entre 2002 e 2007.
Primeiro: os salários, como a maioria de nós agora sabe, não são muito mais elevados do que eram no final da década de 1970. Toda uma geração viu uma estagnação dos salários e, desde a Grande Recessão, a situação piorou ainda mais.
Segundo: e quanto à acumulação de capital, ou seja, o investimento, o motor da economia capitalista? O período entre o final da Segunda Guerra Mundial e cerca de 1973 é conhecido como o boom do pós-guerra e foi, de fato, um período de forte expansão em todas as áreas. Mas esta expansão terminou nos anos 70. Desde a década de 1970, o crescimento das instalações e equipamentos do setor privado tem desacelerado constantemente, década após década, ciclo após ciclo, e atingiu seu ponto mais baixo no período que seguiu à Grande Recessão. Nos anos 90, o crescimento das fábricas e do equipamento já tinha sido reduzido para metade em comparação com o boom do pós-guerra.
Terceiro: a produtividade do trabalho, que os economistas observam com atenção, porque nos dá a melhor medida do que as pessoas podem pagar, dados os custos de produção. A elevada produtividade do trabalho aumenta os excedentes disponíveis para investir. Desde a década de 1970, o crescimento da produtividade do trabalho tem sido o mais baixo em um século. Comparando o crescimento da produtividade do trabalho dos anos 70 com o atual, verificamos que é significativamente mais baixo do que o do período 1920-1948, que incluiu a Grande Depressão.
Outra forma de ver a situação é que, entre 1973 e hoje, o crescimento da produtividade do trabalho estagnou em torno de 1,5% ao ano, deixando de lado os anos da bolha financeira, 1995-2007.

Preços das ações e lucros estagnados

Suzi Weissman: Como podemos explicar uma bolsa de valores em expansão, se o mercado de trabalho não está apertado e a economia real tem sido fraca?

