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Rebelião em Porto Rico: “É possível conseguir o que queremos, mas é preciso continuar mobilizando”

Porto Rico vive dias históricos em 2019. Mensagens preconceituosas trocadas entre o então governador Ricardo Rosselló e seus assessores vieram à tona, desencadeando duas semanas de protestos massivos que culminaram na renúncia do mandatário. Para compreender o quadro social mais profundo onde se inserem estas semanas que abalaram Porto Rico, Giulia Tadini (dirigente do Movimento Esquerda Socialista/PSOL) entrevistou Leoni e Gigi Salinas, intercambistas porto-riquenhas que militam no Novo Partido Anticapitalista (NPA) francês, durante a realização do Acampamento das Juventudes Revolucionárias da IV Internacional no último mês de julho, no calor das mobilizações na ilha caribenha. Confira abaixo a transcrição desta entrevista:

 

GIULIA TADINI | Como se sentem, como porto-riquenhas, depois da enorme vitória da mobilização popular?

LEONI SALINAS | Foram muitos os sentimentos durante todo este processo. Quando ocorreu o vazamento do chat do ex-governador Ricky Rosselló, o sentimento foi de muita tristeza e indignação com o conteúdo das mensagens e de como este partido [Partido Novo Progressista] se envolveu com a grave corrupção no país, de como este partido falava sobre os desvios das ajudas humanitárias após a catástrofe do furacão María. Naquele chat também se podiam encontrar comentários machistas, homofóbicos e transfóbicos. Havia também piadas com os cadáveres deixados pelo furacão María. É importante notar que foi muito invisibilizado o número de mortos dessa catástrofe. As autoridades falavam em centenas de mortos, quando na verdade o número chegou a três mil vítimas fatais. Assim, uma vez reveladas todas estas informações, eu senti um enorme golpe de indignação e tristeza, e não apenas eu senti isso, mas pude constatar junto a outros porto-riquenhos um sentimento semelhante. Por outro, o vazamento foi a faísca que a população necessitava para despertar e reunir suas forças. Portanto, se por um lado o sentimento foi de tristeza e indignação, por outro lado me sinto orgulhosa e imensamente feliz ao ver como em tão pouco tempo, num período de 12 ou 13 dias, o povo saiu às ruas desde o primeiro momento, atendendo às primeiras convocatórias. E com o passar dos dias, o número de gente nos protestos foi aumentando. Personalidades conhecidas e muito populares também saíram às ruas de Porto Rico. Todos os segmentos sociais, até os mais despolitizados, saíram de casa e foram para as marchas, porque se deram conta que não se tratava de uma manifestação de um pequeno grupo de pessoas que a todo momento está na rua ou de um setor mais politizado. Percebeu-se que era um problema que afetava a todo mundo e que todo mundo deveria estar nas ruas para responder a este problema. Na verdade, me sinto como se estivesse vivendo um sonho, onde quase 1 milhão de pessoas se mobilizaram em 22 de julho, algo que, por mais esperanças que eu tivesse, me tomou de surpresa.

Agora, convivendo com estas diversas emoções, estou com muita vontade de fazer o que puder desde aqui. E desejo que meus companheiros e companheiras lá em Porto Rico continuem se mobilizando e continuem nesta rota. É histórico o que estão fazendo, pois não há nenhum precedente parecido por lá. Além disso, é importante notar as novas maneiras de protestas que estamos conhecendo.

GT | E como estão os movimentos sociais em Porto Rico atualmente? Nos descreva, por favor, também a situação dos movimentos de juventude porto-riquenhos.

LS | Os movimentos sociais em Porto Rico, depois da passagem do furacão María, se empoderaram bastante. O que se viu foi o surgimento de muitos grupos de autogestão social com o objetivo de mobilizar as ajudas para toda a ilha. Vale lembrar que Porto Rico esteve, mais ou menos, uma semana sem receber qualquer ajuda dos EUA. A partir de então, os porto-riquenhos começaram a perceber que era necessário se mobilizar para se proteger uns aos outros, uma comunidade a outra. Eu acredito que isso tem a ver com o que ocorre agora. O povo porto-riquenho, após a passagem do furacão María, começou a notar o poder que possuía. Assim, existe uma linha de continuidade entre esta solidariedade entre porto-riquenhos e as mobilizações dos últimos dias. O movimento feminista, por exemplo, esteve muito engajado durante o estado de emergência, por conta da violência machista e dos feminicídios. Da mesma forma, o movimento LGBT.

GIGI SALINAS | É importante destacar também o papel dos coletivos estudantis, secundaristas, primários e universitários de toda a ilha no processo posterior ao furacão Maria. Refeitórios comunitários foram organizados. Um coletivo feminista em construção ocupou um edifício e distribuiu mantimentos para a comunidade necessitada.

