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8-M pelo mundo: O feminismo se credencia como bússola da revolução anticapitalista

por Comissão Internacional do MES

Por ocasião do dia dedicado à Luta Internacional das Mulheres, as ruas e praças das principais cidades do mundo foram novamente ocupadas por manifestações de milhões de pessoas com as mais variadas pautas e reivindicações. Em comum a esses protestos, a orientação geral contra as diversas expressões do patriarcado (feminicídios, criminalização do aborto, inúmeras jornadas de trabalho, desigualdades salariais, sub-representatividade nos postos de poder, etc.) reforçadas por um modo de produção que cobra dos setores explorados e oprimidos (as verdadeiras maiorias sociais) a fatura de sua crise moribunda. Neste breve relato, nós da Comissão Internacional do MES tentaremos compartilhar com nossas companheiras e companheiros o máximo possível de informações de como foram as principais jornadas do 8-M no mundo. Uma nova crise do capitalismo vem ganhando forma nas últimas semanas e as mulheres demonstram uma vez mais serem a vanguarda da contraofensiva que necessitamos a nível global para enterrar o neoliberalismo e impulsionar novos projetos revolucionários.

8 de Março na América Latina

Santiago, Chile – 08/03

De início, não há como tratar do 8-M de 2020 sem eleger como ponto mais alto as praças chilenas transbordadas por mais de dois milhões de pessoas. As fotos de marchas de Santiago e Valparaíso são eloquentes: o estallido social de 2019 (por sinal, impulsionado pelo 8-M do ano anterior) contra o modelo neoliberal e a escassez de democracia está longe de ser página virada, como pensaram muitos analistas burgueses durante as férias escolares de verão. A revolta contra o “Estado opressor e violador”, simbolizada pela performance “Un violador en tu camino” e centenas de outras atividades artísticas, saiu mais fortalecida ainda depois deste domingo, num momento crucial em que se arranca o processo de debates para o Plebiscito Nacional de 26 de Abril. A retomada com força das mobilizações multitudinárias sugere uma vez mais que nesta quadra histórica as novas alternativas políticas que surgem precisam apostar sem reservas na capacidade de resposta do movimento de massas frente às tentativas inócuas de recomposição por cima dos regimes apodrecidos.

Cidade do México, México – 08/03

Outro país latino-americano em que as mulheres protagonizaram um belíssimo domingo de lutas foi o México. Atendendo à convocatória dos coletivos feministas, centenas de milhares de manifestantes saíram às ruas para exigir um basta ao aumento descomunal de feminicídios nos últimos cinco anos (nada menos do que 150%). Sob o mote “nos quitaron todo, hasta el miedo” (“nos tiraram tudo, até o medo”), ativistas cobriram a praça do Zócalo com os milhares de nomes e fotos das vítimas da violência machista. Dando continuidade ao domingo vitorioso, a segunda-feira também foi marcado por ações de resistência das mexicanas, como a primeira greve feminista da história do México. Segundo descrição do jornal El País, “na Cidade do México, a paralisação foi sentida desde a primeira hora da manhã. As principais avenidas, colapsadas habitualmente pelo tráfico impiedoso, luziam sem trânsito. O mesmo se sucedeu nas estações do Metrô, que transporta em média 4,5 milhões de pessoas. Os vagões de uso exclusivo de mulheres estavam quase vazios durante o horário de pico. Muito cedo se notou que a greve ressoava nas redes sociais e começava a se concretizar. A convocatória, chamada por jovens e mulheres a se ausentar na escola e no trabalho, mas também a não consumir nada num gesto anticapitalista, encontrou muitas vozes dispostas a segui-la”.