Robert Brenner: Isto está em perfeita sintonia com tudo o que vimos sobre a economia. Observando o sector não financeiro – porque o sector financeiro não é um sector muito bom para compreender diretamente a noção de lucro -, no sector privado sem o sector financeiro, os lucros têm-se mantido relativamente estáveis ao longo dos últimos quatro ou cinco anos, e de fato desde 2012.
Em 2012, os lucros totais fora o setor financeiro atingiram US$ 1,5 trilhão e, em 2017, foram apenas US$ 1,6 trilhão. Eles flutuaram neste nível ao longo deste período. Então não houve quase nenhum aumento. Os lucros estagnaram enquanto os preços das ações subiram nas alturas, o que fez que os preços das ações perdessem completamente o contacto com os valores subjacentes das empresas que elas representam.
O famoso economista Robert Schiller mostrou nos seus cálculos que o rácio entre os preços das ações e os lucros é agora mais elevado do que em qualquer outro período da história, com excepção de dois anos interessantes: 1929, ano da grande queda da bolsa que conduziu à Grande Depressão, e 1999-2000, que conduziu imediatamente à famosa queda da alta tecnologia em 2000-2001.
O que impulsiona o mercado de ações e enriquece os super-ricos é a política de estímulo de bolhas da FED, que consiste em baixar a taxa de juros e comprar ativos financeiros, o que chamamos de flexibilização quantitativa. Mas esta política não conseguiu fazer avançar mais nada, especialmente a economia produtiva. Não surpreende, portanto, que a bolsa de valores tenha entrado em colapso assim que a FED deixou claro que estava determinado a apertar a sua política monetária, antes de se recuperar quando ela mudou de ideias.
Suzi Weissman: Como podemos explicar esta economia bizarramente fraca, em que os ricos se comportam como bandidos? Você tem dito muitas vezes que é por causa da demanda insuficiente, e que a demanda insuficiente é porque os capitalistas não estão investindo e contratando mais, porque eles não estão gastando mais dinheiro, porque, na verdade, eles ainda estão acumulando dinheiro. Para falar sobre essa questão de demanda insuficiente, você argumentou que a resposta é o problema da sobre-capacidade em escala mundial.
Robert Brenner: Vou começar pela fraqueza e depois falar sobre essa economia um pouco estranha que apareceu. Tem havido uma crescente concorrência global, impulsionada pela Alemanha, Japão e os países recentemente industrializados do Leste Asiático, os Tigres da Ásia Oriental e, especialmente, pela gigante China.
Cada nova vaga de fabricantes produz ainda mais barato do que aqueles que o precederam, porque cada um por sua vez tem uma força de trabalho cada vez mais barata, mas também pode imitar a tecnologia dos seus antecessores. O que tornou obsoleta, portanto, não só a economia americana, mas também a economia mundial, é que a produção industrial está aumenta por toda parte, mas sem referência ao mercado.
Isto significa que, em todo o lado, é cada vez mais difícil investir em novas instalações e equipamentos, contratar mão-de-obra, vender no mercado mundial e, assim, obter lucros. Esta evolução não se limitou aos Estados Unidos, à Europa e ao Japão, mas chegou à própria China, que sofre da mesma dificuldade de sobre-investimento que conduz ao excesso de capacidade.
A diminuição da taxa de lucro é a relação entre a sobre-capacidade e a procura em declínio ou insuficiente. Com baixa rentabilidade, as empresas têm menos excedentes para investir e menos incentivo para o fazer. Têm de reduzir os seus custos para se manter competitivas, logo exercem uma pressão de baixa sobre os salários. O governo as ajuda, reduzindo os serviços públicos, para que as taxas sobre as sociedades possam ser reduzidas.
Então temos ao mesmo tempo uma mais baixa procura por bens de equipamento (instalações e equipamentos), bens de consumo e serviços de utilidade pública- no final das contas uma diminuição da procura global, que é a causa imediata da recessão econômica.
Da mesma forma, as empresas descobriram, ao longo do tempo, que mesmo que pareçam ser capazes de obter lucros a curto prazo, dada a evolução da situação econômica global nas últimas décadas, é provável que tenham dificuldades a longo prazo, uma vez que um novo conjunto de produtores de baixo custo entrará no mercado, e isso as dissuadem de tocar projetos de investimento.
Os decisores políticos americanos enfrentaram este problema pela primeira vez na década de 1970, e o problema fugiu completamente de controle, como nunca tinham imaginado. Afinal, o setor manufatureiro americano foi o líder mundial e modelo mundial desde a Guerra Civil, e mais particularmente desde o início do século 20, dominando seus concorrentes até meados dos anos 60.
Mas então, de repente, tivemos esse processo de intensificação da concorrência, que resultou em uma queda na taxa de lucro. E lá, as autoridades governamentais não tinham resposta.
Os governos tentaram, por um lado, ajudar os produtores capitalistas reduzindo a taxa de câmbio do dólar, reduzindo o custo dos empréstimos e introduzindo medidas protecionistas. Ao mesmo tempo, voltaram-se para os gastos deficitários keynesianos. Mas, apesar dessa ajuda, tanto do lado da oferta (para reduzir o custo de produção na América) como do lado da procura, no final da década de 70, as taxas de lucro tinham ainda diminuído significativamente em até 50% na indústria.
Assim, quando chegamos à década de 1980, a desmoralização em todo o establishment liberal do pós-guerra, republicanos como democratas, era completa. A chamada síntese neoclássica-keynesiana falhou totalmente e eles não sabiam o que fazer.

O que tem de novo no neoliberalismo?

Suzi Weissman: Você descreve uma economia que parece estar em um impasse sem precedentes. Como está a classe capitalista?

Robert Brenner: Nesta situação sem precedentes – e você tem razão em falar de um impasse sem precedentes – os decisores políticos, os políticos, os capitalistas e os ricos procuraram algo de novo.

