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Boletim Especial América Latina – 21/12

Insurreições, greves e levantes na América Latina – Uma nova situação

Este “Boletim Especial: América Latina” conta com relatos militantes e extrai conclusões sobre os países que mudaram a situação do continente. O afã contido neste Boletim é tirar conclusões para podermos encarar a nova situação e intervir nela.

Precisamos começar dizendo que os acontecimentos em nosso continente se inscrevem num marco mundial que está mudando. O mundo se move e se tensiona com contradições. Por isso, não podemos deixar de lado o que passa na Europa, tanto na França como na Inglaterra. Uma vez mais, a França (toujours la France…) mostra que sua forte classe trabalhadora tem não só instinto para defender suas conquistas históricas mas também consciência de classe para enfrentar a pesada reforma da previdência de Macron. Há alguns dias, para provar sua força, os trabalhadores do serviço de energia começaram a fazer cortes seletivos de luz.

Cruzando o canal da Mancha, o laborismo que havia sido recriado sob a liderança de Corbyn, sofreu uma derrota eleitoral grave. Não se pode negar o peso dos meios de difusão em mãos da classe dominante. Como aconteceu em 89 (eleição de Lula vs Collor), o establishment sabe jogar suas cartas ante o perigo de um giro político contra os grandes capitalistas. Ainda que não só as dificuldades de ganhar no terreno das eleições burguesas explicam a derrota. A nova ala de esquerda do partido que não pôde superar com sua política a contradição posta pelo Brexit sustentado pela direita e envelhecidos setores de trabalhadores com temor a seguir perdendo os pontos de trabalho. Não pôde defender seu progressivo plano econômico em defesa da necessidade de postular uma Nova União Europeia igualitária como na outra orelha defendem os trabalhadores franceses rejeitando o projeto ultradireitista do Brexit. Este é o marco de uma nova situação mundial onde seguramente também se abre o caminho para que apareçam novas direções.

 

A mudança da correlação de forças em nosso continente.

Aqui o neoliberalismo e os autoritarismos sofreram fortes golpes. Se fizemos uma retrospectiva desde 2018, tivemos uma insurreição fortemente reprimida pela família Ortega na Nicarágua, os levantes do Haiti, Porto Rico, as greves na América Central, na Colômbia que detonou com as grandes mobilizações estudantis que levaram até a maior greve geral dos últimos tempos. A derrota do plano keikofujimorista no Peru, a insurreição indígena do Equador, a insurreição chilena e o golpe na Bolívia duramente resistido pelos indígenas e o povo.

A insurreição chilena é o fato mais importante. É chamada por seus protagonistas como a revolução antineoliberal, e é verdade, no país que mais avançou com Pinochet e seus continuadores nesta fase do capitalismo, deixou ferido de morte este modelo e o continuísmo de Piñera, presidente que já é um cadáver político e que conta com 4% de aprovação nas pesquisas.

Todos os acontecimentos e as conclusões estão nos textos de Bruno e Bernardo. Aqui queremos ressaltar algumas das lições do processo em curso e como enfrentar os próximos passos.

No Chile, a esquerda renovada surgida das mobilizações estudantis (2006-11) que se organizou na Frente Ampla mostrou que não estava à altura da situação. Revolução Democrática e Convergência Social acreditaram num acordo parlamentar como solução positiva ao levante popular e fizeram parte do pacto. E os resultados não foram bons nem bem vistos pelo movimento de massas. Terminaram sendo uma saída para salvar Piñera de sua iminente queda. Sucumbiram à institucionalidade burguesa.

Apesar disso, o movimento segue e a vanguarda tem condições de organizar-se ao redor de um novo eixo para plebiscito onde os setores que não sucumbiram (ou se autocriticam por ter feito isso) possa apresentar uma proposta comum com peso nas massas da Assembleia Constituinte com poder que liquide o velho regime herdado do pinochetismo e rompa com o neoliberalismo.

Equador. Se comparamos a atitude parlamentares de setores da esquerda chilena com o Equador, a diferença é que ante a repressão e o banho de sangue provocado pela repressão do exército de Lenín Moreno, a CONAIE não se resignou, manteve a mobilização e para pactuar fez uma negociação pública transmitida na cadeia de TV para toda a nação. Posteriormente, levantou um programa de reformas estruturais para o país que é um bom exemplo para todos os latino-americanos.