Buenos Aires, Argentina – 08/03

Na Argentina, mesmo sob chuva, o 8 de Março também teve apelo de massas e se estendeu pela segunda-feira, em “pañuelazos verdes” que polarizaram com as franjas reacionárias da sociedade contrárias ao avanço do direito ao aborto legal, seguro e gratuito prometido pelo governo peronista. Conforme assinalou o documento final redigido pelas organizadoras do evento na capital portenha, “a dívida não é com o FMI, nem com as igrejas. Nos colocamos de pé porque estamos contra a chantagem da dívida. (…) os feminismos são uma forma de vida alternativa ao capitalismo neoliberal em suas alianças com os fundamentalismos religiosos e os fascismos que em nosso país em toda Nuestramérica exploram, oprimem e invisibilizam nossas existências”. Medidas contra o disparo no número de feminicídios (10% de aumento entre os anos de 2018 e 2019, sintoma inequívoco do desmonte das políticas públicas operada pela austeridade neoliberal de Macri) também foram reivindicadas pelos agrupamentos feministas, colocando de novo em evidência a campanha “Ni Una Menos”. Além disso, notável foi a presença de integrantes de várias comunidades indígenas, conforme nos informa uma reportagem do Página 12: “ ‘As mulheres originárias, junto a nossos companheiros, estamos levando uma luta em defesa de nossos territórios onde as empresas mineradoras querem avançar, metendo-se em nossos espaços sem nenhuma autorização’, assegurou Aurora Choque, representante dos históricos legítimos donos da terra neste lado do mundo.”

Bogotá, Colômbia – 08/03

Os “pañuelazos verdes”, entretanto, não ficaram restritos ao território argentino. Na capital colombiana, sob cânticos de “hay que abortar este sistema patriarcal”, dezenas de milhares de jovens importaram o acessório da Argentina para exigir a legalização do direito ao aborto livre e seguro, processo paralisado por decisão recente da Corte Suprema. Segundo constata o El País, esta foi a maior manifestação desde o final do ano passado quando uma onda de protestos contra as medidas neoliberais de Iván Duque sacudiu o país e colocou o governo de extrema-direita na defensiva, fazendo a popularidade do governo encolher de 47% para 23% em um ano e meio de mandato. A manifestação feminista representa um grande impulso para a nova Paralisação Nacional que as centrais sindicais estão convocando para 25 de Março.

Lima, Peru – 08/03

Na região andina, Lima assistiu a uma marcha de 10 000 mulheres no sábado, indignadas com a passividade do Estado peruano para combater a violência de gênero que no ano passado produziu um recorde de feminicídios na década e mais de 7 800 mulheres estupradas. Aurora Coronado, dirigente da Federação de Mulheres Campesinas, Artesãs, Indígenas, Nativas e Assalariadas do Peru, declarou ao The Associated Press: “Este governo não tem políticas para as mulheres, o estado nos abandona, amanhã (domingo) não queremos presentes, queremos direitos”. Um cartaz na manifestação comparava a epidemia do coronavírus com as consequências do patriarcado: “é mais provável que me mate um homem que o coronavírus”.

Managua, Nicarágua. 08/03/2020.

Atividades de 8 de Março reuniram centenas e até milhares de mulheres ainda no Uruguai, Paraguai, Bolívia, Equador, Venezuela, Guatemala, Panamá, Honduras, El Salvador e Rep. Dominicana. Vale ressaltar a mobilização das universitárias nicaraguenses que desafiaram a proibição do regime orteguista e reproduziram a performance chilena da canção “Un violador em tu camino” no interior da Universidade Centroamericana em Manágua. A agência EFE conta que na adaptação nicaraguense, a canção denuncia “El violador eres tú, es la Policía, es la “Chayo” (Rosario Murillo, esposa de Daniel Ortega), los jueces, el Estado, el presidente”.

O 8 de Março no Velho Continente

Barcelona, Catalunha – 08/03

Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, as manifestações feministas na Europa foram, em média, aquém do potencial demonstrado em ocasiões anteriores, em virtude da ameaça de pandemia da Covid-19 que desestimula a aglomeração de grandes contingentes num mesmo espaço (na Itália, por exemplo, ninguém pode sair às ruas pelo estado de exceção decretado pelo governo). Ainda assim, em diversas partes do Estado Espanhol, milhares de jovens se colocaram em movimento, sob o lema “Con derechos, sin barreras, feministas sin fronteras”, com cartazes e faixas que giraram em torno do projeto de lei de liberdade sexual apresentado há algumas semanas pela coalizão governista PSOE/Podemos e da polêmica discussão sobre a legalização da prostituição. Em uma crônica publicada no Portal da Esquerda em Movimento, Alfons Bech descreveu a manifestação de Barcelona da seguinte forma: “Una explosión de creatividad, de alegría, de ímpetu. Eso es lo que ha sido hoy la manifestación del Día de la mujer en Barcelona. He recorrido una parte de la manifestación, que era inmensa, y no he podido fotografiar todas las ideas, todas las pancartas, dibujos, que llevaban las mujeres. Y eso que he hecho muchas. Pero hay que multiplicarlo por diez…o por veinte, para poder captar lo que sienten las mujeres ante el patriarcado y el machismo.”