Eles finalmente encontraram algo novo que lhes permitiu transcender o impasse subjacente – embora a forma como isso aconteceu ainda não seja totalmente clara. Durante a década de 1980, surgiu um quadro completamente novo de economia política.
Quase todos notaram isso e chamaram esse novo quadro de “neoliberalismo” e eu acho que é um termo apropriado. Mas é enganador em alguns pontos fundamentais.
Em primeiro lugar, a maioria das pessoas fala de austeridade, de ataques incessantes aos trabalhadores, no centro do neoliberalismo. É compreensível, mas a austeridade e os ataques aos salários e condições de trabalho dos trabalhadores não são particularmente novos em resposta à queda dos lucros. Você não precisa de um novo sistema, neoliberalismo, para tê-lo. Todas as gerações capitalistas enfrentaram lucros decrescentes. Assim, a austeridade tem sido um facto central no nosso mundo, na nossa economia, ao longo deste período, mas não define um novo período.
Em segundo lugar, ao falar de neoliberalismo, as pessoas falam em libertar a economia de qualquer regulação ou controlo governamental essencial – de facto, abrindo todas as áreas possíveis para uma maior concorrência. Acho que esse é o aspecto mais importante.
Isto é particularmente evidente quando olhamos para a liberalização do comércio global e do investimento em nome da concorrência internacional. Chamamos-lhe globalização. Acho que vale a pena anotar isto como uma característica nova ou relativamente nova do período entre o final dos anos 70 e o início dos anos 80.
No entanto, existe um problema real em concentrarmo-nos simplesmente em mercados mais livres e no aumento da concorrência como sendo o cerne do neoliberalismo. Na minha opinião, um desenvolvimento ainda mais central no quadro da nova economia política é, num certo sentido, o oposto da liberalização do mercado e de uma concorrência mais intensa.
Uma política de redistribuição aos mais ricos
E a nova tendência da elite dos juristas do mundo financeiro, dos líderes de empresas não financeiras e líderes de partidos políticos, de garantir uma crescente redistribuição da riqueza a favor deles através de medidas políticas. O que é essencial aqui é o oposto da competitividade: é o acesso a privilégios especiais que geram riqueza diretamente, através da posição política ou de relações.
Temos. portanto, uma aliança que se forja entre as grandes corporações capitalistas, os muito ricos e os partidos políticos que controlam os governos, isso começou com casamentos de conveniência, mas rapidamente se tornou uma cadeia indestrutível. Trata-se de resolver este problema do baixo retorno do investimento – a dificuldade de obter lucros criando novas instalações e equipamentos com novos empregados, vendendo o produto no mercado e ganhando muito dinheiro.
Esta dificuldade, se quiserem, conduziu ao abandono deste processo de ganhar dinheiro – como o fizeram os avós dos atuais capitalistas – através de investimentos produtivos em explorações agrícolas, fábricas e escritórios. Em vez disso, temos toda uma série de novas instituições e políticas que permitem redistribuir a riqueza cada vez mais para cima, para o topo, para a camada superior da economia.
Desta forma, estas pessoas não têm que seguir os processos complexos e arriscados necessários para aumentar o tamanho do bolo e obter uma parte – fazendo lucros enquanto pagam os salários. Eles podem ir direto ao assunto e simplesmente impor que a riqueza seja devolvida a eles.
A chave aqui é a política, que permite a redistribuição da riqueza para o topo por vários meios políticos. Quais são os meios? Não temos tempo aqui para listar todos, mas os canais principais são muito familiares.
Primeiro, cortes nos impostos. Todas as administrações, republicanas ou democratas, desde Carter em diante, implementaram enormes reduções fiscais.
Em segundo lugar, à medida que os governos se financiavam cada vez mais através da contração de empréstimos, vimos os ricos fazer fortunas enormes simplesmente comprando dívida pública e cobrando juros sobre ela – uma forma quase infalível de ganhar dinheiro. Eles compram dívida pública e seus retornos são quase certos.
Em terceiro lugar, os governos deixaram de aplicar a legislação antimonopólio, o que teve um efeito particularmente “positivo” nos segmentos centrais da economia atual, nomeadamente os produtores de alta tecnologia. Trata-se essencialmente de uma nova forma de protecionismo – a aplicação dos chamados direitos de propriedade intelectual.
Graças ao reforço dos direitos de propriedade intelectual, as empresas podem, por exemplo, ver as suas inovações protegidas da concorrência durante muito mais tempo do que no passado, porque a duração das patentes foi estendida. É muito bom ser a Apple.
Em quarto lugar, há a privatização, que consiste simplesmente em entregar as atividades lideradas pelo governo – saúde, educação, pensões, etc. – e repassá-las aos capitalistas e aos ricos para que possam ter lucro privado.

A política de financeirização…

Por último – e terei de resumir aqui um longo debate -, temos o desenvolvimento do sector financeiro, que é, sem dúvida, a principal base da nova economia política, redistribuindo a riqueza aos de cima por meios políticos.

