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Golpe cívico, policial e militar na Bolívia

Desde os primeiros meses de 2019, aplicava-se na Bolívia uma operação de desestabilização do governo de Evo Morales. As projeções eleitorais encomendadas pela direita davam um resultado muito apertado, com o candidato do partido governante, o MAS-IPS (Movimento ao Socialismo – Instrumento pela Soberania dos Povos), ganhando o primeiro turno com menos de 10% nas eleiçõs de 20 de outubro, o que forçaria um segundo turno. Uma aliança de toda a centro-direita, a direita e a ultradireita, poderia chegar a desalojar do poder a Morales e seu partido depois de 13 anos e 9 meses de governo. Ao que parece, a embaixada dos Estados Unidos considerava a possibilidade de que Evo obtivesse mais de 10%, pelo que ganharia o primeiro turno e seria eleito para um quarto mandato. E começou a operar.

Doze legisladores de oposição e três ativistas dos chamados “agrupamentos cidadãos”, representantes de lobistas de Santa Cruz de la Sierra, assinou uma carta solicitando a Donald Trump, que intervisse nas eleições para evitar a candidatura de Evo Morales. Solicitavam a intervenção de Trump ante a OEA para que esta se pronunciasse publicamente para evitar a “ditadura totalitária de Evo Morales Ayma na Bolívia”.

Muito provavelmente por iniciativa e com a colaboração da embaixada estadunidense e da CIA, foram estabelecidas negociações secretas com a polícia e as Forças Armadas para conseguir quebrar a cadeia de mando, a obediência ao presidente Morales e se mantivessem em alerta para forçar sua saída. Sem o apoio dos generais, o golpe teria sido impossível.

“Fake news”, igrejas evangélicas e racismo

Então, começaram a ser divulgados rumores de possível fraude eleitoral, caso Evo superasse esses 10% de diferença. Isso se combinou com o recrudescimento de acusações de corrupção contra o presidente e importantes membros do governo. Fake news começaram a ser propagadas nas redes sociais, das quais grande parte da imprensa faria eco e que alcançariam uma impressionante amplitude e truculência, atacando a moral do presidente acusando-o de corrupto e narcotraficante. A um mês das eleições, a oposição e a grande imprensa, especialmente Página 7, El Deber e La Razón, vaticinavam uma fraude. Isso se repetia incansavelmente nas redes sociais.

A elite “branca”, representante do agronegócio e do capital financeiro (que em grande medida lava o dinheiro sujo do narcotráfico), fincada especialmente no Oriente, em Santa Cruz de la Sierra, utilizando a grande imprensa, as redes sociais e, muito especialmente, a estrutura e aparato de comunicação das igrejas evangélicas, cada vez mais atacav violentamente Evo, acusando-o de ser indígena, mestiço, “pagão”, satânico. Vários dos candidatos faziam campanha “em nome de Deus”, e afirmavam que “votar em Evo era votar no demônio”.

Tudo isso predispunha a opinião pública a pensar que “algo muito ruim” ia acontecer nas eleições. As igrejas alimentavam o ceticismo e a desconfiança, despolitizavam o processo.

Por outro lado, as insuficiências do governo, a estagnação no avanço social e nas causas democráticas e ecológicas, também haviam gerado um grande desgaste aos olhos da população.

Todos estes elementos iriam conformar uma mescla explosiva.

Os resultados eleitorais

Antes de finalizado o cômputo dos votos, o candidato opositor neoliberal, Carlos Mesa, foi o primeiro a não reconhecer os resultados, acusando o governo de fraude. Então, setores de massas, ainda sem ter os resultados definitivos, saíram às ruas, liderados, entre outros, por Walter Albarracín, reitor da UMSA (Universidad Mayor de San Andrés).

Logo aparecem outros personagens que irrompem na cena: os Comitês Cívicos de Santa Cruz e Cochabamba, com o objetivo de gerar choques contra a polícia, outros setores civis e, especialmente, contra os partidários do MAS. Os acontecimentos vão se precipitando e vão sendo produzidos cortes e bloqueios nas estradas, deixando a cidade de La Paz praticamente imobilizada. Estas figuras da direita, sobretudo da Juventud Cruceña, de Santa Cruz de la Sierra, que é um movimento autonomista, separatista e racista, realizam ataques muito violentos contra a população indígena.

