Portal da Esquerda em Movimento Portal da Esquerda em Movimento Portal da Esquerda em Movimento

O Brasil e a luta contra muitas pandemias

Enquanto o sistema de saúde nacional colapsa e o novo coronavírus atinge centenas de milhares de pessoas, o Brasil se encontra diante de uma luta contra mais de uma pandemia.

A mais recente e dramática é a de COVID-19. Mas o impacto do vírus é potencializado pelas epidemias de autoritarismo político, desigualdade social e violência, inclusive de gênero, que castigam o país, a exemplo do que acontece ao redor do globo. Sob comando daquele que talvez seja o pior presidente do mundo, o maior país da América Latina vivencia uma crise dramática que coloca milhões de cidadãos e cidadãs em risco.

É preciso levar em conta o contexto no qual o Brasil foi atingido pelo coronavírus. Há pelo menos cinco anos, o país sofre com a espoliação econômica desenfreada conduzida pela agenda de ajustes ultra-neoliberais. Embora gigantescas manifestações democráticas tenham ocorrido em 2013, exigindo mais direitos, a desmoralizada classe política do país agiu no sentido contrário aos anseios populares. Tal lógica se iniciou sob Dilma Rousseff (PT) e atingiu patamares inimagináveis sob o governo golpista de Michel Temer (MDB) e, agora, com Jair Bolsonaro (sem partido).

Nesse período, os investimentos sociais (inclusive em saúde e pesquisa, áreas estratégicas para enfrentar uma pandemia) foram estrangulados, a economia fragilizada, o Congresso Nacional levou a cabo votações que destruíram direitos trabalhistas e previdenciários, e a pobreza, a miséria, o desemprego e a precarização das condições de vida cresceram enormemente.

Com Bolsonaro, a crise política atingiu nível inédito. Devoto da pior tradição autoritária e proto-fascista nacional, desde o primeiro dia no Palácio do Planalto, ele comete crimes escandalosos.

Perante o novo coronavírus, a conduta presidencial se baseia no chamado “negacionismo”. Assim, há uma particularidade no autoritarismo brasileiro corrente. Ao contrário de outras experiências mundiais, em que líderes se aproveitam das restrições causadas pela pandemia para modificar os regimes democráticos de seus países, no Brasil, a ameaça à democracia vem acompanhada da negação da ciência e da gravidade da situação. O que temos é um presidente que deseja mortes em massa e que, mais que a “ordem”, busca instaurar o “caos” como meio para desfechar planos ditatoriais. Não por menos, Bolsonaro tem sido referido como genocida.

De início, ele tratou com desdém o novo coronavírus, chamando-o de “gripezinha”. Quando mais de vinte membros de seu governo estiveram contaminados e ele próprio sob suspeita, escondeu do público os resultados de seus exames. Depois, voltou-se contra seu próprio Ministro da Saúde que, longe de ser um agente progressista, ao menos agia de acordo com protocolos técnicos. O presidente o demitiu e seguiu estimulando, contra as recomendações da OMS, medidas de reabertura do comércio e de aglomeração social. Insensível à morte de dezenas de milhares, participou, em pessoa, de manifestações golpistas, que defendiam, por exemplo, o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal.

Os brasileiros amargam, também, os efeitos do coronavírus em contraste com a desigualdade social. Somos o sétimo país mais desigual do mundo, de acordo com a OXFAM, e os 5% mais ricos da população têm mensalmente renda equivalente à dos outros 95% mais pobres. Como reflexo disso, as taxas mortalidade em decorrência do coronavírus são mais altas nas periferias do que nos centros de grandes cidades como São Paulo, além de atingirem de forma especialmente cruel a população negra.

A desigualdade social catalisa o drama econômico. Com a taxa de desemprego já acima de 11% antes da pandemia e com quase 50% da população empregada trabalhando na informalidade, agora, os efeitos das necessárias medidas de quarentena atingem, primeiramente, os vulneráveis. Muita luta teve de ser realizada para que fosse aprovada, no Congresso Nacional, uma renda emergencial fornecida pelo Estado aos vulneráveis, no valor insuficiente que vai de 600 a 1200 reais (isto é, de cerca de meio salário mínimo até pouco mais de um salário mínimo). A medida, urgente, não impede sozinha que a fome ataque muitos brasileiros.

Deve-se mencionar, ainda, que, neste quadro, mulheres trabalhadoras são as mais afetadas. As taxas de violência de gênero e de feminicídio crescem no Brasil, que é o quinto país que mais mata mulheres no mundo, segundo a ONU. Junto a isso, mulheres chegam a ser mais de 70% dos quadros de profissionais da saúde que lutam contra o coronavírus, muitas vezes, sem o devido fornecimento de Equipamentos de Proteção Individual. Já quando estão em casa, acabam sobrecarregadas com mais trabalho doméstico.

A esperança de superação da dura realidade brasileira encontra-se na mobilização do povo pobre, oprimido e trabalhador. Embora em duras condições que impossibilitam manifestações de massa, fortes panelaços têm acontecido e as pesquisas de opinião apontam para um isolamento progressivo do apoio a Bolsonaro. A avaliação negativa de seu governo cresce.

Sensível a esta situação, nós que, no Brasil, construímos o Movimento Esquerda Socialista (MES) e estamos deputados federais pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), em unidade com outras tendências do partido, apresentamos em 18/3/2020 pedido de impeachment de Jair Bolsonaro na Câmara de Deputados. Não faltam razões para realizá-lo. Tanto assim que mais de 1 milhão de brasileiros apoiaram em abaixo-assinado o pleito, que é assinado por parlamentares, intelectuais e artistas de projeção nacional e internacional. Junto a isso, temos lutado pelas muitas medidas emergenciais necessárias para o enfrentamento da crise sanitária, econômica e social.

A defesa do impeachment por um partido socialista e libertário serve, também, para apontar uma alternativa frente ao caos social e econômico que hoje, tristemente, coexiste com uma miséria política. Isso porque, via de regra, os atores em luta na cena política brasileira têm sido os da extrema-direita autoritária e da direita liberal democrática, brigando entre si. Mas enquanto estivermos nessa encruzilhada, sabemos, nenhuma perspectiva de conquista para o povo poderá realmente existir.

FONTE: LA PERSPECTIVES

Uma nova página para apoiar e construir novas alternativas na América Latina e no mundo, defendendo o poder dos trabalhadores e do povo contra o 1% dos ricos e poderosos, e uma sociedade sem exploração.

Secretaria de redação

  • Pedro Fuentes
  • Bernardo Corrêa
  • Charles Rosa
  • Clara Baeder