Temos aqui a clássica aliança política entre partidos políticos e empresas financeiras de todos os tipos. As empresas financeiras obtêm privilégios de políticos e partidos no governo. E dão dinheiro aos políticos e partidos para financiar as suas campanhas políticas e para tornar os líderes políticos mais elevados extremamente ricos.
Assim, em termos muito simples, os governos desregulamentam certas atividades financeiras para permitir que aqueles que entram primeiro façam superlucros, façam o seu melhor para proteger estas atividades a fim de limitar a concorrência. E então, quando as perdas inevitavelmente começam a se acumular, eles organizam resgates planejados.
Vou ter que encurtar esta história da financeirização, mas gostaria de abordar um aspecto chave deste aumento das finanças, que ilustra perfeitamente a nova economia política, fazer dinheiro através da redistribuição, politicamente estabelecida, da riqueza às cúpulas. Isso me permite falar novamente de um tema importante da primeira parte da nossa discussão.
Trata-se do que chamaremos de “bubblenomics” (economia da bolha): a virada da Reserva Federal para impulsionar o mercado de ações, mantendo as taxas de juros artificialmente baixas. Bubblenomics permite a criação mais rápida de “riqueza”. É claro que não é realmente riqueza, é papel, mas os acionistas investem nele e, por fim, ganham dinheiro e fazem uma fortuna muito mais rápida e limpa do que poderiam se tivessem que passar por todo o processo de investimento na produção.
Esta “economia da bolha” está no centro desta nova redistribuição da riqueza para os de cima e ajuda-nos a compreender mais claramente a política da FED em matéria de dinheiro fácil, que já referi anteriormente.
Então, como avaliamos o impacto dessa nova economia politicamente direcionada de redistribuição da riqueza para o topo? Temos agora os trabalhos decisivos de Piketty e Saez, que nos permitem chegar ao cerne do processo através da investigação sobre aquilo que chamam pessoas com rendimentos elevados.
Os seus resultados são agora bem conhecidos e extremamente reveladores. Durante o boom do pós-guerra, tivemos uma redução na desigualdade e as faixas de renda mais altas acumulavam uma renda muito limitada. Durante todo o período da década de 1940 até o final da década de 1970, o 1% mais rico dos empregados recebiam 9 a 10% da renda total, não mais. Mas no curto período desde 1980, essa quota-parte, a dos 1% mais ricos, aumentou para 25%, enquanto os 80% mais pobres quase não fizeram progressos.
Então, podemos ver o panorama geral. Por um lado, os capitalistas e os muito ricos não investem muito e não empregam muitos trabalhadores. Não é porque não o quisessem fazer, mas, ao contrário do período do grande boom do pós-guerra, não o podem fazer de forma rentável.
Há poucas oportunidades de se tornar rico investindo em instalações, hardware e software, e contratando novos funcionários, como fizeram seus avós. E então compreensível que tenhamos, por um lado, os níveis mais baixos de investimento, o pior desempenho em termos de produtividade e o menor crescimento salarial e, por outro, a subida dos mercados bolsistas.
Na minha opinião, não se poderia dizer mais claramente que o que torna os mais ricos e mais ricos é a soma dos favores obtidos e patrocinados pelos partidos políticos que controlam o governo.

…e a financeirização da política

Suzi Weissman: Então, como você acabou de dizer, a nova economia em que vivemos há décadas no fundo e literalmente política. A questão então é o que isso significa para a sociedade como um todo e não apenas para o 1%?

