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(Essas notas são uma contribuição para promover o debate entre os internacionalistas, e todos os setores de intelectuais, cientistas, organizações políticas que se movem na direção de encontrar uma resposta para a grave crise global que provocou o sistema capitalista. Precisamos encontrar uma maneira comum de enfrentá-lo. Tomamos essa iniciativa que está aberto a sugestões, adições e contribuições para ajudá-lo a encontrá-lo.)

 

A pandemia e a crise econômica estremecem o mundo

Vivemos momentos dramáticos no mundo inteiro. Estamos numa situação de crise humanitária de tal dimensão, que é como se estivéssemos numa guerra mundial. Nesta guerra não há povos confrontados, quem nos ataca é um vírus, uma partícula minúscula que já se propagou por todo o mundo e ameaça a vida de todo o planeta. Nesta guerra, sofre toda a humanidade. Como em toda a guerra há também uma confrontação entre classes; na luta por parar a epidemia há diferentes interesses sociais, um conflito principal entre o capital e a vida; entre os trabalhadores e os pobres de um lado e as grandes corporações do outro. ela existe e é profunda. A burguesia dominante quer salvar seu sistema de exploração capitalista. Nós os internacionalistas estamos nesta guerra pensando em salvar a humanidade da catástrofe (não ao capitalismo) e nesta luta contra a pandemia defender os interesses dos trabalhadores e do povo. Estamos na primeira fileira defendendo os trabalhadores da saúde, das fábricas que não podem parar sua produção porque é indispensável, dos empregados de comércio.

Há uma contradição social mais profunda que sai à luz mostrando que há imensas desigualdades de classe entre ricos e pobres sendo estes últimos os que mais vão mais sofrer. Temos que ajudar a organização dos bairros, das comunidades que mais sofrem com a pandemia. Ao mesmo tempo que se faz indispensável, e esse é o objetivo principal destas notas, ajudar a que a vanguarda internacional anticapitalista se agrupe ao redor de pontos básicos de um programa de urgência para aparecer dentro de suas possibilidades como uma alternativa frente aos interesses do capital.

Nessa guerra que afeta a todos nós, os donos do capital que dominam o planeta têm um objeto comum: coincidem em que a pandemia não pode afetar seus interesses, querem utilizá-la para comprimir ainda mais os salários, transformar meios de produção para aumentar a exploração. Mas há diferenças sobre quais medidas tomar para encarar a urgência e salvar o sistema que já arrasta uma crise desde 2008.

Do lado do povo trabalhador, os que postulamos o fim do capitalismo queremos salvar a vida por cima de tudo e por isso vamos a esta guerra em unidade de ação com todos os que estão tomando medidas positivas neste momento mas sabendo que em definitivo tomaremos caminhos distintos porque do que se trata nesta crise não é salvar o sistema falido mas o planeta inteiro, começando por evitar que o custo desta guerra seja paga pelo povo.


Neste mundo cada vez mais globalizado esta guerra é mundial, vai se propagando por todo o planeta. Começou na China onde até agora já morreram 3245 pessoas. Extendeu-se ao Mediterrâneo; Itália com 8165 mortes e Espanha com 4366 mortes são os mais afetados e o número de falecidos só aumentam dia após dia. Propagou-se pelos EUA onde já há 70 000 infectados com 1000 mortos, expandindo-se por todo o sul do continente. Contabilizam-se mais de 500 000 contágios em 180 países, com cerca de 20 000 mortos por esta pandemia até o presente momento. Embora o capitalismo tenha globalizado a miséria, na América Latina e na África esta guerra será mais dura porque as insuficiências dos serviços do Estado são gigantescas e porque a vida é mais precária nos povos jovens do Peru, nas favelas do Brasil, ou as Villas Miséria da Argentina. Também no continente africano ou no Oriente Médio onde vivem aglomerado os palestinos da Gaza cercados pelo sionismo. Nestes lugares onde escasseia a água, falta de saneamento básico e estabelecimentos de saúde, a morte pode ser muito maior.


