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Crônicas catalãs / 18-O: A sentença aberta acelera a crise do regime de 78

As cinco marchas que acabaram ontem em Barcelona voltaram a marcar um feito histórico de mobilização do povo catalão. 750 000 pessoas, segundo os organizadores, 550 000 segundo a guarda urbana. Mas, além disso, nas capitais de província e outras cidades catalãs se mobilizavam ao mesmo tempo outras dezenas de milhares; 60 mil em Girona; 30 mil em Lleida; 10 mil em Tarragona e também em mais cidades.

As marchas “pela liberdade” confluíram na sexta-feira com a greve geral convocada por dois sindicatos independentistas, CSC e IAC. A greve teve uma adesão notável em setores como a educação, a administração pública, o transporte, os serviços, ainda que muito menos na indústria. Entretanto conseguiu parar a principal fábrica do país, a fabricante de automóveis SEAT-VOLKSWAGEN, algo que ninguém, nem os próprios sindicatos convocantes, esperavam. Mas a proposta de não trabalhar surgiu da empresa e foi consensuada com os sindicatos UGT e CCOO (majoritários), ante a evidência de que não chegariam as matérias primas nem os trabalhadores ante os bloqueios de estrada que estavam ocorrendo. A mobilização passou por cima de CCOO e UGT, os dois principais sindicatos. Para fazer uma profunda reflexão.

Fraternidade e organização republicana

O transcurso das marchas foi um encontro de fraternidade republicana. Cada povo ia somando sua própria gente, conforme passava por seu trevo de estrada, rodovia ou autopista. Aplausos. Recepções com canções e consignas. Gritos de alegria. Músicos que tocavam canções populares conhecidas e que eram cantadas pelos participantes. As marchas foram uma expressão de liberdade, de felicidade, de orgulho, de reencontro do povo consigo mesmo. Conversas durante o caminho, confraternização. Para além das classes sociais, havia um objetivo comum e transversal: a rejeição da sentença infame, vingativa, de ódio ao independentismo e a algumas ideias, que recaiu em nove pessoas condenadas a mais de cem anos de prisão.

Na noite anterior as cidades que acolheram as pessoas que caminhavam há dois dias, organizaram todo o aprovisionamento como o maior catering profissional já visto. Na marcha que eu participei, na cidade de Martorell, dormiram 1500 num pavilhão habilitado pelo Ayuntamiento. Mesas, cadeiras, comida, lugar para dormir. Centenas de voluntários estiveram trabalhando para ter tudo pronto e também para resolver o imprevisto. Durante o caminho e na chegada à cidade Barcelona havia equipes médicas, provedores de água, curativos para os pés, etc. Organização, planificação, esperança. Uma auto-organização e fraternidade que anunciam um novo tipo de regime social e político que querem os catalães.

As marchas mostraram a capacidade do povo catalão de sobrepôr-se e organizar-se ante uma dura e injusta sentença que trata de ofender a todo um povo. Mas mostraram algo mais: que a resistência e a luta vão além dos independentistas. Que são “um só povo”. De fato, esta sentença fez reviver o “espírito de 3 de outubro” de 2017, o dia em que saíram numa “greve de país” centenas de milhares a expressar sua indignação pelas brutais cargas policiais de 1 de outubro.

Els carrers serán sempre nostres (as ruas serão sempre nossas)

Dois anos depois, a sentença de vingança. Além disso, declarações de todos os líderes dos partidos do regime ameaçando a autoridades e o povo catalão com a aplicação de novos castigos e constrangimentos, caso não a aceitam. A baixaria e o ódio ao povo catalão tiveram uma resposta massiva, valente, contundente, nas ruas. “Els carrers serán sempre nostres” era ouvida por todos os cantos e por toda a gente, meninos, jovens, mulheres e homens. O que fez esta sentença a nível do povo é uni-lo, determiná-lo ainda mais a “acabar o que começamos em 1 de outubro”, ou seja, a autodeterminação, a república. Muitas estradas da Catalunha seguem cortadas. A ideia de independência vai ganhando novas camadas sociais.

Fora les forces d’ocupació (fora as forças de ocupação)

Mas frente a esta vontade pacífica de buscar uma solução pacífica e negociada, de buscar um diálogo abandonando a via judicial, o regime e seus partidos se empenham na via repressiva. A polícia nacional (espanhola) carregou duramente nestes dias contra jovens que a molestavam. Começou na ação do aeroporto, tirando balas de borracha proibidas na Catalunha, arrebentando um olho a um jovem e com feridos. E continuou seguindo, incrementando a tensão com atuações vis, atacando jovens, pessoas mais velhas, agredindo sem motivos, atacando jornalistas por exercer seu trabalho informativo. Tão é assim que diversas organizações de Direitos Humanos e outras chamaram à ordem a deter essas práticas, como Anistia Internacional ou o Colégio de Jornalistas.

