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O significado para os EUA e o mundo da campanha de Bernie Sanders

A recente campanha de Bernie Sanders nas primárias democratas dos EUA representa um fato histórico transcendente. Nestas eleições estão se movimentando, como numa partida de xadrez, peças que são muito importantes para os trabalhadores dos EUA e para a esquerda radical que está surgindo em todo o mundo. Nos referimos a vanguarda das grandes mobilizações chilenas, de Hong Kong, Irã, Argélia, Sudão, França, entre outras, que estão mobilizadas como resposta às ofensivas de um sistema capitalista que passa pela sua mais aguda crise. Uma crise que hoje tem sua maior expressão na pandemia do coronavírus ameaçando a população dos EUA e de todo o mundo. O fato mais destacado desta situação, que não pode passar despercebido por ninguém que faça uma análise marxista da situação, é que se está consolidando um setor importante dos trabalhadores, comunidades imigrantes e juventude em apoio à campanha de Bernie Sanders justamente no país centro da reação e da ofensiva imperialista.

Se trata de um novo movimento social que pode ser um ponto de referência não somente nos EUA mas também para toda esta vanguarda ampliada que surge por todo o mundo. Uma situação superior àquela que vivemos quando surgiu em Berkeley o movimento anti-guerra nos anos 1960 e 1970. Agora, é mais importante quando esta vanguarda mundial luta e busca alternativas ante a crise atual do capitalismo. Esta é a questão colocada para a organização tanto do DSA como para outros marxistas em todo mundo.

A força deste novo processo político social é tal que a candidatura de Bernie Sanders nas primeiras plenárias levou o establishment democrata a se unificar ao redor da pré-candidatura de Joe Biden. Depois das retirada de outras candidaturas como a de Pete Buttigieg, de Michael Bloomberg e mais recentemente de Elizabeth Warren, restam na disputa somente o senador socialista de Vermont e o ex-vice-presidente da gestão Obama.

Queremos em este breve texto refletir sobre os possíveis rumos do atual movimento socialista democrático que dá suporte à candidatura Sanders. Para nós, é ainda mais importante do que uma eventual nomeação para a disputa presidencial pelo Partido Democrata é a consolidação de um movimento independente de trabalhadores, que seja cada vez mais organizado e faça frente aos constantes ataques do Estado e da burguesia estadunidense contra as camadas exploradas e oprimidas da população.

Está se construindo uma nova consciência política, um empoderamento dos trabalhadores que vai se expressar nas eleições locais que ocorrerão e que chega às estruturas sindicais. Uma consciência que vai sacudir as velhas estruturas sindicais, das universidades e na juventude, em aliança com as comunidades imigrantes. Por trás desta campanha, toda a militância que se faz convocando atos, indo de casa em casa nos bairros operários e populares, está se construindo o embrião de uma contra-hegemonia à hegemonia dominante por muitos anos na política norte-americana expressa no bipartidarismo de republicanos e democratas. Uma contra-hegemonia anti-establishment.

A campanha construída nos últimos anos ao redor de Sanders chegou a um novo perante a classe trabalhadora e determinados setores médios dos EUA, deixando de ser uma apenas novidade (como quando houve a disputa com Hillary Clinton) e consolidando um programa político concreto. Se, em 2016, emergiu como algo novo contra o poder do clã Clinton, agora esta nova campanha se torna mais programática, mas definida, e não enfrenta Clinton mas o candidato de Obama, e não é por casualidade que Biden tem prestígio no movimento negro. O Medicare for All, o Green New Deal, a luta por melhores salários e pela ampliação dos serviços públicos, a taxação das fortunas e a ruptura desta campanha com os grandes lobbystas que dominam a política trasformaram suas demandas em um verdadeiro programa objetivamente de ruptura com o regime político e com o capitalismo dominado pelos 1%. Este é o maior patrimônio de todo este processo. Se esta construindo um começo de contra-hegemonia nos EUA que vai muito mais além das eleições porque a crise estrutural do país, ganhe Sanders as primárias ou não ou não, continuará se aprofundando como parte da crise do capitalismo mundial.