Neste ínterim, ascende o empresário (grande devedor de impostos) Luis Fernando Camacho, ultradireitista, levantando a Bíblia como bandeira, como um instrumento de exorcismo contra a maldade do povo indígena, pagão e diabólico, dizendo que era preciso respeitar o voto que, segundo eles, lhes haviam roubado.

Até este momento, a OEA ainda não emitira o resultado final de seu estudo sobre as eleições.

Camacho dizia que sua única intenção era levar essa Bíblia até o Palácio Quemado, sede do governo e que oxalá nunca mais retorne a Pachamama a esse palácio.

Entretanto, já estavam sendo atacados dirigentes, altos funcionários do governo e militantes do MAS, inclusive seus familiares, com a queima de suas casas.

Em Cochabamba e em Santa Cruz, foram registrados ataques diretos a pessoas e instituições. Em La Paz, as bandas direitistas sequestraram um jornalista de um órgão oficial, prenderam-no numa árvore e publicaram um vídeo nas redes sociais, mostrando sua humilhação e advertindo outros jornalistas dos meios estatais que, se não abandonassem seus postos, seriam tratados da mesma forma.

Em Santa Cruz, durante a semana anterior à renúncia de Evo, a articulação das igrejas evangélicas difundiu o rumor de que Fernando Camacho, liderança dos cívicos, tinha um vídeo que destruiria a reputação de Evo Morales. Seria um vídeo onde Evo estaria recebendo dinheiro do narcotráfico. Essa “evidência” obrigaria Morales a renunciar. Esperava-se com uma enorme expectativa o momento no qual Camacho, junto com uma série de beatos, aparecesse ao vivo, para mostrar esse vídeo. Foram instaladas grandes televisões em Santa Cruz… porém esse vídeo nunca foi exibido. Era simplesmente um jogo de cena onde Camacho afirmou que iria com sua Bíblia pedir a renúncia de Evo Morales e para isso necessitava a lealdade e a fé do povo boliviano para que a Bíblia entrasse no palácio do governo.

Segundo um jornalista estrangeiro que trabalhava na Bolívia no momento do golpe e que conseguiu sair do país, este é o elemento inovador do golpe de Estado na Bolívia: o nível de manipulação desses elementos místicos e religioso e que “nos levou a viver este horror que nos legou duas grandes matanças como as de Cochabamba e El Alto.”

A renúncia de Morales: o golpe cívico, policial e militar

Em 10 de novembro, apesar de que Evo Morales tivesse convocado a constituição de um novo Tribunal Supremo Electoral e novas eleições, o governo recebeu a “sugestão” de renunciar, por parte do comandante das Forças Armadas, Williams Kaliman.

Este fazia eco da exigência de Fernando Camacho, principal dirigente da escalada golpista, que queria a renúncia do presidente, seu vice, senadores e deputados, os membros do Tribunal de Justiça Eleitoral para criar uma junta de notáveis que constituiriam um “governo provisório” e chamasse eleições em 60 dias. Junto a ele, o dirigente do Comitê Cívico de Potosí, Antonio Pumari, exigiu que o exército saísse às ruas e “caso não tivessem a capacidade de fazer isso, que nos dessem as armas para nós”.

A OEA detectou irregularidades no processo eleitoral de 20 de outubro e dizia que não podia afirmar-se que Morales havia ganhado o primeiro turno, pelo seria necessário convocar novas eleições.

O plano dirigido por Camacho, Pumari e o candidato opositor Carlos Mesa, com o respaldo do imperialismo ianque, não era o de assegurar um segundo turno eleitoral, mas o de impor a renúncia do presidente e da linha sucessória ligada ao MAS para conseguir um “governo de transição”, que abrisse o caminho para um novo pleito eleitoral que garantisse um triunfo da direita mais radical.

A polícia se amotinou em vários pontos do país e os grupos de oposição puderam atuar numa escalada de violência contra os meios de comunicação do Estado e dirigentes. Foram incendiadas as casas dos governadores de Chuquisaca e Oruro, além da residência da irmã de Evo, Ester Morales Ayma.

O dirigente da COB (Central Obrera Boliviana), Juan Carlos Huarachi, pediu també a renúncia do presidente para “pacificar o povo boliviano”.

As forças armadas começaram a executar ações militares aéreas e terrestres para neutralizar “grupos armados” não especificados que estariam atuando fora da lei.

