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Bolívia: Um país em conflito

A Bolívia é um país em intensa disputa. Uma cultura de tradições indígenas milenar em confronto com um fundamentalismo cristão que cresce em tamanho e influência; um partido de esquerda criticado por ter se afastado da base que o elegeu em disputa com a justiça burguesa e os seus partidos de oposição; uma forte disputa entre a plurinacionalidade e a democracia com o crescimento do autoritarismo – são diversas formas de entender o que se passa nesse país andino atualmente.

Esse texto foi montado a partir de duas entrevistas que fiz com os ativistas bolivianos David Inca, que organiza a Comissão Permanente de Direitos Humanos na cidade de El Alto (uma das principais na resistência indígena ao golpe) e de Mino Muñoz – jovem e rapper do distrito de La Paz que esteve participando ativamente das recentes mobilizações nesse mês de Janeiro.

O que está em jogo na Bolívia?

No dia 10 de novembro, após uma “sugestão” feita pelo comandante chefe das Forças Armadas para que renunciasse, Evo Morales oficialmente sai de seu cargo e entra em exílio, como forma de evitar uma perseguição que, em breve, viria. Pouco tempo depois Jeanine Añez, que era, até então, líder da oposição do Senado, se autoproclama presidente e começa a exercer esse poder de fato. Mas como chegamos a essa situação?

A Bolívia há anos passa por um processo de mudanças muito diferentes das vividas anteriormente no país. Após mobilizações que pararam o país em defesa de recursos naturais como o Gás e a Água o Movimiento Al Socialismo (MAS), consegue colocar, em 2006, Evo Morales, o primeiro indígena no país como presidente e iniciar o que eles chamariam de “processo de cambio”. Em seu primeiro mandato junto com medidas importantes como a reforma agrária e a nacionalização de recursos estratégicos que antes eram explorados por multinacionais, sua principal conquista é fundar o Estado plurinacional da Bolívia, reconhecendo os 36 povos que lá vivem e reconstruindo o Estado numa ótica que, teoricamente, incluiria o modo de “Viver Bem” dos povos andinos como parte da lógica do Estado, dando, inclusive, autonomia aos indígenas para exercerem seu modo de viver em seus territórios.

A existência dessas conquistas num país marcado por uma exploração das elites brancas aos povos indígenas que somam mais de 70% do país é marcante. Porém, apesar disso, o MAS ao não aprofundar essas mudanças entrou em diversas contradições nos últimos anos. Uma estratégia de pactuação com a burguesia, protagonizada por Álvaro García, ex-vice presidente, fortalece um sentido comum que fez com que o MAS se afastasse da base que possibilitou sua vitória. O mal uso do Fundo Indígena, poucos avanços na implementação da autonomia das comunidades indígenas, o aparelhamento de movimentos sociais e a tentativa de fazer grandes obras em locais onde vivem povos originários foram exemplos do aprofundamento dessa ruptura.

Nesse sentido, em não muito tempo Evo vinha perdendo espaço e hegemonia na sociedade. Em 2016 o MAS perde sua primeira votação nacional em um referendo que tirava o limite que temos presidentes para poderem se recandidatar. Esse foi um momento de crucial para entender o atual cenário na Bolívia, porque, mesmo assim, o MAS decidiu bancar manter a candidatura de Evo – o que é aceito pela justiça e faz com que nas eleições de 2019 Evo se reeleja em uma situação diferente das eleições anteriores. Uma sociedade mais dividida e insatisfeita, um conjunto de movimentos sociais mais domesticados e uma narrativa política que a direita poderia usar para deslegitimar o governo deram uma base consistente para o golpe.

Surge, a partir desse momento o movimento dos pititas. Um verdadeiro movimento de massas protagonizado por jovens que fizeram pequenos piquetes e paralisações por diversas partes do país exigindo a renúncia de Evo Morales e que sejam desconsideradas as eleições – que teriam sido fraudadas. Nesse processo os Comitês Cívicos – organizações existentes em muitas cidades nas quais se organizam as burguesias locais, tomaram um grande protagonismo. Em especial a figura de Luis Fernando Camacho – considerado o Bolsonaro Boliviano – empresário de extrema-direita que trouxe, no momento do golpe, a Bíblia para o palácio nacional junto com uma carta de renúncia para ser assinada pelo presidente.