Sem dúvida, é a maior tragédia deste século. Não é algo normal que tinha que passar porque os vírus existem. Os vírus são parte da natureza e serão menos perigosos quando a ciência os domine. Mas, por ora, a ameaça é gravíssima neste planeta já enfermo pela crise sistêmica que vivemos sob a globalização capitalista. Há duas epidemias: o coronavírus e o capitalismo. Temos que combater a epidemia do coronavírus quando já sofremos a epidemia deste sistema em crise, com uma enfermidade terminal e que sobrevive agonicamente porque aos trabalhadores e aos povos está custando dotar-se de direções políticas radicalmente alternativas ao domínio do 1% sobre 99% da humanidade. Mas com esta crise fica mais evidente que este sistema não funciona para melhorar a vida da sociedade senão em função da acumulação capitalista de alguns poucos, das corporações, dos bancos e dos ricos. Este sistema vive uma crise estrutural, multidimensional, que se faz crônica desde 2008.


A humanidade não quer morrer e uma vanguarda de cientistas, de trabalhadores da saúde e dos que mais sofrem a epidemia estão começando a compreender com este vírus letal que a maior pandemia é o capitalismo. A ciência ja esta ganhando uma primeira batalha contra a anticiência pela que pregam governantes que pretendem ser messiânicos como Trump e Bolsonaro. A luta contra o coronavírus cria temor e desespero. O confinamento pode esgotar fisicamente mas não paralisa as cabeças das pessoas. Neste luta por terminar com a pandemia da Covid-19 está fazendo mover a consciência dos trabalhadores e dos povos. A pandemia desnuda um capitalismo neoliberal que depenou o sistema de serviços públicos de saúde, onde os progressos da ciência médica se colocam a serviço dos lucros e não da população. Clínicas privadas equipadas com alta tecnologia, mas hospitais públicos sucateados para a saúde dos pobres. Impôs-se a irracionalidade capitalista de que a saúde seja uma mercadoria para que lucre o investimento privado. Estamos ante um sistema que não somente ataca a vida das pessoas mas a vida do planeta. Começa-se a ver que este sistema se transformou em predador da mãe-Terra com estrativismos e desmatamentos que rompem o equilíbrio necessário entre homem e o meio ambiente levando ao mundo uma crise climática que pode por um limite à vida na terra. A luta pela vida é também a luta por salvar o planeta. A causa ecossocialista que parecia uma utopia anos atrás quando foi formulada torna-se agora uma necessidade imediata. A pandemia joga luz não somente na necessidade de um novo modelo de produção mas também de vida, de outra relação do homem com a natureza, de outra forma de vida social que se torna indispensável para organizar a sociedade.

Começa-se a compreender que necessitamos outra ordem mundial que permita a distribuição da riqueza, que preserve o planeta, que providencie educação, saúde e moradia para todos. Faz-se mais inteligível hoje que a alternativa é “socialismo ou barbárie”, como disjuntiva histórica. Ou salvamos a vida e o planeta, ou se afunda num curso trágico de morte.

Cai de maduro que é preciso socializar a saúde, que precisa haver um sistema único para todos. Os pioneiros desta campanha foram os jovens socialistas dos EUA que aumentaram enormemente e tomaram corpo no movimento político- social de apoio à candidatura de Bernie Sanders, que levanta a bandeira de “Medicare para todos!” e o socialismo como norte nas entranhas do império mais potente do mundo, polarizando desde a esquerda uma clara alternativa ao ultrarreacionário governo de Trump.


Os governos querem parar a epidemia sem comprometer os interesses das corporações e os Bancos. Mas surgiram diferenças entre o capitalista como ocorre em toda crise grave. Alguns mais irracionais dizem que não debe parar a economia e que é preciso voltar ao trabalho sem lhes importar a vida. Os que mais defendem esta política são os governos autoritários: o criminosos Bolsonaro no Brasil, que não quer parar a produção nem fechar as escolas, que nitidamente defende a economia contra a vida. Dessa maneira, indica a promoção de uma “limpeza étnica” durante a pandemia, processo que debilitará o povo negro pobre que é o setor mais vulnerável. Trump não fica para atrás, esta falando que ha que lotar as igrejas na Semana Santa. E há os governos mais prudentes, nos quais se encontra a burocracia capitalista da China, os governos europeus e aquí mesmo na América Latina alguns presidentes que pensam que para deter o vírus e salvar o sistema é necessário dar paliativos para assegurar a quarentena e abrir as reservas públicas, ainda que de maneira limitada com bônus, renda básica, gastos em saúde, etc.