Camacho agradeceu publicamente a Polícia Nacional e as Forças Armadas na pessoa do comandante-general Kaliman.

Ante esta situação, sem contar com a polícia e as Forças Armadas, Evo e seu vice Álvaro García Linera apresentaram a renúncia. O mesmo faria a presidenta do Senado, Adriana Salvatierra (MAS-IPS). Evo Morales refugiou-se primeiro no México e depois na Argentina, sob o governo do recém-eleito presidente Alberto Fernández.

O “governo de transição” e a repressão

Então assume como autoproclamada “presidente transitória” Jeanine Áñez, segunda vice-presidenta do Senado, cargo reservado por lei a um parlamentar da oposição. O chefe do Exército William Kaliman foi quem lhe colocou a faixa presidencial. A whipala, bandeira indígena, que havia sido queimada e achincalhada nas manifestações contra Evo, foi hipocritamente levantada por Camacho, para a aplacar a revolta das nações indígenas que se manifetaram fortemente contra a renúncia presidencial e o respeito pela sua bandeira.

Poucos dias depois do golpe, o enfrentamento e o cerco às cidades pelos bloqueios foram muito intensos. A polícia pedia desesperadamente que os militares se somassem à repressão e em muitos casos abandonou seus quartéis, que foram queimados na cidade de El Alto. A desaparição das armas desses quartéis foi usada pelo governo de facto, que se instalou dois dias depois, para dizer que as armas com as quais se cometeram os massacres não eram nem do Exército nem da polícia.

Desde as terras ao entorno até a Plaza San Francisco de La Paz, bombas de gás lacrimogêneo foram disparadas contra os manifestantes.

Na Zona Sul de La Paz, generalizaram-se os rumores de que os vândalos de El Alto vinham atacar a classe média, culpando-a pela renúncia de Evo. Prontamente, começaram a aparecer caminhões que distribuíam capacetes, escudos e cacetetes para os vizinhos, sobretudo a juventude, para defender-se desses invasores que nunca chegaram. Posteriormente, quando a polícia começou a subir, muitos destes jovens seguiram a polícia “para ajudar”. Essa foi uma estratégia da direita para coesionar seus setores de classes mais afins, independentemente se estavam ou não de acordo com o golpe. Despertavam o medo do outro, dos mais pobres, dos indígenas. Havia reuniões de vizinhos onde duas ou três diretrizes organizavam a “autodefesa” frente aos eventuais ataques dos indíos, dos setores populares que ameaçavam suas casas, seus carros, sua família.

Em Cochabamba, a Juventude Cochala, jovens motoqueiros que reivindicam uma espécie de supremacia, ganharam força como grupo paramilitar quando começaram a ser “assessorados” para a autodefesa por instrutores especializados que davam diretrizes muito específicas numa situação de vazio de poder, quando a polícia não circula normalmente. Foram incendiados muitos dos ônibus municipais, os Pumakatari, enquanto estavam estacionados no pátio municipal durante a noite.

Houve vítimas assassinadas nas ruas por disparos de franco-atiradores, o que ficou demonstrado pela precisão ao alcançar órgãos vitais, apesar de que posteriormente o governo de facto afirmou que os mortos foram vítimas de hordas ensandecidas partidárias de Evo Morales, as quais atacavam a população.

Os massacres de Sacaba e Senkata

Em 15 de novembro, a autoproclamada presidenta, Jeanine Áñez assinou um decreto que autorizava os militares a usar “todos seus meios disponíveis” para neutralizar as massivas manifestações contra o golpe.

Esse decreto, 4.078, outorgava uma verdadeira licença para matar as Forças Armadas e a polícia, já que as eximia anteriormente de qualquer sanção penal por sua ação repressiva.

Nesse mesmo dia foram assassinadas 9 pessoas pelas forças armadas e a polícia, cocaleros dos povos originários que marchavam em Sacaba (Cochabamba) rumo a La Paz pela degradação da whipala, bandeira representativa do Estado plurinacional, e contra o golpe de Estado e a repressão. Houve 122 feridos, segundo a Defensoria do Povo. Em 16 de novembro, outro manifestante foi assassinado em Sacaba.

Em 19 de novembro, em Senkata, El Alto, frente à planta de combustível de Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos, foram assassinadas 7 pessoas e ficaram feridas outras 60, todas por impacto com balas. Em 20 e 22 de novembro, outros dois assassinatos foram registrados.