A Suíça não ficou para trás, onde uma greve feminista foi organizada pelo segundo ano consecutivo no 8M, levando mulheres de todas as idades a ecoarem palavras de ordem sobre a violência contra mulher, bem como contra as mudanças climáticas e pela abertura das fronteiras europeias diante da crise imigratória. Como destaque, vale ressaltar o texto escrito por nossas camaradas suíças do Solidarités que creditaram a vitória desse dia ao movimento pela busca da união entre feminismo e marxismo na teoria e prática pelos movimentos feminista do país: “Se trata de começar a elaborar uma estratégia feminista marxista e revolucionária, uma tarefa árdua porque implica em se situar em oposição a duas grandes estratégias majoritárias contemporâneas, por um lado, e, por outro, se opor a uma certa visão marxista que considera o feminismo como um combate contra uma opressão “secundária”, ciada pelo capitalismo para dividir a classe trabalhadora”.

Paris, França – 08/03

Já na sempre insurgente França, as maiores marchas reuniram 60 000 e 10 000 em Paris e Toulose, respectivamente. Como aponta Elsa Collonges no site do NPA: “(…) a mobilização dos coletes amarelos no ano passado e a deste ano contra a reforma da previdência pôs em evidência a situação das mulheres: precárias, mal pagas, super-exploradas, pobres. As demandas de igualdade salarial e profissional, mas especialmente a de retirada de direitos pela reforma da previdência, estiveram muito presentes nas manifestações, levadas a cabo em particular pelas ativistas sindicais”.

Outro fato quente da conjuntura expresso nas manifestações francesas consistiu na premiação César (conhecido como o “oscar francês”) dada recentemente ao diretor Roman Polanski, acusado de uma série de crimes sexuais há várias décadas.

Londres, Inglaterra – 08/03

Atravessando o Canal da Mancha, na ação mais repercutida, milhares de londrinas reproduziram na Oxford Street a performance chilena do “El violador eres tú” – cujo título em inglês foi traduzido para “A Rapist in Your Path” – a fim de denunciar a cultura de estupro. Outra iniciativa que chamou a atenção partiu do coletivo Extinction Rebellion o qual fez questão de ressaltar que “sem justiça climática, não haverá igualdade de gênero”, citando um estudo da União Internacional para a Conservação da Natureza que descobriu que o colapso do clima e a degradação ambiental estão diretamente relacionados ao aumento de violência contra as mulheres. Além disso, as estatísticas da ONU apontam que 80% das pessoas obrigadas a se deslocar pela emergência climática são mulheres.

O 8 de Março em outras partes do mundo

Manila, Filipinas – 08/03

O dia global de luta das mulheres pelos seus direitos levou milhares de ativistas para as ruas de outros continentes. Na Argélia, por exemplo, as manifestantes enfrentaram a repressão policial para exigir a liberdade de todos os presos políticos encarcerados desde que iniciou-se o levante que depôs o general Bouteflika no ano passado. Em solo turco, centenas de mulheres não tomaram conhecimento da proibição imposta pelo regime de Erdogan e foram para cima dos policiais que tentaram bloquear a marcha feminista de Istambul. A praça al-Khilani em Bagdá recebeu centenas de iraquianas, cujo grito coletivo predominante foi “Revolução é meu nome, o silêncio masculino é uma vergonha, liberdade, revolução e feminismo”. Nas Filipinas, o alvo principal da marcha feminista foi o presidente Rodrigo Duterte, acusado de misoginia. Também se registraram dezenas de atos em países como a Tailândia, Índia, Paquistão, Quirguistão, Austrália e Indonésia.

Uma nova página para apoiar e construir novas alternativas na América Latina e no mundo, defendendo o poder dos trabalhadores e do povo contra o 1% dos ricos e poderosos, e uma sociedade sem exploração.

Secretaria de redação

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