Junto a isso, os anos de burocratização do MAS impediram uma resposta à altura do movimento criado pela direita. Apesar da resistência indígena, da identidade plurinacional que boa parte tem em país em confronto com as ideias de Camacho ou de Añez, a figura de Evo se desgastava em uma parcela social considerável e sua própria base não tinha mais a mesma capacidade de mobilização, após mais de uma década de domesticação dos movimentos sociais e de não tentativas de renovação em seus espaços de direção. A direita tinha força social de bancar sua entrada no poder sem maiores formalidades, então aproveitou essa chance.

Sua entrada no poder, porém, não foi pacífica – vários protestos e mobilizações foram respondidos com ataques feito a casas de militantes e repressões mais diretas pela polícia e pelos militares. Em El Alto, em especial, no bairro de Senkata, em torno de 10 manifestantes foram assassinados durante uma manifestação. Apesar dos confrontos, Añez assumiu a Presidência e iniciou uma campanha para normalizar a violência nas ruas e iniciar um processo de perseguição mais oficial e judicial das antigas lideranças políticas do país.

E desde então, o que tem acontecido?

O clima político segue tenso na Bolívia, com as eleições marcadas para o dia 3 de maio, a atual presidente interina Jeanine Añez anunciou sua candidatura. Camacho tentará o cargo, assim como Carlos Mesa, ex-presidente e principal rival de Evo nas eleições do ano passado – há uma real disputa sobre qual alternativa na direita prepondera pós-golpe. Enquanto isso o, MAS anunciou Luis Arce, um de seus ministros mais moderados, como candidato, mostrando uma repetição de uma lógica institucionalizada e hegemonizada do Partido – nas últimas semanas ganhava força uma demanda de diversos setores do lançamento de Andrónico Rodriguez, jovem cocaleiro de Cochabamba que possui uma forte base social e foi um dos nomes mais ativos na resistência pós- golpe. A possibilidade de uma candidatura do MAS, porém, está sendo questionada judicialmente, seguindo a perseguição política que sofrem as lideranças do partido.

Dentro dos setores da esquerda e dos movimentos sociais, segundo David Inca e Mino, surge um debate e um balanço dos últimos anos de governo do MAS e uma reflexão sobre de que forma pode existir um reorganização da luta indígena e popular – um debate importante um país em que, diferente do Brasil com PSOL, não existe uma alternativa à esquerda do MAS formada. No dia 22 de Janeiro, data comemorativa da plurinacionalidade boliviana, voltaram as mobilizações e atos contra o governo de Añez e a perseguição política pós-golpe, parte de um processo importante de continuidade da resistência.

A sociedade boliviana, assim como a brasileira há alguns anos, viu um crescimento real do peso social da direita. As igrejas evangélicas e o empresariado aproveitaram o desgaste e a insatisfação com um Governo MAS que se afastava cada vez mais das demandas populares e distorcia sua proposta inicial de mudança social. Parecido com a experiência do PT, mostrou as dificuldades de uma opção pela conciliação – mesmo com uma das economias que mais cresciam na Bolívia e com uma parcela importante da sociedade com referência em sua figura, Evo se fragilizou ao frear o processo de cambio e priorizar compromissos com aqueles poderosos que hoje encontram um caminho mais “puro sangue” para apoiar com Añez ou Camacho.

A Bolívia é mais um exemplo de um momento turbulento da América Latina de muitos conflitos e também muita resistência. Não atoa a Whipala se tornou um símbolo para toda região andina e segue como uma imagem contrária a tudo representado por aqueles que estão no poder. Enquanto o Governo boliviano é questionado inclusive pela Comissão de Direitos Humanos da OEA pela sua perseguição e pelo assassinato de ativistas vemos que muito do que passa lá, com todas suas particularidades se assemelha com o Brasil.

Por isso, é tarefa urgente nossa solidariedade ativa. Assim como a direita boliviana se inspira em Bolsonaro e seus aliados, os povos latino-americanos tem muito como se apoiarem e se fortalecerem. Junto com Chile, Nicarágua, Equador, Haiti, Porto Rico entre tantos outros, a América Latina segue mostrando sua força popular. Assim como a nossa, a história Boliviana não tem ponto final e se seu histórico de revoluções e luta popular, com importantes símbolos como Bolívar e Túpac Katari, dizem algo, é que o povo ainda tem muito a contar.

Uma nova página para apoiar e construir novas alternativas na América Latina e no mundo, defendendo o poder dos trabalhadores e do povo contra o 1% dos ricos e poderosos, e uma sociedade sem exploração.

Secretaria de redação

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