As autópsias mostram que as mortes de ambos os massacres foram causados por impactos de bala na cabeça e no torso. Atiravam para matar.

Até agora, a Defensoria do Povo reporta que houve 34 mortos, 932 feridos e 54 detidos.

A última vítima da repressão em El Alto foi assassinada em 27 de novembro. São 10 assassinados no massacre de Senkata.

Em 28 de novembro, Áñez retirou o decreto n° 4.078, a licença para matar, alegando que havia se obtido a “pacificação”.

Segundo o relator da CIDH na Bolívia: “Apesar de que a informação oficial fala de mortes em enfrentamentos entre civis, cremos que se requer de uma investigação internacional porque não encontramos internamente garantias para uma investigação imparcial e firme”.

A Comissão do Parlasul

Em 27 e 28 de novembro, a Comissão de Cidadania e Direitos Humanos do Parlasul, se fez presente na cidade de La Paz e qualificou a situação como um golpe cívico-militar que violou direitos fundamentais. E expressou sua preocupação nos seguintes termos:

“1) A participação das Forças Armadas em operativos para controle da ordem pública e, em particular, para promover a segurança cidadã no contexto de protestos sociais que produziram até o momento 32 vítimas fatais, 832 pessoas feridas e 1513 detidas;

2) Declarações, discursos e ataques de ódio racial dirigidos aos povos indígenas do país, principalmente a suas mulheres e seus símbolos;

3) Graves ameaças, ataques físicos às moradias dirigidas a líderes, assambleístas e dirigentes sociais, funcionários e funcionárias e dirigentes de instituições independente do Estado, como os organismos nacionais de promoção e proteção dos direitos humanos;

4) A não outorga de salvo-conduto a dirigentes que se encontram com asilo em embaixadas;

5) A perseguição a jornalistas nacionais e estrangeiros;”

A delegação estava composta por sua presidenta, Cecilia Merchán (Argentina) e os Parlamentares Ricardo Canese (Paraguai), Carlos Reutor (Uruguai) e Fernanda Melchionna (Brasil), além do Secretário de Relações Internacionais, Luis Seara.

A Comissão coletou testemunhos de familiares das vítimas dos massacres e posteriormente enviou uma cópia de seu informe à Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

As causas sociais e econômicas do golpe

A direita nacional boliviana nunca aceitou que um indígena assumisse a presidência da Bolívia, um país com esmagadora maioria indígena. Muito menos levantando a whipala, a bandeira símbolo da integração do Estado Plurinacional da Bolívia consagrado na Constituição de 2008.

As medidas para combater a pobreza, promover o desenvolvimento com inclusão social e controlar os recursos naturais como o gás e o lítio, também afetaram os negócios da elite da “meia-lua” do oriente, a região secessionista e oligárquica, de onde provêm Camacho e Áñez.

Os fortes elementos de racismo das classes dominantes bolivians sempre estiveram presentes, a crise atual abriu a caixa de Pandora que transformaria esses prejuízos na violência e crueldade e, finalmente, em usurpação do poder.

Com um moderado crescimento econômico e baixa inflação, a ajuda social do governo, outorgando bônus das camadas de menor renda, mas não constituiu uma política redistributiva duradoura.

A indústria extrativista seguiu cumprindo um papel fundamental na economia, a política de desenvolvimento implementada por Morales seguia dependendo da extração de matérias primas, o zinco, o ouro e o gás representam mais de 60% das exportações.

Morales nacionalizou os hidrocarbonetos, ainda que as grandes companhias transnacionais permaneceram como operadoras do setor. Os impostos e regalias que o governo pode renegociar com essas companhias lhe permitiram alimentar seus programas sociais e certos projetos de investimento. Mas essa estratégia baseada nas exportações de matérias primas se veria afetada pelas variações dos preços internacionais.

Com a crise econômica mundial de 2009 finalizou o super ciclo dos commodities e os efeitos negativos não tardaram em aparecer.

Grande parte da indústria mineira seguiu em mãos das empresas transnacionais, enquanto outro segmento foi explorado por cooperativas. Uma parte do setor se opôs à sindicalização dos trabalhadores, o que levou a violentos enfrentamentos. Muitas comunidades se opuseram aos grandes projetos mineradores, denunciando os efeitos de contaminação e destruição ambiental e questionando o governo por sua política extrativista.