Bolívia indígena resiste. Neste país, diferentemente da Venezuela e do Chile, as massas indígenas conquistaram o Estado plurinacional. Com Evo, havia uma boa administração com maioria indígena onde o estado distribuía a renda da mineração e do gás com concessões econômicas aos trabalhadores e os camponeses. A burguesia reacionária e fascista do Sul, onde se implantaram os sojeiros brasileiros em contato com o protofascismo bolsonarista se aproveitou de debilidades de Evo para golpear e avançar numa contrarrevolução violenta e sangrenta. O fascista Camacho chegou a entrar na casa de governo com a cruz e a bíblia; os alvos reacionários queimaram a whipala. A partir daí se abriu outro capítulo da resistência dos trabalhadores do altiplano e do povo indígena -como o fez historicamente em suas várias revoluções – marchou sobre La Paz. Os indígenas foram contidos com o massacre mas não puderam dobrar a resistência. Daí surgiu o acordo com o MAS (maioria no Parlamento) de novas eleições. Houve uma contrarrevolução que não pôde triunfar em toda a linha e impor uma derrota histórica, contrarrevolucionária, ao movimento de massas.

E agora? Os progressismos (os velhos e os novos) mostraram sua fraqueza para dirigir as massas nos momentos cruciais desta nova história latino-americana. A direita aprendeu das insurreições do início dos anos 2000 e golpeou forte. Não tivemos ainda triunfos contundentes. Mas se aprendeu muita coisa, aprenderam as massas e a vanguarda. Como explicamos em diversos artigos, os chamados genericamente “progressismos” conciliaram. Uma lição importante para aqueles que no PSOL e outras organizações, acreditam que o curso autoritário é inelutável e que a única forma de pará-lo é transformar a tática da frente única numa estratégia. No caso do Brasil, com o PT. Sempre se justificam pactos ou derrotas jogando a culpa nas massas que, segundo eles, não tinham força. A realidade é muito diferente disso.

Quem se fortaleceu junto às massas foram aqueles que acreditamos na mobilização por cima das táticas parlamentares e institucionais. As massas latino-americanas estão impulsionando consigna fundamentais contra os regimes neoliberais, como a “Assembleia Constituinte Soberana e com Poder” que se tornou crucial nesse período e que une a luta democrática à luta contra o capitalismo neoliberal.

Os desafios são grandes, somos frágeis mas temos que enfrentá-los. Desde a revolução cubana se tentou reagrupar os lutadores anti-imperialistas latino-americanos; Fidel e Che construíram a OLAS e a Tricontinental. Sempre se procurou uma aliança ou agrupamento para lutar contra o imperialismo. A ALBA e os movimentos bolivarianos foram a tentativa mais aproximada sabotada pelo petismo desde o Foro de São Paulo.

Agora não temos um país que seja um guia mas temos uma poderosa nova vanguarda radical, cujo pilar são as mulheres e a juventude. E a realidade indica que é necessário tentar agrupar-se. Será difícil elaborar programa ou organização nacional se não há uma colaboração política e solidária entre estes novos processos. Esse é o caminho para aprender com as lições do Chile, da Bolívia e e até do processo eleitoral argentino que deveria facilitar o diálogo da esquerda com o movimento de massas.

Para enfrentar estas situações, não basta a proclamação delimitar posições ou fazer uma autoproclamação dos princípios reacionários e pretender impor (coisa impossível) um programa acabado. Temos que estabelecer pontes novas com duas mãos.

Uma delas é para que possam transitar para as posições marxistas (nutridas na história) os jovens radicalizados, as mulheres e todos os setores combativos. Tem que ser uma mão onde esta vanguarda veja a necessidade de transitar por ela. E a outra via ou mão é para o caminho que temos que fazermos nós para aprender desses processos. Há também que fazer esta ponte de duas vias para os EUA onde camadas de jovens socialistas surgem como fôlego apoiando Sanders novamente. Temos pela primeira vez depois de bastante tempo um novo processo no país imperialista.

Ajudar estas tarefas é o que queremos desde o MES, o Portal da Esquerda em Movimento e todas organizações que têm a IV Internacional como referência.

 

Pedro Fuentes/Equipe de Redação do Portal da Esquerda em Movimento


REVOLTA POPULAR NO CHILE

Lições do levante chileno | por Bruno Magalhães

Para que estas mudanças se materializem é vital que haja uma grande convergência política entre todos os setores que hoje combatem o neoliberalismo de forma consequente. As assembleias de bairro tem um papel fundamental nessa disputa porque representam um dos elementos mais avançados e devem ter papel protagonista na formação de um novo bloco político que consiga dialogar com as verdadeiras aspirações das ruas. Junto ao sindicalismo independente e a vanguarda dos estudantes, as assembleias tem o potencial de representar um polo catalisador das diversas pautas representadas nestas jornadas de enfrentamento.

