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VERIFICANDO A REALIDADE: PRECISAMOS DE ELEIÇÕES PARA A LUTA DE CLASSES

A saída um pouco repentina e inesperada de Bernie Sanders da corrida presidencial deixou muitos na esquerda brigando por respostas sobre o que deu errado e para onde ir em seguida. As campanhas de 2016 e 2020 de Bernie atuaram como rodinhas de treinamento para a esquerda pós-Occupy e, mais especificamente, para o DSA. As campanhas popularizaram a ideia do socialismo e direcionaram a energia da esquerda – dando aos ativistas uma sensação de empurrar na mesma direção, unindo o que podiam ser lutas e demandas díspares sob um único guarda-chuva.

Agora que a campanha acabou, os socialistas estão sentindo o vazio. Em um artigo recente, “Enfrentando a Realidade”: A Esquerda Socialista, a Campanha Sanders e Nosso Futuro”, Charlie Post e Ashley Smith tentam uma reflexão sobre a derrota de Bernie e o que ela significa para os socialistas. Eles argumentam que o Partido Democrata é um beco sem saída certo para socialistas que tentam construir um poder político independente, e que os socialistas deveriam construir um partido próprio.

Sobre este ponto, concordamos. O Partido Democrata não representa os interesses da classe trabalhadora, e quaisquer tentativas de reformá-lo tem sido e será fútil; precisamos de um partido da classe trabalhadora. No entanto, a conclusão de Post e Smith de que qualquer trabalho eleitoral envolvendo candidatos concorrendo nas listas do Partido Democrata é uma perda de tempo para o DSA se baseia em uma afirmação errada da própria campanha do Bernie, com os esforços independentes do DSA para usar a campanha para popularizar o socialismo e construir a organização, além de fazer campanha por Bernie.

Ao contrário do que Post e Smith postaram, o DSA e seus membros não estavam simplesmente “envolvidos” na campanha do Bernie Sanders para presidente. O DSA construiu sua própria campanha independente com uma perspectiva explicitamente socialista e o objetivo de recrutar novos membros. Enquanto algumas seções escolheram coordenar diretamente com a campanha de Sanders, cerca de 150 seções locais do DSA organizaram suas próprias campanhas para Bernie com materiais específicos do DSA, cartazes, camisetas, pontos de discussão e objetivos. Muitos de nós no DSA viram a campanha de 2020 como uma oportunidade de aprofundar os ganhos que obtivemos em 2016 e 2017, quando a campanha de Sanders trouxe o renascimento da organização graças ao uso do termo “socialismo democrático” por parte de Bernie.

Certamente, a questão de saber se a campanha do DSA para Bernie recebeu demasiadas sugestões da campanha oficial permanece em aberto, e fora do escopo deste escrito. Mas é simplesmente falso dizer que o DSA não teve nenhum ganho organizativo independente através do “DSA por Bernie”. O trabalho de Bernie fez com que os membros novos e antigos voltassem ao DSA e, apenas nas primeiras semanas desde que Bernie desistiu, quase 5.000 pessoas se juntaram à organização.

Claramente esses números não são os que ganham uma eleição presidencial para um candidato socialista democrático. Mesmo assim, essas pessoas estão famintas por uma verdadeira política de esquerda e querem pertencer a uma organização. A campanha “DSA por Bernie” permitiu que as seções do DSA mobilizassem esses novos socialistas e depois os ligassem ao trabalho contínuo da organização. Os membros da DSA também ajudaram a organizar os esforços do Labor for Bernie em todo o país, que apoiaram os membros de grandes sindicatos a pressionar para que seus sindicatos locais e nacionais endossassem Bernie. Onde isso foi bem sucedido, e mesmo onde não foi, ajudou a construir a confiança, as relações e a organização do know-how dos trabalhadores sindicais, independente do establishment corporativo do Partido Democrata e dos líderes sindicais que a ele recorrem.

Sim, a campanha do Bernie foi excepcional, como afirmam Post e Smith, mas a DSA não está apostando toda a sua estratégia em eventos excepcionais. Estamos aprendendo a usá-los para fazer avançar um projeto socialista de longo prazo. É responsabilidade da DSA moldar-se em uma organização de massa enraizada na classe trabalhadora e desenvolver projetos que possam mover seus membros, e a classe trabalhadora de forma mais ampla, para a luta contra o capital. O trabalho eleitoral é apenas uma forma de fazer isso.

Então, após o fim da era Bernie, como traçar uma estratégia de eleições para a luta de classe para o DSA?

 

Usando as listas eleitorais

Post e Smith argumentam que os socialistas não devem dar nem um “quilo de carne” aos democratas, abstendo-se mesmo de lançar candidatos do DSA nas listas eleitorais do Partido Democrata. Eles defendem que a “dirty break” – uma estratégia de lançar candidatos socialistas nas listas do Partido Democrata no curto prazo com o objetivo de longo prazo de se separarem e formarem um novo partido – é fútil. Eles caracterizam a eleição dos socialistas democráticos que concorreram nas urnas democratas como golpes de sorte contra os quais o Partido Democrata está agora mais preparado para revidar. Segundo Post e Smith, mesmo o uso tático de sua lista eleitoral vai colocar os socialistas na armadilha do Partido Democrata.

A relação do DSA com o Partido Democrata continua sendo um dos principais pontos de dissenso dentro da organização. Estou satisfeita em ver Post e Smith lidando com essas questões, embora menos satisfeita em vê-los extrapolar uma posição “oficial” do DSA a partir de um artigo imperfeito de Andy Sernatinger, membro do DSA Madison, e a opinião individual de Dustin Guastella, líder dos Socialistas Democráticos para o Medicare for All. Como Emma Caterine argumentou, Sernatinger baseia sua análise em uma leitura exagerada de postagens nas mídias sociais e uma falha em realmente olhar o que as seções do DSA fizeram na base.

