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Crônicas Catalãs – 23M: Início de desconfinamento e muitas interrogações

O governo espanhol pôs o pé no acelerador do desconfinamento. Se até agora havia conseguido um apoio parlamentar mais ou menos cômodo para manter o “estado de alarme”, a última votação foi quase dramática. E o resultado está sendo que o bloco de esquerdas e de partidos nacionais bascos e catalães com o que conseguiu o apoio ao início de legislatura, se está fundindo. Fundindo e dividindo.

Sem bloco parlamentar de apoio

A votação do período de “estado de alarme” de duas semanas – até 1 junho – deixou este saldo: o PP passou à estratégia da ultradireita de Vox, ao votar Não e desgastar o governo para derrubá-lo o quanto antes; por outro lado, conseguiu o apoio uma parte da direita espanhola e basca que votaram SIM: Ciudadanos e PNV; e o voto negativo dos três grupos catalães (ERC, JuntsxCatalunha e CUP) junto o voto negativo da esquerda valenciana de Compromis; e a abstenção da esquerda basca Bildu… em troca da “derrogação íntegra da reforma laboral do PP”… ou ao menos assim se pactuou em segredo, antes da votação.

A fragilidade e divisão interna no seio do próprio governo PSOE-UP é tal, que bastou que a patronal e direita uivaram contra o pacto feito com Bildu, para que a voz da neoliberal ministra de economia, Calviño, se levantasse contra esse acordo e o próprio Sánchez deixasse para trás, apesar de tê-lo assinado e apesar de figurar essa medida no programa de governo.

Começam algumas manifestações de ultradireita e de esquerda

Nesse clima político e ante o fato de que o governo está levantando muitas das medidas sanitárias impostas por meio do “estado de alarme”, também começa ter pressa por sair a se mobilizar. Como para ir à praia. Assim, a extrema-direita fascista de Vox convocou para hoje manifestações contra o governo, com o apoio político do PP, e conseguiu mobilizar alguns quantos milhares, em carros ou andando sem proteção, em quase todas as capitais de províncias. Particularmente numerosa foi em Madri.

Mas também as começa as de esquerdas e independentistas. Ainda que muitas delas foram proibidas e pessoas golpeadas e detidas em Barcelona sem nenhum motivo (à diferença das de Vox), ao final se impuseram, tomando medidas de distância sanitária e disciplina. Na quarta-feira, no bairro de Gracia, havia a concentração. Hoje a corte da Meridiana, entrada de Barcelona pelo Norte, foi reativada. Em ambas, o tema da Liberdade dos presos políticos, o Direito à autodeterminação e pela República, estiveram presentes. Segue, portanto, a conflitividade política ali onde se havia deixado, mas com um governo mais frágil e dividido.

Haverá ao final mais precariedade?

A reforma laboral do PP foi uma contrarreforma que aproveitou a crise de 2008 para precarizar todos os contratos, salários e condições de vida dos trabalhadores. Era preciso colocá-lo abaixo. Todo o mundo sabia que este governo se fazia chamar “progressista e de coalizão” tinha fazer isso se queria manter um apoio dos sindicatos e partidos de esquerda, dos quais depende. Mas o que fez o PSOE, primeiro assinando o acordo para terminar essa reforma sem contar com a cumplicidade de sindicatos nem ERC, e depois desautorizando aos que o tinham assinado (ou seja, ou os próprios sócios de Unidas Podemos e à vice-ministra Adriana Lastra, e a Bildu) é o pior que podia fazer para que a esquerda política e social se fie dele.

Precisamente quando nos adentramos a uma situação de grave descenso da atividade produtiva, de quebra das 25% de empresas em alguns setores, com um aumento da paralisação seguramente pior que o de 2008-12, a necessidade de tomar medidas a favor das famílias trabalhadoras é chave. Quando enfermeiras, médicos, entregadores, trabalhos de cuidados, limpeza… reclamam manter o emprego e que não se aproveite a nova crise pós-confinamento para fazer contratos ainda mais precários, para baixar o salário, para impor condições mais duras e mais horas de trabalho, é absolutamente urgente revogar essa lei do PP que permite aos empresários aproveitar-se. Porque o problema não é as empresas que fechem, que encerrarão, mas que as que restam colhem maior parte do bolo e se depara com maior facilidade de exploração.