LS | Muito bem lembrado! Houve alguns edifícios em que isso ocorreu. Foi um movimento que surgiu puramente da solidariedade e da necessidade, face à falta de acesso a mantimentos e à falta de visibilidade desta situação tão crítica. O movimento estudantil universitário sempre esteve envolvido com muitas lutas desde o furacão María até os movimentos feministas. Tudo com uma visão muito anticolonial.

GT | Como vocês pensam que este movimento pela renúncia do governador se relaciona com o movimento independentista de Porto Rico?

LS | Esta é uma pergunta muito interessante. As manifestações recentes começaram com as pessoas que sempre estiveram nas ruas protestando e, com o passar do tempo, foram ganhando mais gente. Estas manifestações criaram rapidamente espaços de politização da sociedade. Vários eixos articularam as convocatórias, mostrando para a população que é possível, sim, mudar as coisas com mobilização.

O fato de o governo ser corrupto ajudou bastante a mobilizar, mas há também uma força muito poderosa que está em cima, a Junta de Controle Fiscal. A luta contra esta Junta pode impulsionar a continuidade destas mobilizações.

Há dois partidos que defendem o independentismo. Um mais antigo, o Partido Independentista, cujo discurso teve força e bastante audiência entre os anos 1950s e 1970s. Perdeu força por conta de ações repressivas dos EUA contra seus militantes e simpatizantes. E há uma partido mais novo, criado há dois meses, o Partido da Vitória Cidadã, um partido amplo que agrega desde setores do independentismo até o soberanismo.

Assim, creio que as pessoas que foram às ruas com a proposta sólida de derrubar o governador Rosselló continuarão se politizando até fazer o mesmo com a Junta. O que esperamos é que continuem tomando as ruas para que esta exigência também seja escutada.

GT | Quais serão as próximas ações dos movimentos em Porto Rico? O que as pessoas estão reivindicando nas ruas?

LS | As pessoas que estão se manifestando e reorganizando o povo na rua desde a renúncia de Ricardo Rosselló, também estão contra a Conselho Fiscal, já que é importante levar essa luta a outro nível para poder politizar as pessoas dizendo que não basta que renuncie Ricky Rosselló, porque quem vir no seu lugar vai ser a mesma coisa, não há nenhuma diferença. Em Porto Rico existe um bipartidarismo tão forte que realmente não há diferença se é um partido ou o outro. A questão é poder tirar do poder o Conselho Fiscal e aproveitar que existe uma politização, mostrar a necessidade da luta por independência. É dizer, não basta tirar Ricky Rosselló, é preciso avançar, tirar o Conselho Fiscal e logo necessitamos da independência.

O que vi é que ontem houve uma manifestação e as convocatórias das mobilizações e greves vão continuar e também outra coisa que é muito importante e que também se está pedindo é que o estado de emergência, contra a violência machista e feminicídio, se cumpra. E também uma auditoria da dívida que não seja através dos Estados Unidos, mas sim dos porto-riquenhos. Uma maneira de se fazer isso é através das universidades. Bom, essa é a linha que querem tomar, não parar com as manifestações, continuar porque ainda há muito que ganhar. Já conquistamos terreno e as pessoas se deram conta de que se mobilizar é possível conseguir o que querem, mas é preciso continuar.

GT | Pelo que você falou anteriormente, também existe muito desgaste da pessoa que está substituindo o governador. A secretária de justiça também é alguém que o povo quer a renúncia? Ou a principal pauta das mobilizações é acabar com o controle fiscal, independente de a secretária da justiça ficar ou não no cargo?

LS | Sim, essa pessoa, Wanda Vásquez, tomar a posição de governadora não muda nada, poderia ser ela ou qualquer outra pessoa do PNP, o problema vai mais além. É preciso atacar o Conselho Fiscal porque é o que limita os poderes dos porto-riquenhos para terem seu próprio governo. Depois do Conselho Fiscal o outro grande problema é a questão que não temos independência, somos uma colônia dos Estados Unidos. Então acredito que desta maneira tem mais possibilidade de tomar as ruas pensando que podemos ganhar a independência. Porque tem muita gente que não é tão politizada, são os setores mais precarizados que não acreditam que podem sair desse problema, não pensam que a independência pode ser a solução. Eles têm medo de não poder trazer um prato de comida pras suas casas, ou de perder o emprego e uma mudança tão abrupta em uma situação tão precária que eles já vivem dá ainda mais medo. Agora, eu tenho esperança que sim se impulsione o movimento independentista, que as pessoas comecem a se questionar, que não vale somente a renúncia de Rosselló, mas que há outras coisas que conquistar.

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