A partir de 2008, o governo boliviano iniciou um projeto estratégico de exploração do lítio e fundou a empresa estatal YLB (Yacimientos de Litio Bolivia). Uma planta produtora de cloreto de potássio e outra de carbonato de lítio estavam em avançado estado de construção. Havia sido selado um acordo com uma firma alemã, mas com maioria acionária nacional para fabricar baterias de lítio com transferência de tecnologia e patente boliviana. Mas o projeto foi duramente combatido pelo Comitê Cívico de Potosí que qualificou o acordo de “entreguista” e acusou o governo nacional de pretender apropriar-se das regalias que corresponderiam a Potosí. O projeto terminou sendo cancelado. Marco Pumari, o líder do Comitê Cívico de Potosí, articulou a reclamação da renúncia de Evo e o acusou de entregar as riquezas nacionais pelo acordo com a Alemanha para a construção da planta da fábrica de baterias. Pumari se converteu no principal aliado de Camacho.

Provavelmente, nos próximos meses, alguma empresa estadunidense proporá para investir na fabricação de baterias e outros produtos derivados do lítio.

A confusão com o resultado das eleições e o descontentamento com o governo, que num primeiro momento havia se declarado vencedor do pleito, fez que muitos dirigentes de organizações sociais começaram a pedir a renúncia do presidente. A Central Obrera Boliviana (COB), a Federação Mineira e organizações indígenas expressavam seu descontentamento. Em 10 de novembro, o exército sugeriu a renúncia de Evo.

No sábado, 7 de dezembro, o MAS iniciou seu congresso ampliado em Cochabamba, com o objetivo de analisar a conjuntura e definir a fórmula eleitoral.

Participaram diversos setores: mineiros, campesinos, interculturais, organizações indígenas…

Aparentemente havia bastante insatisfação nas bases. Representantes da cidade de El Alto, entre outros, propunham-na, exortando a “mais ampla unidade” afirmando que o MAS ganharia “com qualquer candidato” e prosseguiria o processo de mudança.

Evo Morales foi designado Chefe de Campanha e os possíveis nomes presidenciais são Luis Arce (ex-ministro da Economia), Andrónico Rodríguez (jovem dirigente cocaleiro), David Choquehuanca (ex-chanceler e secretário da ALBA), Adriana Salvatierra (ex-presidenta do Senado, o ex-representante ante a OEA José Alberto Gonzales e o ex-chanceler Diego Pary.
No entanto, nada foi resolvido no congresso ampliado, a decisão final será tomada depois de “consultas às bases”, mediante reuniões ampliadas e assembleias dos setores que fazem parte do MAS.
“Evo Morales segue sendo presidente do MAS e nessa linha sempre temos que ver nossa coordenação com ele (…). Se de alguma maneira o Governo permite seu terno vai ser nosso chefe de campanha nacional”, manifestou Sergio Choque, presidente da Câmara de Deputados.
No dia anterior, 6 de dezembro, aprovou-se na Câmara de Deputados, uma Lei de Garantias para o exercício pleno dos direitos constitucionais. O governo ilegítimo já anunciou que será vetada pela presidenta Jeanine Áñez, com o argumento de que daria impunidade a Morales e os membros do governo deposto.
A lei propõe garantir o fim da perseguição às organizações civis e políticas, assembleístas e dirigentes políticos do MAS e opositores ao atual governo, a entrega de salvo-condutos para sair do país aos refugiados nas embaixadas e proibir detenções e perseguições pela crise gerada em Bolívia depois das eleições. Propõe, ademais, a indenização para os familiares dos falecidos, a disposição de serviços gratuitos para os feridos e a liberdade dos detidos que participavam pacificamente nas mobilizações depois de 21 de outubro e a liberdade de expressão em todos os meios de comunicação. O projeto foi modificado depois de um acordo entre todos os partidos no Senado e voltou à Câmara de Deputados. A principal modificação se refere à retirada de imunidade a membros do Executivo e parlamentares. Também retira o pedido de entrega de salvo-condutos a funcionários refugiados em embaixadas.
Evo Morales, ainda no exílio, é um fator determinante nos rumos da situação política, se postula e postula seu partido, que conserva a maioria no Congresso, como um vetor de pacificação nacional e estabilidade numa Bolívia profundamente conturbada.
O anúncio de que estabeleceria na cidade argentina de Orán, a 20 minutos da fronteira com a Bolívia semeou a preocupação na direita e seu governo. A presidenta ilegítima Jeanine Áñez anunciou que “Nos próximos dias será emitida uma ordem de apreensão porque nós fizemos as denúncias pertinentes”. A acusação contra Evo Morales é de “sedição, terrorismo e financiamento ao terrorismo”. Áñez parecia muito segura de que a Justiça ditaria uma ordem de prisão contra o ex-presidente.
Finalmente, em 18 de dezembro, a Procuradoria de La Paz emitiu uma ordem de prisão contra Evo Morales pelos supostos delitos de sedição, terrorismo e financiamento ao terrorismo, tal como a presidente de facto anunciara.