Portanto, que a saída da Covid reforece a precariedade da classe trabalhadora (que vai agora é 23% pobre) ou que se ponha fim a essas políticas neoliberais e inicie um ciclo de restauração de direitos, depende das políticas que se apliquem agora. E a contradição interna deste governo mostra que estamos com a moeda de ar e não se sabe de que lado vai cair. Desgraçadamente, os sindicatos não estão aproveitando a ocasião para exigir que se ponha fim definitivo a essa lei lhes debilitou e baixou a filiação. A esquerda social e sindical está falhando. Portanto, seguem as políticas neoliberais e centralistas: tudo parece como se as receitas de 2008 voltem a repetir-se.

O sintoma Nissan

Nissan é uma empresa multinacional do automóvel que está instalada na Catalunha, sendo a fábrica principal a de Barcelona. De trabalho direto a 3000 pessoas e indireto a outras 20 000. A Espanha é a oitava produtora mundial de automóveis. Pois Nissan, que já mantinha há um tempo uma baixa produção com modelos antigos, esta próxima quinta-feira dirá se fecha ou não suas fábricas na Catalunha. O temor dos dirigentes sindicais é que acabará fechando. Os trabalhadores de Nissan se puseram em greve indefinida há duas semanas, ante esta incerteza.

Se Nissan fecha será o sintoma mais evidente do fim de uma etapa baseada no automóvel privado. Por mais que esta etapa já se iniciou objetivamente, primeiro com o esgotamento do petróleo barato e, depois, com a mobilização e consciência da emergência climática e início de legislações e medidas para rebaixar as emissões de gases, agora isso se acelera com a Covid-19.

Agora o desconfinamento porá de relevo a paralisação real que existe, a quantidade de empresas que fecham, os setores que não se levantarão o que o farão muito lentamente, os milhões de paralisados, e a falta de recursos do Estado, as autonomias, os municípios. Porque, não nos enganaremos, a maioria dos “recursos” que oferecem até hoje – a Espanha ou a Europa – são avais para créditos. O negócio segue sendo feito pelos bancos.

Estamos numa situação excepcionalmente dramática. Não haverá turismo em bastante tempo (15% da ocupação). Uma situação que exigirá medidas urgentes à altura do drama. Frente a isso, o governo Sánchez acaba de anunciar que, finalmente, haverá um subsídio, uma renda mínima para “pessoas em situação excepcional”. Mas essa renda chegará, segundo os cálculos do governo, a… tão somente 850 000 famílias, com um custo de 3 bilhões de euros. Uma copo de água no oceano.

Caso não se estabeleçam fortes impostos progressivos às grandes fortunas, não há nada a ser feito. E o governo Sánchez com ministras como Calviño, não fará isso. As famílias e os pequenos empresários não podem se endividar mais do que já estão. Caso não se façam expropriações de setores estratégicos, como bancos, energia, ou empresas do setor automobilístico que fecham, não se podem reorientar as produções para um tipo de economia sustentável e que acreditam trabalho de futuro, a longo prazo, de acordo com a mitigação da mudança climático.

E, para terminar, mas se destina uma importante parte do orçamento aos serviços públicos para a reprodução, cuidado e manutenção da vida, entre isso, a pesquisa, este desconfinamento somente servirá para tapar os olhos até o novo brote ou a nova pandemia. Se o povo quer viver terá que enterrar as políticas neoliberais. E greves como Nissan ou manifestantes terão que se fazer mais presentes. Como e com quem o fará? Pode se resolver sem mudar este sistema? Sem mudar, ao menos, ministras como Calviño?

Uma nova página para apoiar e construir novas alternativas na América Latina e no mundo, defendendo o poder dos trabalhadores e do povo contra o 1% dos ricos e poderosos, e uma sociedade sem exploração.

Secretaria de redação

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