Ante esta situação social importante está se mobilizando de maneira criativa, apesar da quarentena, nos bairros e comunidades, aproveitando as redes sociais para disputar a opinião pública exigindo medidas concretas que cubram as urgências sociais do momento. Não se trata de aceitar apenas paliativos, mas de exigir mais para assegurar a vida das pessoas. E o custo precisa ser pago pelas grandes empresas que fizeram fortunas imensas com suas políticas neoliberais.

Em paralelo às exigências de que os governos optem pela vida de suas comunidades em detrimento dos superlucros dos patrões, tem novas formas de solidariedade popular que se organiza nas comunidades, bairros, trabalhadores da saúde. Na Itália, greves contestam o não-fechamento de indústrias cuja produção não é essencial neste momento de tragédia social. No Chile, envolto a uma rebelião popular contra o neoliberalismo, trabalhadores contratistas dos Andes se mobilizam para paralisar a extração de cobre, enquanto os cabildos populares permanecem em deliberação coletivas sobre quais atitudes precisam ser adotadas para proteger os mais vulneráveis. Em muitos lugares tem experiencias de assistência social aos trabalhadores precários e sem teto. No Brasil moradores das favelas vêm distribuindo cestas básicas.


Na medida que se consigam progressos com medidas concretas para deter o avanço do coronavírus, os trabalhadores e os oprimidos estarão melhor para a pandemia seguinte que virá: a gravíssima recessão econômica que, segundo o economista-chefe da OCDE, será maior que a Grande Depressão dos anos 1930. Nesse momento, todos os capitalistas se unirão para que a crise seja paga pelos trabalhadores e o povo, enquanto nós defenderemos que eles a paguem, levando o mundo à beira da extinção.


Estamos na hora de gestar um grande movimento mundial em defesa da vida e a natureza. Há condições para isso. O coronavírus atacou o mundo quando este estava convulsionado por grandes mobilizações e rebeliões contra os governos neoliberais e especialmente os mais autoritários. Na cordilheira andina, um dos epicentros foi o Chile, mas também no Peru, Equador e Colômbia se deram grandes lutas. A primavera árabe renasce no no Norte da África e no Oriente Médio. Na Ásia começam as grandes mobilizações, na Índia e no Paquistão, e se mantém a luta democrática em Hong Kong. Na Europa, a França voltou a mostrar porque foi o lugar onde as primeiras revoluções contemporâneas. Recentemente foi a greve do transporte como anteriormente foi a vez dos coletes amarelos. Há mobilizações contra o autoritarismo de Putin na Rússia e nos Estados Unidos, junto ao crescimento do socialismo, se dá uma onda de greves.

Nestas lutas surgiu uma nova vanguarda radical, que encabeçam as mulheres e os jovens. Agora nesta guerra os internacionalistas temos que tratar por todos os meios que contamos de indicar para todos estes setores um programa de urgência comum.

Neste século XXI já houve sérias tentativas de unificar a vanguarda internacional. Com a mobilização de Seattle surgiu o movimento altermundialista que confrontou com a globalização capitalista dando origem ao Fórum Social Mundial que teve durante um período um papel muito progressivo que já permitiu ter uma instância para coordenar a luta internacional chegando a convocar uma mobilização em todo o mundo contra a guerra no Iraque.