Os jovens se somaram a esta mobilização com um espírito de revolta. São os mesmos que viram como entrava a polícia em seus colégios, destroçava portas e janelas, atirava ao solo a seus pais ou avós, disparava. São os que sabem que quando acabarem os estudos, a universidade ou já sem trabalho, não têm futuro. E a sentença contra políticos que lhes chamavam a responder pacificamente lhes indignou muitíssimo. Somente bastaram as provocações da polícia, a nacional e a dos Mossos, “para manter a ordem”. O que diz o povo, os jovens, é: “tudo estava em paz até que chegou a polícia”. Por isso hoje o grito unânime da manifestação na Praça Urquinaona, frente à delegacia de Polícia Nacional foi: “fora as forças de ocupação!”. Dias atrás o Parlament aprovava uma resolução pedindo a retirada do corpo de guarda civil. Agora a rua exige que se vá também o da polícia nacional. Se continua a pressão popular, terão que ir embora. Nestes momentos (22h), uma manifestação segue gritando do quartel da polícia nacional “que se vayan”.

Buch dimissió (Buch- conselheiro de interior-, demita-se!)

A repressão não vem só desses corpos policiais da Espanha, dedicados inicialmente somente a defender alguns edifícios e serviços do Estado, como Governo Civil, aeroportos, fronteiras. O corpo policial próprio, os Mossos, que é a instituição que tem as prerrogativas de ordem pública, está também na alça de mira. Sua atuação nestes dias mostrou que a “perfeita coordenação entre todos os corpos policiais sob o mando dos Mossos”, na realidade é a proteção aos desmandos da polícia nacional e aos próprios. Nada de “proporcionalidade”.

A Generalitat está presa entre a espada e a parede: ou aplica as diretrizes que vêm de Madri e obriga a “acatar a sentença” ou levanta a ameaça de substituir o comando dos Mossos por comandos policiais espanhóis. No fundo a Generalitat atua há dois anos como se o artigo 155 ainda estivesse vigente. Daí que as bandeiras “independentistas” de Torra não recebem nenhuma credibilidade, e cresce a indignação frente a paralisia de um Govern que se submete a cada dia nos fatos aos tribunais espanhóis, às políticas neoliberais que castigam ao povo mais empobrecido e não toma nenhuma iniciativa.

Gabinetes de crise

A situação da Catalunha provocou a criação de gabinetes de crise tanto no governo catalão como no espanhol. Dia após dia se reúnem para ver qual é a situação das ruas em Barcelona e outras capitais. Até mesmo duas vezes. Em Madri, Pedro Sánchez prepara com o PP e Ciudadanos uma resposta repressiva (o ministro do Interior fala na aplicação de penas de 6 anos aos “independentistas violentos”). Mas se faz isso, somente aumentará a tensão e as batalhas com a polícia. Não lhes passa pela cabeça nunca uma solução política. O chefe de Govern catalão, Torra, pediu desesperadamente uma reunião urgente com Sánchez, mas este não lhe atende o telefone.

A juventude que participa nos enfrentamentos são ainda uma minoria. Há policiais infiltrados, mas há muitos mais que não o são, alguns menores. Os feridos destas altercações já são muitos, há 18 hospitalizados, três perderam um olho e um encontra-se em estado muito grave. Mas os jovens não têm medo pelos motivos que já explicamos. Não são “estrangeiros”, nem sequer antissistema, há os que são independentistas e há os que não são. O Ministro do Interior espanhol e o Conselheiro dos Mossos se dedicam agora em uníssono a enganar e tergiversar a opinião pública. A maioria dos jovens têm uma profunda indignação pela injustiça. Isso importa a todo mundo, aos que participam pacificamente nas marchas e os que enfrentam a polícia. “Ja n’hi prou!”, já é suficiente.

O que começa a estar em questão é um regime que já está em sua fase final. Os últimos soluços de todo regime caduco costumam ser muito repressivos, mas também são os que acabam de decantar o povo que até então estava em dúvidas se deveria se somar ou não. A juventude é a chama das revoluções.

Uma nova página para apoiar e construir novas alternativas na América Latina e no mundo, defendendo o poder dos trabalhadores e do povo contra o 1% dos ricos e poderosos, e uma sociedade sem exploração.

Secretaria de redação

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