Não posso falar pela totalidade da DSA – nem Andy ou Dustin – mas posso elaborar a posição defendida por Bread & Roses.

Para aqueles de nós que pressionaram o DSA a adotar uma abordagem de luta de classe nas eleições, onde os objetivos principais são construir uma organização da classe trabalhadora e popularizar idéias socialistas, candidatar-se nas listas do Partido Democrata continua sendo uma escolha tática. Faz sentido em alguns contextos, como em uma eleição presidencial, porque dá alta visibilidade aos nossos candidatos. Em outros contextos, como na Califórnia e Washington, onde são usadas primárias não partidárias, candidatos candidatos sem filiação partidária podem fazer mais sentido para os objetivos eleitorais de luta de classe. O DSA ainda não explorou de forma significativa esta segunda avenida, e nós devemos fazê-lo.

A questão é que as implicações do uso das listas do Partido Democrata variam significativamente entre cidades e estados. Ainda assim, concorrer nas listas democratas, especialmente como competidores nas primárias, oferece aos nossos candidatos – e, portanto, às nossas idéias e questões – mais visibilidade do que se concorressem nas listas do Partido Verde.

A saída de Bernie da corrida certamente aumenta a aposta na visibilidade. Se ele tivesse vencido, ou mesmo ficado tempo suficiente para chegar à convenção e lutar, a esquerda poderia ter ganho uma janela mais longa para semear o descontentamento dentro do Partido Democrata. Com Bernie na Casa Branca – ou mesmo na disputa pela convenção – as ideias socialistas poderiam ter ficado no mainstream por mais tempo, e os socialistas poderiam ter sido capazes de levar os casacos de Bernie ao Congresso. Neste ponto, no entanto, tudo isso é especulação.

O que sabemos é que não temos mais a oportunidade de usar uma autoproclamada campanha socialista democrática para presidente como rodinhas de bicicleta para o treinamento de um movimento socialista ainda nascente. Mas isso não significa que a esquerda deve se acanhar das eleições. Agora devemos aprender a construir políticas de massa por conta própria.

 

Eleições e além

Post e Smith advertem contra o perigo de permitir que o eleitoralismo atrapalhem a construção dessa política de massa. Embora não tenhamos ilusões de que o socialismo pode vencer simplesmente ganhando eleições, elas continuam sendo uma arena chave da atividade política, e devemos aproveitar esta plataforma que a campanha emprestou à nossa política. Mesmo quando ganhamos eleições, colocar um socialista no cargo significa pouco quando não há um movimento da classe trabalhadora para apoiá-los enquanto eles estão lá. É por isso que uma tarefa fundamental para o DSA é preparar os membros para ocuparem empregos na base, construir sindicatos e transformá-los em organizações democráticas, lutando contra organizações que representam os interesses de seus membros – o que tem sido chamado de Estratégia Rank-and-File. Devemos também construir fortes relações entre os candidatos do DSA e o movimento sindical, tanto através do processo de campanha como enquanto eles estão no cargo.

Um exemplo sólido é o trabalho realizado pelo DSA e pelos seis vereadores de Chicago filiados ao DSA durante a greve do outono de 2019 pelos professores e funcionários escolares de Chicago contra as a secretaria de educação de Chicago. Durante a greve de 14 dias, o DSA organizou apoio, tanto na linha de piquete quanto através de um programa chamado Pão pela Educação (Bread for Ed), que preparou mais de 10.000 refeições para professores e alunos fora da escola. Os vereadores do DSA, por sua vez, usaram seus escritórios para distribuir as refeições do Bread for Ed. Esse esforço conjunto foi importante não só porque alimentou milhares de crianças e professores, mas também porque solidificou os laços entre o DSA, os vereadores da DSA e os sindicatos, contribuindo para um sentimento de união da classe trabalhadora.

O contexto de Chicago é um grande estudo de caso para a forma como podemos continuar a travar eleições para a luta de classe e construir uma base de classe trabalhadora para um novo partido. O DSA pode apresentar candidatos – na lista eleitoral do Partido Democrata ou não – e alavancar nossas relações com os sindicatos da cidade para apoiá-los. Se vencermos, temos uma tribuna para continuar a nomear o inimigo e organizar as pessoas para o nosso movimento. Se não ganharmos, teremos continuado a forjar relações entre socialistas e sindicalistas.

Dado o caráter político variado das cidades do país, isso não indica um a um todos os contextos, mas o princípio se aplica. Concretamente, isso significa que, para realizar uma estratégia eleitoral bem sucedida de luta de classes, o DSA tem duas tarefas: construir um leque de candidaturas para desenvolver nossos próprios candidatos e intensificar os esforços na estratégia “rank-and-file”.

Esta segunda tarefa é particularmente importante. Como Hamilton Nolan recentemente colocou no In These Times, só podemos construir um movimento socialista de massa “dando a milhões de pessoas a experiência em primeira mão da consciência de classe em suas próprias vidas”. Isso significa que uma estratégia eleitoral de luta de classe, para ter sucesso, requer atividade política sustentada e organização entre os períodos eleitorais.

É claro, Bernie nunca foi uma bala de prata. Ninguém – incluindo Bernie – jamais alegou que ele seria. Mas a questão agora não é “onde erramos?”, é “para onde vamos seguir?”.

Via The Call

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