Golpe na Bolívia

Golpe cívico, policial e militar | por Hugo Scotte

Não é casual que o governo golpista, a justiça cúmplice e as direitas tentem desmoralizar, aprisionar e deixar fora das eleições Evo e os quadros mais importantes do MAS-IPSP. A saída para as classes dominantes é um regime de “democracia tutelada” pelas forças armadas, custodiada pelos extremistas paramilitares de direita, justificada ideologicamente pelas igrejas evangélicas e subordinada aos interesses do imperialismo ianque.

Balanço de 1 ano de governo Bolsonaro

O primeiro ano de Bolsonaro: autoritarismo e ultraliberalismo em meio à polarização | por Thiago Aguiar e Israel Dutra

Nosso desafio é construir o PSOL – que, em 2020, realizará seu VIII Congresso – como um partido enraizado nas favelas, nas lutas dos trabalhadores pobres do campo e da cidade, da juventude, que consiga fomentar a unidade para derrotar Bolsonaro, mas se postular como uma alternativa independente para o futuro.

Eleições no Reino Unido

Por que Corbyn perdeu? Um post-mortem sobre as eleições inglesas | por Slavoj Zizek

Veja, nós devemos, é claro, apoiar plenamente o Partido Trabalhista no Reino Unido, os socialistas democráticos nos EUA e por aí vai. Se ficarmos apenas esperando o momento certo para realizar uma transformação radical, esse momento jamais chegará. É de fato preciso começar a partir do lugar em que estamos. Mas devemos fazer isso sem ilusões, plenamente cientes de que nosso futuro demandará muito mais do que jogos eleitorais e medidas social-democratas. Estamos no início de uma perigosa jornada que definirá a nossa sobrevivência.

Greve na França

Macron enfrenta greves e mobilizações de massas | por Leon Cremieux

Macron fez desta reforma um objetivo político que, apesar da ampla rejeição popular de que continua a sofrer, abre o caminho para a sua reeleição em 2022, parecendo ser o melhor governante da direita, os patrões e as classes burguesas, fechando permanentemente no tradicional partido de direita (Les Républicains), cujo espaço ocupa agora.

Catalunha

A Justiça Europeia obriga o reconhecimento como europarlamentares de Junqueras, Puigdemont e Comín… E agora? | por Alfons Bech

A derrota do estado franquista que sobrevive no seio da monarquia de Felipe VI está mais próxima. Entretanto, oferecerá ainda resistência. E ante os olhos de mais cidadãos da Catalunha, do Estado Espanhol, da Europa e do mundo, a imagem de um regime cujo esqueleto se baseia nos mesmos ossos da ditadura, aparece cada vez mais clara. A Espanha não é uma democracia sequer homologável para as desgastadas democracias europeias.

Eleições em Hong Kong 

Defendendo a autonomia de Hong Kong: uma vitória parcial | por Au Loong-Yu

A vitória esmagadora do campo da oposição nas eleições distritais locais de Hong Kong, a 24 de Novembro, pode ser considerada como um referendo tanto sobre o governo de Hong Kong como sobre Pequim. A voz do povo é um claro e forte “não” contra as políticas de linha dura do establishment.

Líbano

O povo quer o fim do regime | por Joseph Daher 

As exigências do movimento de protesto popular por justiça social e redistribuição econômica não podem ser dissociadas de sua oposição ao sistema político confessional, que garante os privilégios dos ricos e poderosos. Os partidos religiosos dominantes e as várias frações da burguesia exploraram os processos de privatização, políticas neoliberais e controle ministerial para construir e desenvolver suas redes de clientelismo, nepotismo e corrupção, enquanto a maioria da população, libanesa e estrangeira, sofria da pobreza e da falta de dignidade.

 

Levante global

Um levante global contra o capitalismo neoliberal-autoritário? | por Julien Salingue

Iraque, Chile, Equador, Líbano, Catalunha, Porto Rico, Sudão, Colômbia, Hong Kong, Nicarágua, Argélia, Haiti, Irã… É cada vez mais difícil estabelecer uma lista exaustiva dos países que foram ou são palco, durante várias semanas ou meses, de revoltas populares que desafiam diretamente os regimes em vigor e os fazem vacilar ou mesmo cair. A questão que inevitavelmente se coloca é a das possíveis ligações entre estas mobilizações: trata-se de uma justaposição de movimentos nacionais ou de um levante transnacional, uma expressão de uma onda à escala global?

 

Uma nova página para apoiar e construir novas alternativas na América Latina e no mundo, defendendo o poder dos trabalhadores e do povo contra o 1% dos ricos e poderosos, e uma sociedade sem exploração.

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