Resistência popular e mobilização

As primeiras assembleias e reuniões ampliadas reafirmaram em Cochabamba um jovem dirigente cocaleiro (Andrónico Rodríguez) como possível candidato do MAS. Em La Paz está sendo indicado David Choquehuanca (ex-chanceler). Está sendo perfilada uma possível fórmula presidencial composta pelo binômio Rodríguez – Choquehuanca, em Santa Cruz já deram o apoio à fórmula Choquehuanca (candidato a presidente) e Rodríguez (candidato a vice). Rodríguez fala de “renovação e autocrítica” necessária no MAS.

Numa entrevista, Choquehuanca afirmou que o MAS deixou abertas as portas para todas as pessoas e a “título de inclusivos, por estas abertas entrou o que conhecemos como oportunismo a gestão pública. Acompanhado da burocracia”.

Provavelmente na composição das listas eleitorais ocorra uma certa renovação, a cúpula partidária não parece ter demasiada força para impor candidatos desde cima. Um dos fatores de renovação seria a atitude tomada durante o golpe por parte dos postulantes. Parece haver um certo movimento que reflete a resistência, a juventude e os movimentos de base, onde as mulheres têm um importante protagonismo.

A campanha eleitoral, com suas mobilizações e rupturas, pode converter-se num importante canal de resistência ao golpe e seu governo ilegítimo, a maioria não quer o retrocesso. Para a imensa maioira do povo boliviano parece não existir outra saída que a recuperação do governo, usando seus instrumentos políticos e organizacionais.

Não é casual que o governo golpista, a justiça cúmplice e as direitas tentem desmoralizar, aprisionar e deixar fora das eleições Evo e os quadros mais importantes do MAS-IPSP. A saída para as classes dominantes é um regime de “democracia tutelada” pelas forças armadas, custodiada pelos extremistas paramilitares de direita, justificada ideologicamente pelas igrejas evangélicas e subordinada aos interesses do imperialismo ianque.

A resistência popular continua, organiza-se, e em qualquer momento pode passar à ofensiva.

As cozinheiras da História

Há indícios de formações sociais e políticas de novo tipo, merece especial atenção a construção do Parlamento das Mulheres, que começou imediatamente depois do golpe e que pretende agrupar as mulheres do povo: indígenas, amas de casa, camponesas, lésbicas, intelectuais, prostitutas, professoras, etc. Um movimento amplo, um Parlamento organizador e propositivo, independente dos partidos, mas que não exige a ninguém deixar sua organização política para fazer parte, que construa uma plataforma política para ser um fator da transformação que Bolívia necessita. Já se reuniram em La Paz e em Sucre e seguem organizando-se, na quinta-feira (26) se reunirão em Cochabamba. Muitas mulheres do MAS fazem parte dele.

Numa entrevista com María Galindo, principal dirigente da iniciativa, ela afirmava que o Parlamento pode ser um exemplo de debate e organização para todos os setores populares, e agregava: “para fazer uma boa comida, é necessário cozinhas os ingrediente na ordem correta. E as mulheres sabemos fazê-lo: somos as cozinheiras da História”.

Agradecimentos

Este informe foi elaborado graças aos companheiros e companheiras da Bolívia e outros países latino-americanos que me acolheram durante os nove dias de dezembro nos quais estive em La Paz e em El Alto. Aceitaram contar o que haviam vivido naqueles dias. Lamentavelmente não posso mencioná-los, ainda não chegou o momento. Mas eles e elas estão, cada um em seu lugar, resistindo, com toda a dignidade dos quais não aceitam a brutalidade e o obscurantismo, dos quais se sobrepõem à dor e constroem o futuro.

 

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Secretaria de redação

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