Robert Brenner: Penso que hoje vislumbramos claramente o resultado desta forma de ver as coisas – agora mesmo. Evidentemente, houve uma perda de interesse por parte da classe dominante, os ricos, as elites, em qualquer garantia governamental para as coisas que o Estado tem tradicionalmente fornecido ao capitalismo – e isso é bastante compreensível.
Classicamente, os capitalistas queriam – e o Estado fornecia – toda uma série de serviços que os capitalistas não podem facilmente fornecer. E a sociedade como um todo, especialmente a classe trabalhadora, tem assegurado que os capitalistas os recebam: fornecimento público de infraestrutura, apoio público à educação, apoio público à saúde e ao bem-estar.
A classe capitalista não é muito gentil, nem particularmente generosa, mas precisa desses serviços se quiser ter uma economia produtiva. Além disso, não só os capitalistas se beneficiam dela, mas também a população.
O caso da Coreia, onde estes serviços são prestados, não é uma coincidência. A Coreia é um dos poucos países que se mantém e depende de uma economia produtiva caracterizada pela fabricação.
Mas se os capitalistas, os ricos, as elites já não dependem de uma economia produtiva – se não ganham dinheiro, como antigamente, com investimentos rentáveis em capital e trabalho – não dependem do Estado para realizar a implementação tradicional destas funções.
O que temos visto é que os capitalistas, os ricos e os líderes políticos não só foram neutros, como pressionaram ativamente o Estado a abandonar estas funções. É porque não querem que o Estado “desperdice” seu dinheiro nessas funções, pela simples razão de que não querem pagar impostos para financiá-las.
Durante o boom do pós-guerra, tivemos investimentos governamentais bastante decentes em fábricas e equipamentos, bens de capital de todos os tipos. A construção da rede viária interestadual vem imediatamente à mente. Mas você também teve o crescimento impressionante da educação pública, incluindo as universidades.
Teve mesmo um aumento maciço, embora estritamente limitado, dos cuidados de saúde financiados por fundos públicos, por exemplo, com o Medicare. Os crescentes investimentos do governo tornaram todas estas coisas possíveis.
Mas a partir da década de 1970, quando a crise internacional de super-investimento que levou à sobrecapacidade começou a reduzir significativamente a taxa de lucro, esses investimentos governamentais iniciaram um longo processo de desaceleração. O montante do novo investimento deixou de ser proporcional à utilização e ao esgotamento dos ativos fixos estatais.
A idade das instalações e equipamentos públicos manteve-se, em média, cerca de 14 anos após o boom do pós-guerra – o que significa que o Estado manteve novos investimentos a um ritmo suficientemente rápido para compensar a depreciação. Mas a partir desse ponto, a idade do capital do governo aumentou de forma constante e agora tem uma média de 27 anos.

Colapso e resposta

O colapso do investimento público é óbvio para nós em todos os seus aspectos. Como todos sabem, isto conduziu a uma grave crise de infra-estruturas. Se atravessar uma ponte, corre o risco de cair num rio; os trens não só se atrasam regularmente, como também descarrilam.

As infra-estruturas de alta tecnologia, especialmente as telecomunicações, estão muito aquém das da Ásia, onde a velocidade da Internet e a qualidade dos celulares são muito superiores às nossas.
Depois, há os cuidados básicos de saúde, e não há muita necessidade de dizer aqui. O que é quase um direito no resto dos países capitalistas ainda é bastante controverso para a elite americana, inclusive entre os candidatos declarados do Partido Democrata nas próximas eleições.
Talvez mais importante, havia o consenso reacionário bipartidário sobre educação pública. Muito antes de Trump, graças aos Clintons, Bush e Obama, testemunhamos um sistemático desinvestimento bipartidário na educação pública, a proliferação de escolas privadas com financiamento público, a privatização e o ensino preocupado tão somente com os resultados dos testes..
Em Los Angeles, onde vivemos, há anos que a situação nos atinge, até à recente greve vitoriosa de professores em Los Angeles – isso faz-me chorar, é maravilhoso -, que faz parte de um aumento espetacular das lutas dos professores em todo o país, desde Chicago aos estados vermelhos (de maioria republicana) e agora à Califórnia.

Suzi Weissman: O que você diz tem implicações que são instigantes e até deprimentes. Mas o 1%, ou talvez 0,1%, os mais ricos conseguiram ficar impunes durante tanto tempo porque não houve resposta. O último estudo do Bureau of Labor Statistics mostra que acabamos de passar por um período com o menor número de greves na história. Mas, isso mudou ao longo do último ano, com as revoltas dos professores e do setor público continuando em um ritmo constante e não mostrando sinais de desaceleração. Então, o que significou tudo isto para nós, e especialmente nesta período do início do contra-ataque?

Robert Brenner: A mensagem não podia ser mais clara e realmente muito séria. Se as pessoas quiserem obter os serviços de que necessitam para terem uma vida digna – acesso à educação, aos cuidados de saúde, às infra-estruturas, à formação profissional ou a uma reforma digna – terão de lutar para os obter, para os impor a uma classe dirigente que absolutamente não os quer.
Os professores de Los Angeles mostraram o caminho em sua recente greve quando proclamaram que eles estavam lutando pelo bem comum e que eles só poderiam alcançá-lo através da luta contra os poderes, qualquer que sejam. Para a maioria das pessoas que ouvem este programa, isto significa que teremos que fazê-lo contra a vontade dos líderes políticos deste país, não só do Partido Republicano, mas também do Partido Democrata.
Os democratas têm seguido essas políticas destinadas a acelerar a distribuição da riqueza aos mais ricos por meios políticos, da mesma forma que os republicanos, senão de maneira mais rápida… e ainda nem sequer estão de acordo entre si sobre um sistema nacional de saúde.