Também surgiram os governos latino-americanos independentes do império nos EUA a cavalo de grandes mobilizações e explosões sociais no final do século XX; estes abriram um curso novo, mas não chegaram a se sustentar e prosperar, mas deixaram uma valiosa experiência. A seguinte onda foi a primavera árabe e os indignados da Espanha, Grécia, que alimentaram novas expressões internacionalistas e deu via ao Occupy Wall Street. Bernie Sanders e sua revolução política nos Estados Unidos surge deste processo e é uma resposta à crise no país do norte. Também o movimento feminista que cresce e segue acumulando vitórias parciais, como o direito ao aborto em mais países. Dão-se fortes processos democráticos que derrotam regimes autoritários no Sudão e se desafiam outros na Argélia e Irã.


As forças que queremos mudar o mundo e salvar a vida podemos atuar de maneira mais unida no terreno internacional. Há uma luta comum que se pode resumir em propostas imediatas:

1.- assegurar a quarentena para deter a epidemia como aconselha toda a ciência médica.

2.- nenhuma grande empresa, salvo as de serviços básicos, pode obrigar a trabalhar a seu quadro laboral. As remunerações devem estar asseguradas enquanto dure o isolamento social.

3.- renda básica para todos que assegurem a manutenção de suas famílias.

4.- suspensão da cobrança de luz, água, aluguéis, interrupção da cobrança de hipotecas, dívidas e juros bancários.

5.- centralização pública de todos os hospitais e o sistema de saúde para assegurar a atenção de todos de maneira gratuita.

6.- recursos públicos e privados para encarar a emergência; que as grandes empresas paguem suas dívidas tributárias, que aportem 20% de seu capital a um fundo humanitário.

7.- suspensão do pagamento da dívida externa; primeiro a saúde do povo, depois os compromissos com os credores. Revisão da dívida externa.

8.- segurança com base na organização social; controle popular e dos conselhos de bairro; não às saídas militaristas e repressivas que impeçam o povo de opinar e orgainzar-se.

9- Reconversão industrial imediata para que fábricas de bens não essenciais, no momento, se dediquem a produzir materiais médicos (ventiladores mecânicos, luvas, macas, etc.), tão carentes nos países mais empobrecidos. Que os gastos militares trilionários se convertam em investimentos massivos em pesquisa e ciência médica.

10- Confisco do lucro auferido nos últimos anos das grandes empresas que desrespeitem as diretivas da OMS.

11- Taxação das riquezas dos grandes bilionários. Se os governos de muitos países antes justificavam a inviabilidade dessa proposta com o argumento de que haveria fuga de capitais para centros dinâmicos de acumulação capitalista, num mundo com a produção quase completamente paralisada por uma nova recessão já não faz mais sentido deixar de adotar medidas efetivas de desconcentração de renda .

12- Por um novo Plano Marshall global e ecossocialista que tenha como prioridades “número zero” os interesses dos trabalhadores e um novo modelo de produção em transição para bases energéticas não predatórias do meio ambiente.

Nada será como antes. Podem os amos do mundo tentar reverter a crise como no passado condenando a humanidade a sofrimentos maiores mas não a têm consigo porque a crise gerada pelo vírus Covid-19 é também a expressão de sua crise e de seu maior fracasso. Algo novo está por nascer da mão dessa resistência que se estende como um poderoso antídoto contra a pandemia do capitalismo, contra a exploração social e o extermínio do planeta. Algo novo e superador vai surgir desta crise. Novas forças e novos líderes emergem em toda esta resistência às distintas formas de opressão do grande capital. É preciso uni-los na solidariedade, nas lutas e nas contendas políticas. Mais agora que vai ficando em evidência o rosto pérfido do grande capital que antepõe seus interesses à vida do planeta. Nos toca tomar a posição de nossos médicos e enfermeiras para estar na primeira linha contra a próxima pandemia, a do capitalismo em sua maior crise e por isso mesmo mais perigoso. Mas as forças da história estão de nosso lado, não será possível que um sistema classista perdure para sempre, de cada crise surgem seus coveiros.

26 de março del 2020

Uma nova página para apoiar e construir novas alternativas na América Latina e no mundo, defendendo o poder dos trabalhadores e do povo contra o 1% dos ricos e poderosos, e uma sociedade sem exploração.

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