Hoje, cada vez mais parcelas dos trabalhadores norte-americanos se veem representados por medidas econômicas de transição que se contrapõe de forma direta ao modelo capitalista profundamente impregnado nesta sociedade. Não por acaso, alguns dos setores mais atacados e precarizados nos últimos anos foram aqueles que mais apoio dão à Sanders e sua campanha, notadamente na juventude, nas comunidades imigrantes e entre trabalhadores dos serviços públicos. As ideais socialistas ressurgem no centro do imperialismo a medida que os sintomas da crise capitalista se expressam de forma cada vez mais dura.

Esta grande vanguarda de massas que se aproxima das ideias dos socialistas democráticos dos EUA deve ser encarada não de forma estática, mas dentro do contexto de um processo de mobilização e politização que está em aberto e ainda tem muito a se desenvolver. As amarras que o Partido Democrata impõe a luta da classe trabalhadora estadunidense tornam-se mais evidentes e colaboram neste desenvolvimento, impedindo o desenvolvimento de uma alternativa independente e combatendo com todas as ferramentas qualquer possibilidade de construção de uma ferramenta política dos trabalhadores neste país.

A campanha de Sanders e as organizações que a constroem, principalmente o DSA, tem este foco se desejam ser radicalmente coerentes com aquilo que propõe em seu programa. O importante conceito de class struggle elections só pode ser materializado caso as eleições sejam encaradas a partir de suas limitações inerentes e utilizadas para desmascarar perante o povo as injustiças e desigualdades deste sistema. Nesse sentido, o incrível trabalho que os camaradas do DSA vem construindo perante diversas categorias de trabalhadores é o principal caminho para conseguir avançar. Professoras e professores, enfermeiras e enfermeiros, trabalhadores e trabalhadoras das áreas do transporte, da alimentação, de tecnologia, além da multidão cada vez maior de precarizados, são exemplos de categorias nas quais este processo está se dando atualmente.

A luta pela nomeação de Sanders como candidato democrata é imprescindível, mas é importante ter em mente a totalidade do processo e a o enorme avanço de consciência que Bernie já despertou entre a população explorara e oprimida dos EUA. E, este avanço não pode parar independentemente dos resultados eleitorais, sob o risco de retroceder, colocando imediatamente o desafio de responder aos anseios da classe trabalhadora e avançar na luta por um programa de transição independentemente do resultado dos processos eleitorais organizados pela burguesia.

A grande ameaça mundial representada pelo governo Trump também deve ser levada em conta, e a única forma de responder à barbárie representada pelo presidente de extrema-direita é avançar na exigência de medidas concretas que busquem a melhoria das condições de vida da maioria da população. É exatamente por isso que Sanders é um candidato muito melhor para derrotar Trump e fica cada vez mais evidente que o establishment democrata prefere uma nova gestão de Trump à um governo reformador com grande lastro entre os trabalhadores e trabalhadoras.

A grande tarefa colocada para a vanguarda socialista estadunidense é combinar estes dois elementos da luta de classes: nas eleições e nas lutas dos trabalhadores, na construção de uma ferramenta independente. E quanto mais avança um destes elementos, mais avança também o outro. Não se trata de construir declarações vazias sobre esta ferramenta, mas sim de analisar cuidadosamente o momento político e combinaras duas tarefas em uma perspectiva classista do ponte de vista econômico e também ampla na luta para a derrota de Trump, cujas consequências seriam sentidas pelas classes trabalhadoras de todo o planeta.

Organizar esta imensa vanguarda ao redor de um programa concreto é a tarefa histórica do momento para os socialistas democráticos e para toda a vanguarda mundial. Construir novos horizontes e postular uma posição de maioria, encarando de frente as maiores possibilidades abertas nas últimas décadas nos EUA e aproveitando este momento para dar outros passos adiante nas posições trabalhadoras nesta guerra pela vida contra o capital. Isto é parte fundamental da resposta marxista perante a crise mundial e estamos juntos nessa tarefa necessária nos EUA e em todo mundo.

Uma nova página para apoiar e construir novas alternativas na América Latina e no mundo, defendendo o poder dos trabalhadores e do povo contra o 1% dos ricos e poderosos, e uma sociedade sem exploração.

Secretaria de redação

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