Suzi Weissman: Então, qual é a conexão com o Green New Deal proposto por Alexandria Ocasio-Cortez, Bernie Sanders e tantos outros?
Robert Brenner: No passado, o governo apoiou a economia da forma mais conservadora possível, essencialmente subsidiando e assegurando os lucros das empresas privadas. O limite para isso é a dependência do que seus apoiadores chamam de política “keynesiana”, ou a chamada “síntese neoclássica-keynesiana”.
Isto também é chamado de gestão da procura ou despesas deficitárias. Isto significa que dispõem dos meios mais conservadores e baseados no mercado para apoiar a procura. Reduzem os impostos, o que significa que os déficits públicos estão aumentando e que esses déficits exercem uma pressão indiferenciada sobre a economia, que deveria estimulá-la de forma neutra, permitindo assim que a indústria mais promissora prospere.
Mas o que sabemos é que não vai funcionar hoje. Estimular a procura em geral não nos proporciona investimentos, quanto mais investimentos que estimulem outros. Como vimos, é muito difícil investir neste período, de forma rentável, neste ou noutro país.
Para se ter uma ideia, veja os cortes fiscais históricos de Trump, que criam déficits cada vez maiores e disponibilizam dinheiro gratuitamente para os capitalistas e os ricos, mas geram pouco ou nenhum investimento ou crescimento.
O que se entende por keynesianismo hoje não tem nenhuma chance de transformar a economia, que depende da criação de novas indústrias e dos regulamentos necessários para torná-la um New Deal Verde.
Portanto, o que precisamos – temos de prestar atenção às palavras aqui – não é realmente uma política keynesiana (no sentido comum da palavra). É uma intervenção direta do Estado.
Pense no New Deal, que, como sabemos agora, exigiu muito mais investimento governamental do que o esperado. E pensem – é lamentável, mas é um bom exemplo – no que aconteceu em tempos de guerra: apoio direcionado pelo Estado e supervisão dos investimentos, concebido imediatamente para produzir um resultado específico.
Por outras palavras, temos de agir contra a tendência natural da economia capitalista privada de hoje – e isto significa que temos de impor uma política estatal de investimentos que, de outra forma, nunca serão realizados.

Robert Brenner, Economista marxista, diretor do Centro de Teoria Social e História Contemporânea da Universidade da Califórnia em Los Angeles, é ativista do Solidariedade (organização simpática da Quarta Internacional nos Estados Unidos) e editor de revista Against the Current. Robert Brenner é mais conhecido pela sua contribuição para o debate sobre a transição do feudalismo para o capitalismo. Em um famoso artigo de 1976, Agrarian Class Structure and Economic Development in Pre-Industrial Europe, ele formulou o que ficou conhecido como a tese do Brenner. Para ele, a origem do capitalismo não está nem no desenvolvimento do comércio nem nos fatores demográficos, mas sim nas mudanças nas relações de trabalho na agricultura, mudando a estrutura de classes (de senhorios-serfs para senhorios-metaluristas- trabalhadores agrícolas) e criando um mercado fundiário e um mercado de trabalho. Desde então, publicou, entre outros, Merchants and revolution: commercial change, political conflict, and London’s overseas traders, 1550-1653 (1993), The Boom and the Bubble: the US in the world economy (2002), The Economics of Global Turbulence: the advanced capitalist economies from Long Boom to Long Downturn, 1945-2005 (2006), Property and Progress: the historical origins and social foundations of self-sustaining growth (2009).

Suzi Weissman, professora de ciência política no Saint Mary’s College of California e jornalista na Jacobin Radio, publicou Dissident dans la révolution: Victor Serge, une biographie politique (Syllepse, Paris 2006). Ela entrevistou Robert Brenner em 10 de fevereiro de 2019 para seu programa “Beneath the Surface” (abaixo da superfície):

Uma nova página para apoiar e construir novas alternativas na América Latina e no mundo, defendendo o poder dos trabalhadores e do povo contra o 1% dos ricos e poderosos, e uma sociedade sem exploração.

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